{"id":372124,"date":"2025-11-28T01:00:18","date_gmt":"2025-11-28T04:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=372124"},"modified":"2025-11-24T01:27:03","modified_gmt":"2025-11-24T04:27:03","slug":"cartinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cartinhas\/","title":{"rendered":"Cartinhas"},"content":{"rendered":"<p>Eu conto, fabulo, cr\u00f4nico, j\u00e1 romanceei\/novelei, j\u00e1 poemei, por vezes pasticho, mas h\u00e1 um g\u00eanero liter\u00e1rio do qual nunca cheguei perto: as cartinhas dirigidas aos entes queridos que se foram. N\u00e3o as missivas empoladas escritas nas mesas brancas kardecistas, mas as produ\u00e7\u00f5es a\u00e7ucaradas, capazes de provocar coma diab\u00e9tico, postadas nas redes sociais.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que uma de minhas can\u00e7\u00f5es prediletas \u2013 Iracema, de Adoniran Barbosa \u2013 segue esse esquema. Mas o compositor mescla censuras, do tipo \u201cvoc\u00ea atravessou contram\u00e3o\u201d a confiss\u00f5es: \u201cIracema, eu perdi o seu retrato\u201d, e isso garante a leveza, o frescor do texto. J\u00e1 as cartinhas da tigrada para os entes queridos parecem explorar apenas dois versos de Adoniran: \u201cE hoje ela vive l\u00e1 no c\u00e9u.\/ Ela vive bem juntinho do nosso senhor\u201d. Tudo se passa como se cada ente querido nosso, por mais canalha que tenha sido, ganhe asinhas e uma harpinha no p\u00f3s-vida e fique bem perto de Deus. Os mais l\u00facidos riem dessa cren\u00e7a. Como escreveu o romancista norte-americano Kurt Vonnegut, \u201cSe eu morrer (&#8230;), espero que alguns de voc\u00eas digam: \u2018O Kurt est\u00e1 no c\u00e9u agora\u2019. Essa \u00e9 a minha piada favorita\u201d.<\/p>\n<p>Eu podia continuar a soltar os cachorros contra esse (argh) g\u00eanero liter\u00e1rio, mas prefiro dar a palavra a um dos interessados.<\/p>\n<p>Plano podre, 28 de novembro de 2025<\/p>\n<p>Filha, li sua mensagem. Voc\u00ea parece imaginar que fico o tempo todo olhando pra voc\u00eas vivos, mandando b\u00ean\u00e7\u00e3os, sorrindo e babando na gravata (eu, n\u00e3o voc\u00eas). N\u00e3o fa\u00e7o nada disso, nenhum de n\u00f3s faz. Em Mo\u00e7ambique e outras regi\u00f5es africanos, os mortos de uma fam\u00edlia juntam-se aos demais ancestrais como esp\u00edritos protetores, misto de anjos da guarda e encantados, quer dizer, pequenos deuses. Mas voc\u00ea \u00e9 cat\u00f3lica, acredita em anjos da guarda e santos, e eles \u2013 se \u00e9 que existem \u2013 podem interceder, intervir. N\u00f3s n\u00e3o. N\u00e3o sei se voc\u00ea percebeu, fomos desta para pior. Muito pior.<\/p>\n<p>Pelo cabe\u00e7alho da carta, voc\u00ea pode perceber que n\u00e3o estou no c\u00e9u. Nem no inferno, diga-se. Estou no que chamo de plano podre, um plano espiritual tosco pra ded\u00e9u. Mas h\u00e1 outros piores. Um autor (n\u00e3o lembro qual, minha mem\u00f3ria continua uma lama) observou que o c\u00e9u parece uma granja de perus mal administrada. Essa defini\u00e7\u00e3o se aplica a meu plano espiritual e a todos os que conhe\u00e7o, administrados com a bunda.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 chato. Cha-to. \u00c9 o t\u00e9dio que leva a maioria de n\u00f3s \u00e0s filas para reencarnar. Melhor voltar a ser beb\u00ea, se cagar o tempo todo, ter de aprender tudo de novo, do que permanecer nessa pasmaceira. Ent\u00e3o, s\u00f3 tenho um conselho pra voc\u00ea: viva enquanto est\u00e1 viva, solte a franga, meta o p\u00e9 na jaca. Porque, depois de bater as botas, n\u00e3o d\u00e1, a gente se torna mais um peru na granja. Ou pior, um chester.<\/p>\n<p>Se quiser perder seu tempo me mandando doces mensagens, v\u00e1 em frente. Mas, por favor, n\u00e3o acenda velas por minha alma, que nem voc\u00ea fez outro dia. Velas acesas produzem calor, e aqui j\u00e1 \u00e9 quente adoidado&#8230;<\/p>\n<p>Beijos afetuosos proc\u00ea e pras crian\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu conto, fabulo, cr\u00f4nico, j\u00e1 romanceei\/novelei, j\u00e1 poemei, por vezes pasticho, mas h\u00e1 um g\u00eanero liter\u00e1rio do qual nunca cheguei perto: as cartinhas dirigidas aos entes queridos que se foram. N\u00e3o as missivas empoladas escritas nas mesas brancas kardecistas, mas as produ\u00e7\u00f5es a\u00e7ucaradas, capazes de provocar coma diab\u00e9tico, postadas nas redes sociais. 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