{"id":372010,"date":"2025-11-25T01:00:06","date_gmt":"2025-11-25T04:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=372010"},"modified":"2025-11-23T19:45:18","modified_gmt":"2025-11-23T22:45:18","slug":"prosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/prosa\/","title":{"rendered":"Prosa"},"content":{"rendered":"<p>A tarde ca\u00eda lenta sobre a Rua Augusta quando entrei na livraria, fugindo da garoa fina que insistia em molhar o asfalto. O cheiro de papel velho me abra\u00e7ou como uma av\u00f3 que n\u00e3o vejo h\u00e1 anos. Fui direto \u00e0 prateleira de literatura brasileira, procurando um nome que n\u00e3o encontrava nos cat\u00e1logos de sempre. L\u00e1 estava: <em>Becas Negras<\/em>, de Geni Guimar\u00e3es. Abri ao acaso e li: &#8220;Minha m\u00e3e dizia que a gente nasce com um destino, mas eu nasci pra desmentir o dela.&#8221; Fechei o livro. Respirei fundo. Era isso. Era exatamente isso.<\/p>\n<p>Geni n\u00e3o \u00e9 nome de capa de revista, mas deveria ser. Nascida em 1936, em S\u00e3o Carlos, ela cresceu entre o caf\u00e9 e o algod\u00e3o, entre o sil\u00eancio das mulheres que trabalhavam dobrado e o barulho das m\u00e1quinas que engoliam sonhos. Professora, contista, romancista. Escreveu sobre meninas negras que estudam \u00e0 noite, que carregam livros na cabe\u00e7a como se fossem coroas. Em <em>A Cor da Ternura<\/em>, ela n\u00e3o fala de inf\u00e2ncia. Fala de sobreviv\u00eancia disfar\u00e7ada de brincadeira. A boneca de pano que a menina ganha n\u00e3o tem rosto e isso \u00e9 met\u00e1fora, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade. Quantas de n\u00f3s n\u00e3o tivemos rostos nos brinquedos, nas hist\u00f3rias, nos espelhos?<\/p>\n<p>Passei para outra prateleira. <em>Olhos d&#8217;\u00c1gua<\/em>, de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. O livro parecia me olhar de volta. Lembrei da vez em que a ouvi numa mesa-redonda: &#8220;Eu n\u00e3o escrevo para ser inclu\u00edda. Eu escrevo porque j\u00e1 estou aqui.&#8221; Naquele dia, ela usava um turbante amarelo que parecia sol. Contou que, quando crian\u00e7a, via a m\u00e3e lavar roupa no tanque e pensava: &#8220;Um dia vou escrever sobre essas m\u00e3os.&#8221; E escreveu. Escreveu tanto que as m\u00e3os da m\u00e3e viraram rio, viraram mar, viraram o Brasil inteiro.<\/p>\n<p>Do lado, L\u00e9lia Gonzalez: Por um feminismo afro-latino-americano. L\u00e9lia n\u00e3o era s\u00f3 escritora. Era antrop\u00f3loga, psicanalista, ativista. Falava com sotaque baiano e teoria francesa na mesma frase. Dizia que o racismo no Brasil \u00e9 como feijoada: todo mundo come, mas ningu\u00e9m assume o tempero. Ria alto. Morreu cedo demais, em 1994, mas deixou um legado que ainda lateja: a ideia de que o feminismo branco n\u00e3o serve pra quem carrega o peso de tr\u00eas s\u00e9culos de senzala.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da livraria com tr\u00eas livros na sacola e um n\u00f3 na garganta. Na rua, uma menina negra passava com fones de ouvido, cantando baixinho. Tinha o cabelo crespo preso num coque alto, mochila nas costas, t\u00eanis surrado. Parecia sa\u00eddas das p\u00e1ginas que eu acabara de ler. Pensei em Carolina Maria de Jesus, que catava papel\u00e3o pra sustentar os filhos e ainda encontrava tempo pra escrever. Pensei em Miriam Alves, que transformou o sarau num ato pol\u00edtico. Pensei em todas elas, as que est\u00e3o nos livros e as que ainda v\u00e3o escrev\u00ea-los.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus passou lotado. Entrei mesmo assim. Sentei perto da janela e abri <em>Becas Negras<\/em> de novo. Li uma frase que Geni escreveu sobre a av\u00f3: &#8220;Ela n\u00e3o sabia ler, mas sabia contar hist\u00f3rias que faziam o tempo parar.&#8221; Fechei os olhos. O Brasil inteiro cabia ali: na voz de uma av\u00f3 analfabeta, na pena de uma escritora que ousou ser, na menina do \u00f4nibus que talvez, amanh\u00e3, escreva o pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>Cheguei em casa. Coloquei os livros na mesa. Acendi uma vela. N\u00e3o era ritual. Era s\u00f3 gratid\u00e3o. Por elas. Por n\u00f3s. Pelo Brasil que ainda n\u00e3o se viu inteiro, mas que j\u00e1 come\u00e7ou a se escrever linha por linha, mulher por mulher, voz por voz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tarde ca\u00eda lenta sobre a Rua Augusta quando entrei na livraria, fugindo da garoa fina que insistia em molhar o asfalto. O cheiro de papel velho me abra\u00e7ou como uma av\u00f3 que n\u00e3o vejo h\u00e1 anos. 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