{"id":371918,"date":"2025-11-23T02:31:04","date_gmt":"2025-11-23T05:31:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=371918"},"modified":"2025-11-22T21:32:12","modified_gmt":"2025-11-23T00:32:12","slug":"brasil-um-pais-preso-entre-a-lei-e-a-torcida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-um-pais-preso-entre-a-lei-e-a-torcida\/","title":{"rendered":"Brasil, um Pa\u00eds preso entre a lei e a torcida"},"content":{"rendered":"<p>A democracia brasileira j\u00e1 viu esse filme antes. Um ex-presidente levado \u00e0 pris\u00e3o sob aplausos de uma parcela da sociedade, indigna\u00e7\u00e3o de outra e certeza absoluta de poucos. Lula foi encarcerado ap\u00f3s um processo que parecia s\u00f3lido, incontest\u00e1vel, blindado pela convic\u00e7\u00e3o popular de que a Justi\u00e7a estava vencendo. Meses depois, as mesmas institui\u00e7\u00f5es que o prenderam desmontaram tudo. Os procedimentos foram anulados, as decis\u00f5es invalidadas e o pa\u00eds precisou admitir, constrangido, que o rito legal n\u00e3o havia sido t\u00e3o fiel quanto parecia. Esse epis\u00f3dio, por si s\u00f3, deveria ser o maior alerta para o que est\u00e1 acontecendo agora com Bolsonaro. N\u00e3o \u00e9 prudente repetir convic\u00e7\u00f5es absolutas em um pa\u00eds onde o pr\u00f3prio sistema jur\u00eddico j\u00e1 demonstrou ser capaz de virar do avesso.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a pris\u00e3o de um ex-presidente exige mais parcim\u00f4nia do que paix\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de apoiar ou rejeitar Lula ou Bolsonaro. Trata-se de compreender que, quando processos dessa magnitude se transformam em arenas de satisfa\u00e7\u00e3o coletiva, perde-se a no\u00e7\u00e3o do que realmente importa: o respeito rigoroso ao devido processo legal. Ningu\u00e9m discute que a lei precisa valer para todos. A quest\u00e3o \u00e9 como o pa\u00eds reage a esses epis\u00f3dios, que deveriam ser momentos de sobriedade e n\u00e3o maratonas de comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que mais se evidencia nesses momentos n\u00e3o \u00e9 a maturidade institucional. \u00c9 a polariza\u00e7\u00e3o em sua forma mais visceral, infantil, inflam\u00e1vel. A Justi\u00e7a tenta se impor, mas a pol\u00edtica sequestra o ambiente. As ruas, as redes sociais, os debates e as conversas de bar se transformam em arquibancadas. De um lado, euforia. Do outro, revolta. E entre esses dois extremos, um pa\u00eds inteiro que parece incapaz de compreender que decis\u00f5es jur\u00eddicas n\u00e3o deveriam ser insumo para guerras emocionais.<\/p>\n<p>No exterior, a leitura que se projeta \u00e9 ainda mais danosa. A imagem que passa n\u00e3o \u00e9 a de um pa\u00eds que aplica sua legisla\u00e7\u00e3o com seguran\u00e7a e racionalidade. \u00c9 a de uma na\u00e7\u00e3o que celebra ou lamenta pris\u00f5es com a l\u00f3gica de rep\u00fablica das bananas. O termo nasceu para descrever pa\u00edses com institui\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis, conflitos internos constantes e processos pol\u00edticos usados como instrumentos de disputa tribal. A semelhan\u00e7a \u00e9 inc\u00f4moda, mas real, sempre que o sistema pol\u00edtico brasileiro transforma a Justi\u00e7a em palco para acalmar \u00f3dios acumulados.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que n\u00e3o houve o que comemorar quando Lula foi preso. N\u00e3o h\u00e1 o que comemorar agora com Bolsonaro. Em nenhum dos casos o pa\u00eds ganhou. Em ambos, a democracia saiu arranhada, transformada em espet\u00e1culo, pressionada por torcidas que n\u00e3o buscam justi\u00e7a, mas satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Existe ainda outro grupo, silencioso, exausto, que n\u00e3o idolatra nem Lula, nem Bolsonaro. Para esse Brasil, a sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de vit\u00f3ria, nem de derrota. \u00c9 a percep\u00e7\u00e3o amarga de que seguimos presos ao mesmo ciclo, incapazes de aprender com a repeti\u00e7\u00e3o dos erros. S\u00e3o os que desejam institui\u00e7\u00f5es fortes, mas tamb\u00e9m desejam uma sociedade capaz de digerir decis\u00f5es judiciais sem transformar o espa\u00e7o p\u00fablico em uma arena gladiat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O cumprimento do processo legal deve ser observado e respeitado. Mas para que a democracia seja adulta, \u00e9 preciso mais do que isso. \u00c9 preciso que a Justi\u00e7a n\u00e3o seja instrumentalizada para alimentar paix\u00f5es. \u00c9 preciso que o pa\u00eds trate cada decis\u00e3o com serenidade, consci\u00eancia e prud\u00eancia, sem a ilus\u00e3o f\u00e1cil de que a queda de um l\u00edder resolve seus problemas.<\/p>\n<p>A verdadeira for\u00e7a institucional n\u00e3o est\u00e1 na pris\u00e3o de um ex-presidente, mas na capacidade de um pa\u00eds atravessar seus conflitos sem se perder em vingan\u00e7as disfar\u00e7adas de vit\u00f3ria moral. Enquanto o Brasil continuar tratando essas situa\u00e7\u00f5es como trof\u00e9us de torcida, continuar\u00e1 repetindo a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, sempre com o mesmo sinal de alerta piscando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A democracia brasileira j\u00e1 viu esse filme antes. 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