{"id":372757,"date":"2025-11-29T02:00:06","date_gmt":"2025-11-29T05:00:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=372757"},"modified":"2025-11-28T23:13:42","modified_gmt":"2025-11-29T02:13:42","slug":"celestiano-e-a-firma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/celestiano-e-a-firma\/","title":{"rendered":"Celestiano e a firma"},"content":{"rendered":"<p>Celestiano era sujeito respeit\u00e1vel no Cruzeiro Velho, especialmente aos olhos dos frequentadores da ARUC, a mais tradicional escola de samba do Distrito Federal. E quem visse a criatura cercada de bajuladores n\u00e3o seria capaz de imaginar que nem sempre a situa\u00e7\u00e3o havia sido aquela.<\/p>\n<p>Bem, para que voc\u00ea que est\u00e1 me lendo possa entender de que forma o velho Celestiano veio parar aqui com tamanha reputa\u00e7\u00e3o, precisaremos retornar ao long\u00ednquo ano de 1974, quando ele desfrutava o frescor dos 28 anos. Isso sem contar que o gajo era tido como bonit\u00e3o, apesar da completa falta de recursos para bancar at\u00e9 mesmo uma simples cerveja para os brotinhos que lhe lan\u00e7avam olhares amb\u00edguos.<\/p>\n<p>De \u00edndole quase d\u00f3cil, Celestiano acabou cruzando o caminho de L\u00facio, cujo pavio curto era not\u00f3rio naqueles idos. Um brig\u00e3o, mas que n\u00e3o sabia se defender com efic\u00e1cia, haja vista os diversos hematomas que cismavam em aparecer a cada contenda. Bastava um olhar enviesado, um pis\u00e3o ou uma esbarrada de ombros para o sujeito se eri\u00e7ar que nem galo de briga. E era lapada para todo lado.<\/p>\n<p>De boa estatura e provido de carca\u00e7a desej\u00e1vel para um lutador, Celestiano n\u00e3o via motivo para brigas. Todavia, n\u00e3o suportava covardia, ainda mais diante dos seus olhos, como a que ocorreu naqueles idos. L\u00facio, cercado por quatro tipos mais parrudos, parecia ter encontrado o seu fim. Mas eis que Celestiano, sem dizer palavras, j\u00e1 nocauteou o primeiro e, em seguida, o segundo e o terceiro. Quanto ao quarto elemento, nem foi preciso agir, pois o tipo tratou de se evadir do local que nem rato que foge para o bueiro.<\/p>\n<p>L\u00facio, ainda com os punhos em riste, olhou com desconfian\u00e7a para o seu salvador. Em seguida, o frangote come\u00e7ou a relaxar at\u00e9 que, finalmente, baixou a guarda.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado pela ajuda, amigo, mas n\u00e3o precisava.<\/p>\n<p>Celestiano sorriu amigavelmente e, como era da paz, concordou com um leve aceno de cabe\u00e7a. N\u00e3o seria ele a inflamar os \u00e2nimos daquele homem, ainda mais porque, como aprendera com o av\u00f4, os frangotes s\u00e3o os mais f\u00e1ceis de serem derrubados, mas os mais complicados de serem vencidos, pois nunca desistem de lutar. Estendeu a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Meu nome \u00e9 Celestiano.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00facio. Prazer.<\/p>\n<p>\u2014 Prazer.<\/p>\n<p>Aquela briga teria sido por disputa de \u00e1rea de jogo do bicho. E L\u00facio estava se tornando gra\u00fado demais para os olhos dos mais antigos. Decidido que era, precisava marcar seu territ\u00f3rio. E ele ficou muito agradecido pela ajuda inesperada e, ent\u00e3o, arrumou posi\u00e7\u00e3o para Celestiano na firma.<\/p>\n<p>Apesar das incongru\u00eancias e talvez por conta delas, a amizade entre aqueles dois foi instant\u00e2nea e durou at\u00e9 o m\u00eas passado, quando L\u00facio, que enfrentara problemas de sa\u00fade, sucumbiu. \u00c9 verdade que a vida do bicheiro poderia ter sido muito mais curta, j\u00e1 que oportunidades n\u00e3o lhe faltaram ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Antes de dar adeus ao mundo dos vivos, L\u00facio mandou chamar Celestiano, que gozava de confort\u00e1vel aposentadoria em Cabo de Santo Agostinho, litoral de Pernambuco. Este, quando soube do quadro de sa\u00fade do amigo, n\u00e3o teve d\u00favida. Tomou um avi\u00e3o no mesmo dia e desceu em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Foi o tempo de chegar e trocar poucas palavras com L\u00facio, cuja fisionomia n\u00e3o deixava d\u00favida quanto ao quadro terminal. Celestiano se aproximou do leito, pegou a m\u00e3o do antigo patr\u00e3o, que disse que a firma precisava dele novamente.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 estou velho, L\u00facio.<\/p>\n<p>\u2014 Todos estamos, meu amigo. Mas meu filho n\u00e3o saber\u00e1 tocar os neg\u00f3cios sozinho.<\/p>\n<p>Celestiano, sem alternativa, assentiu com a cabe\u00e7a. Pacto firmado, seguiu-se o seguinte interl\u00fadio.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, Celestiano, o fim da linha chegou pra mim.<\/p>\n<p>\u2014 Que nada! Voc\u00ea nunca vai morrer, L\u00facio.<\/p>\n<p>\u2014 Quem n\u00e3o morre n\u00e3o v\u00ea Deus.<\/p>\n<p>No dia seguinte, L\u00facio foi enterrado no Cemit\u00e9rio Campo da Esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celestiano era sujeito respeit\u00e1vel no Cruzeiro Velho, especialmente aos olhos dos frequentadores da ARUC, a mais tradicional escola de samba do Distrito Federal. 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