{"id":372459,"date":"2025-11-27T00:00:12","date_gmt":"2025-11-27T03:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=372459"},"modified":"2025-11-26T22:30:53","modified_gmt":"2025-11-27T01:30:53","slug":"o-beco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-beco\/","title":{"rendered":"O Beco"},"content":{"rendered":"<p>Meninas e meninos, todos com n\u00e3o mais de dez anos, corriam de um lado para outro naquele beco mal iluminado. N\u00e3o raro, alguns ratos pareciam querer entrar na brincadeira, tamanha a euforia da molecada. As moscas, no entanto, demonstravam maior interesse em sobrevoar as ca\u00e7ambas de lixo, que se amontoavam exalando um cheiro horr\u00edvel.<\/p>\n<p>As paredes ao redor eram cobertas por tintas e mais tintas de grafites esquecidos pelos olhares dos que por ali haviam passado. Casas praticamente abandonadas circundavam aquele beco. Todas com as mesmas cores, como se combinassem at\u00e9 as falhas rudemente encobertas por um reboco sem pintura, tijolos que se sobressa\u00edam como espinhos que machucam a carne.<\/p>\n<p>Os poucos moradores eram os esquecidos daquela cidade, que cada vez mais havia crescido para o lado oposto. Sim, o lado oposto! O lado onde tudo parecia florescer, a despeito da mis\u00e9ria que ficava cada vez mais para tr\u00e1s. Todas as mazelas cada vez mais incrustadas naquele beco.<\/p>\n<p>Entretanto, aquelas crian\u00e7as pareciam n\u00e3o se importar com a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de pen\u00faria. A gritaria chegava a ser ensurdecedora. Seja como for, os raros transeuntes n\u00e3o demonstravam qualquer interesse naqueles pirralhos.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 passou como um sopro. Ningu\u00e9m queria deixar de participar do pega-pega, do pique-esconde, da queimada. As brincadeiras se sucediam, se sobrepunham, se misturavam como se tudo fosse uma coisa s\u00f3. Todas aquelas criaturas mi\u00fadas sorriam seus sorrisos infantis, algumas sem os dent\u00f5es da frente, que h\u00e1 pouco haviam ca\u00eddo.<\/p>\n<p>Logo chegou a tarde, que correu ligeira como aquelas pernas curtas, que cismavam em permanecer naquele beco imundo. O sol a pino fez os ratos desistirem de acompanhar tamanha balb\u00fardia, que parecia n\u00e3o ter fim. Cada moleque tentava gritar mais algo que o outro, como se disputassem a aten\u00e7\u00e3o de todos os presentes.<\/p>\n<p>Aos primeiros sinais da noite, os poucos moradores do local come\u00e7aram a retornar para os seus paup\u00e9rrimos lares. As horas se adiantaram, enquanto o sono come\u00e7ou a tomar aqueles seres em suas casas. E foi o que aconteceu, at\u00e9 que todos os ocupantes adormecessem em suas camas pu\u00eddas. J\u00e1 no beco, as crian\u00e7as ainda guardavam energia para v\u00e1rias horas.<\/p>\n<p>A madrugada veio e, com ela, o ranger das rodas enferrujadas de uma velha carro\u00e7a, puxada por um cambaleante cavalo. O animal arfava, enquanto era chicoteado por um homem de chap\u00e9u de palha. E antes que esse ser repugnante pudesse perceber a movimenta\u00e7\u00e3o no beco, todas as crian\u00e7as correram para tr\u00e1s de uma daquelas enormes lixeiras.<\/p>\n<p>O homem parou a carro\u00e7a bem perto de uma das ca\u00e7ambas. Observou para todos os cantos. Nada! Nem uma alma viva! Ele soltou o chicote e desceu da carro\u00e7a. Era mais alto do que se supunha, apesar das costas arqueadas. O rosto encovado talvez fossem marcas de uma vida sofrida.<\/p>\n<p>Abriu a enorme tampa do cont\u00eainer de lixo. Deu mais uma olhada ao redor, em seguida se dirigiu at\u00e9 a traseira da carro\u00e7a, arriou a tampa, puxou um saco encardido. Com um pouco de esfor\u00e7o, o colocou sobre o ombro direito. Aproximou-se o m\u00e1ximo poss\u00edvel e, ent\u00e3o, deixou que o volume ca\u00edsse direto na ca\u00e7amba. Um som surdo se fez notar. Novo olhar ao redor. Ningu\u00e9m! Nenhuma alma perdida.<\/p>\n<p>Fechou a tampa, subiu na carro\u00e7a, pegou o chicote. O cavalo, talvez percebendo o que lhe iria acontecer, adiantou o passo e logo a carro\u00e7a desapareceu daquele beco escuro. O sil\u00eancio permaneceu naquele local, pois as crian\u00e7as n\u00e3o se atreviam nem a respirar, tamanho o medo que lhes tomou por completo.<\/p>\n<p>Alguns minutos depois, no entanto, um dos mi\u00fados saiu detr\u00e1s da lixeira. N\u00e3o que fosse o mais corajoso, mas era o que possu\u00eda o maior sentimento de curiosidade. Um a um foram ao seu encal\u00e7o, at\u00e9 que chegaram \u00e0 outra ca\u00e7amba de lixo, justamente aquela onde o homem havia jogado o tal saco encardido.<\/p>\n<p>Com certo esfor\u00e7o, conseguiram suspender a tampa. Abriram o saco e, ent\u00e3o, perceberam que ali havia o corpo de uma menina. Mas n\u00e3o era apenas isso que estava naquela enorme caixa de metal enferrujada. Outros corpos jaziam ali. As crian\u00e7as, olhos arregalados, se reconheceram, uma a uma, naqueles cad\u00e1veres em avan\u00e7ado estado de decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meninas e meninos, todos com n\u00e3o mais de dez anos, corriam de um lado para outro naquele beco mal iluminado. N\u00e3o raro, alguns ratos pareciam querer entrar na brincadeira, tamanha a euforia da molecada. 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