{"id":372866,"date":"2025-11-30T02:00:56","date_gmt":"2025-11-30T05:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=372866"},"modified":"2025-11-29T18:57:54","modified_gmt":"2025-11-29T21:57:54","slug":"onofre-o-miseravel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/onofre-o-miseravel\/","title":{"rendered":"Onofre, o miser\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 gente que tem a mania de fracassar. Isso mesmo. Pode at\u00e9 parecer loucura, mas conheci um tipo assim, o Onofre. Pois voc\u00ea acredita que o gajo n\u00e3o podia ver uma oportunidade de fracassar que corria para ter mais um rev\u00e9s?! Loucura, insanidade, masoquismo, seja l\u00e1 o que for, \u00e9 isso que acontecia.<\/p>\n<p>Onofre, assim como os demais na d\u00e9cada de 1940 ali naquele quadradinho em Goi\u00e1s, que nem sonhava se tornar a capital do pa\u00eds, vivia uma vida comum de menino. \u00c9 verdade que a pobreza era flagrante, mas o ent\u00e3o garoto nem se dava conta de sua situa\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque lhe faltava tempo para pensar em outras coisas al\u00e9m de acordar cedo e ajudar o pai, meeiro, na lavoura e na lida de animais.<\/p>\n<p>De tanto pisar em estrume, Onofre sentiu certo desconforto quando sentiu pela primeira vez a dureza do asfalto. Como se aquela vida corrida e cheia de fuma\u00e7a e indiferen\u00e7a n\u00e3o lhe pertencesse. Fora alijado da ro\u00e7a pelos donos da terra, que n\u00e3o queriam mais saber daquele povo. Que fossem embora em busca de novos ares, mesmo que morressem sufocados por falta de perspectivas. N\u00e3o era problema deles.<\/p>\n<p>Quando chegou o tempo, alguns foram empurrados para o Rio de Janeiro, outros para S\u00e3o Paulo. Onofre, que n\u00e3o desejou fazer tamanha travessia, preferiu ficar pelas redondezas, ainda mais porque, com a chegada de milhares de trabalhadores, ditos candangos, de todas as partes, a regi\u00e3o, que n\u00e3o parava de crescer, ofertava emprego para indiv\u00edduos sem muita qualifica\u00e7\u00e3o. E o que antes era pasto, lavoura e mata, agora se transformara em canteiro de obras.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe fazer massa de cimento?<\/p>\n<p>\u2014 Num sei.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 f\u00e1cil. At\u00e9 burro aprende.<\/p>\n<p>Aprendeu. E, que nem burro de carga, carregava o que fosse preciso nos ombros. E cada vez mais o peso encurvava a postura do homem, que mais parecia animal diante dos que detinham o poder de mandar. Melhor acatar ou, do contr\u00e1rio, era mandado embora, ainda mais porque, como estava no papel, a era da chibata havia ficado para tr\u00e1s. Mentira das cabeludas, que ningu\u00e9m acreditava, mas n\u00e3o havia corajoso para abrir a boca.<\/p>\n<p>Por destino ou coisa que o valha, eis que surgiu oportunidade de trocar o cabo da enxada por chicote. Receoso da mudan\u00e7a que se avizinhava, faltou-lhe \u00edmpeto para cambiar o mundo dos miser\u00e1veis por algo que s\u00f3 conhecia atrav\u00e9s dos olhos dos acostumados a apanhar. Declinou.<\/p>\n<p>\u2014 Num sei fazer isso, n\u00e3o, seu mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Um mais esperto tomou a dianteira e se prontificou a pegar o cargo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu aceito! E posso come\u00e7ar agorinha mesmo.<\/p>\n<p>Menos desprovido de carnes, o minguado tratou logo de pegar o porrete antes que desistissem de lhe dar o emprego. E o primeiro a sofrer as agruras foi justamente o Onofre, que trope\u00e7ou nos pr\u00f3prios p\u00e9s e derramou dois baldes cheios de massa. E toma! E toma! Que esse desperd\u00edcio vai sair do seu sal\u00e1rio, miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>Percebe-se logo acima que a v\u00edrgula entre sal\u00e1rio e miser\u00e1vel poderia ser retirada, pois tanto Onofre como o sal\u00e1rio que recebia eram miser\u00e1veis. Mis\u00e9ria, ali\u00e1s, poderia ser o sobrenome do sujeito. Onofre Miser\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 mal mais apropriado do que esse para algu\u00e9m t\u00e3o afeito a sentir o gosto amargo do azedume da amargura. Se lhe tirarmos isso, \u00e9 capaz do homem reclamar por sua aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Psicologia, meu caro. Psicologia! N\u00e3o raro, at\u00e9 os pr\u00f3prios entendidos se percebem em mato sem cachorro. E n\u00e3o pense voc\u00ea que a coisa parou por a\u00ed. Nananinan\u00e3o! Se h\u00e1 raios que caem duas, tr\u00eas e at\u00e9 quatro vezes no mesmo lugar, esse \u00e9 o tal raio da pen\u00faria, t\u00e3o conhecido dos que praticam a mendic\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Onofre n\u00e3o quis ou n\u00e3o percebeu a oportunidade de se tornar servidor p\u00fablico, seja na ent\u00e3o da Guarda Especial de Bras\u00edlia (GEB), seja de chofer de algum ministro de Estado, seja at\u00e9 mesmo de cont\u00ednuo da C\u00e2mara dos Deputados. Era como se o sujeito jogasse contra o pr\u00f3prio time, que apitasse a favor do advers\u00e1rio, que fizesse de tudo para que o inimigo o sobrepujasse.<\/p>\n<p>N\u00e3o morreu esquecido, pois n\u00e3o havia criatura que se lembrasse do Onofre.<\/p>\n<p>\u2014 Onofre?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Que Onofre?<\/p>\n<p>\u2014 Dizem que \u00e9 um que vivia por aqui desde bem antes de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Dos Santos?<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser. Talvez Oliveira ou da Silva. V\u00e1 saber?!<\/p>\n<p>\u2014 Num sei. Mas por que pergunta?<\/p>\n<p>\u2014 Por nada.<\/p>\n<p>\u2014 Por nada n\u00e3o pode ser. Se n\u00e3o, nem perguntava.<\/p>\n<p>\u2014 Curiosidade apenas.<\/p>\n<p>\u2014 Pois agora me lembrei de um Onofre. Acho que era mesmo Onofre. Morreu n\u00e3o faz nem um m\u00eas. Dizem que foi massa de cimento.<\/p>\n<p>\u2014 Massa de cimento?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Massa de cimento.<\/p>\n<p>\u2014 E como \u00e9 que pode um tro\u00e7o desses?<\/p>\n<p>\u2014 Pois esse tal Onofre deu bobeira justamente quando um caminh\u00e3o-betoneira derramou aquela montanha de massa de cimento. S\u00f3 descobriram o sujeito dois dias depois. Duro que nem asfalto.<\/p>\n<p>\u2014 Eita! Coitado!<\/p>\n<p>\u2014 Ningu\u00e9m liga, n\u00e3o. Era apenas mais um miser\u00e1vel neste mundo de Deus.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 gente que tem a mania de fracassar. Isso mesmo. Pode at\u00e9 parecer loucura, mas conheci um tipo assim, o Onofre. Pois voc\u00ea acredita que o gajo n\u00e3o podia ver uma oportunidade de fracassar que corria para ter mais um rev\u00e9s?! 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