{"id":372015,"date":"2025-11-26T00:15:28","date_gmt":"2025-11-26T03:15:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=372015"},"modified":"2025-11-23T19:52:50","modified_gmt":"2025-11-23T22:52:50","slug":"as-filhas-de-oxum-nas-paginas-do-vento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-filhas-de-oxum-nas-paginas-do-vento\/","title":{"rendered":"As Filhas de Oxum nas P\u00e1ginas do Vento"},"content":{"rendered":"<p>Quando a lua se banha no rio Tiet\u00ea e as estrelas se acendem como olhos de quilombo, eu ou\u00e7o o sussurro das mulheres negras que tecem a literatura brasileira com fios de \u00e9bano e ouro. Elas n\u00e3o chegam de mansinho. Chegam como tempestade de ver\u00e3o: trov\u00e3o na garganta, rel\u00e2mpago na pena.<\/p>\n<p>Carolina Maria de Jesus surge do quarto de despejo como uma f\u00eanix de latas velhas. Seus versos s\u00e3o ossos de fome, mastigados pela noite: &#8220;O lixo \u00e9 meu espelho, e nele vejo o Brasil&#8221;. Cada palavra \u00e9 um punhado de terra jogado no rosto da indiferen\u00e7a. Ela escreve com a tinta da mis\u00e9ria, e a mis\u00e9ria vira poema vira profecia.<\/p>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o Evaristo dan\u00e7a na escreviv\u00eancia como quem gira no terreiro. Seu corpo \u00e9 rio, \u00e9 ancestral, \u00e9 ponte entre o que foi arrancado e o que resiste. &#8220;Escrevo com o sangue das av\u00f3s que nunca souberam o nome das letras&#8221;, murmura, e cada s\u00edlaba \u00e9 um eb\u00f3 de mem\u00f3ria. Em Ponci\u00e1 Vic\u00eancio, o tempo se curva: o passado sangra no presente, o presente floresce no futuro. Ela n\u00e3o conta hist\u00f3rias. Ela as invoca.<\/p>\n<p>Djamila Ribeiro entra como um sol negro que queima o mito. Seus ensaios s\u00e3o facas de luz: cortam a democracia de mentira, abrem feridas que o Brasil finge n\u00e3o ter. &#8220;Quem tem medo do feminismo negro?&#8221;, pergunta, e a resposta \u00e9 o sil\u00eancio das elites. Mas o sil\u00eancio n\u00e3o cala Djamila. Ela \u00e9 o grito que ecoa da senzala \u00e0 universidade, da feira ao congresso. Sua voz \u00e9 um quilombo de ideias.<\/p>\n<p>Miriam Alves \u00e9 o sarau que se faz carne. Seus poemas s\u00e3o tambores: batem no peito, acordam os mortos, fazem dan\u00e7ar os vivos. &#8220;Minha pele \u00e9 mapa de estrelas ca\u00eddas&#8221;, canta, e nesse mapa cabem todas as di\u00e1sporas as que vieram nos por\u00f5es, as que ainda v\u00eam nos \u00f4nibus lotados. Miriam n\u00e3o escreve para ser lida. Escreve para ser sentida na pele, no ventre, na alma.<\/p>\n<p>Essas mulheres s\u00e3o as filhas de Oxum que carregam espelhos d&#8217;\u00e1gua nas m\u00e3os. Nelas, o Brasil se v\u00ea n\u00e3o o Brasil das novelas, mas o Brasil das veias abertas, das vozes roucas, dos corpos que resistem. S\u00e3o as rainhas sem coroa que coroam a literatura com ax\u00e9. E enquanto houver uma menina negra com um caderno escondido debaixo do travesseiro, sonhando em ser poeta, elas estar\u00e3o l\u00e1 n\u00e3o como musas, mas como orix\u00e1s de tinta e papel, sussurrando no vento: &#8220;Escreva, filha. A tua voz \u00e9 o Brasil que ainda n\u00e3o nasceu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a lua se banha no rio Tiet\u00ea e as estrelas se acendem como olhos de quilombo, eu ou\u00e7o o sussurro das mulheres negras que tecem a literatura brasileira com fios de \u00e9bano e ouro. Elas n\u00e3o chegam de mansinho. Chegam como tempestade de ver\u00e3o: trov\u00e3o na garganta, rel\u00e2mpago na pena. 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