{"id":372923,"date":"2025-12-02T01:00:03","date_gmt":"2025-12-02T04:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=372923"},"modified":"2025-11-29T23:20:54","modified_gmt":"2025-11-30T02:20:54","slug":"valtencir-nao-perdoava-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/valtencir-nao-perdoava-ninguem\/","title":{"rendered":"Valtencir n\u00e3o perdoava ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p>Valtencir n\u00e3o era um velho gaiteiro. Primeiro, porque n\u00e3o era velho, embora caminhasse rapidinho para esse status, tinha 56 anos bem rodados. Segundo, porque n\u00e3o era gaiteiro, e sim multi-instrumentista: gaita, viol\u00e3o, piano, saxofone, at\u00e9 bumbo, todos esses instrumentos eram metaforicamente postos a servi\u00e7o de sua propens\u00e3o, seu v\u00edcio incorrig\u00edvel, de cobi\u00e7ar a mulher do pr\u00f3ximo. De prefer\u00eancia quando o pr\u00f3ximo n\u00e3o estava pr\u00f3ximo, mas, se estivesse, azar o dele.<\/p>\n<p>Isso o levava a n\u00e3o deixar passar um piteuzinho \u2013 mulheres dos 18 aos 78 \u2013 sem que lhe dirigisse um galanteio. Em geral sem a pretens\u00e3o de marcar um gol de cama, s\u00f3 pra manter a minutagem, conservar-se em forma no gramado.<\/p>\n<p>O quase velho mais que gaiteiro tinha um amigo de inf\u00e2ncia, Dermeval, dois anos mais novo que ele. A amizade permaneceu viva ao longo de cinco d\u00e9cadas, alimentada pela paix\u00e3o club\u00edstica (ambos torciam pelo Flamengo), pela milit\u00e2ncia de esquerda, antiditadura militar e antibozo e por gostos compartilhados, entre eles a cobi\u00e7a \u00e0 mulher do pr\u00f3ximo. S\u00f3 que, como a realidade segue caminhos mais tortuosos que a fic\u00e7\u00e3o, Dermeval havia (temporariamente?) pendurado as chuteiras e estava vivendo um amorzinho gostoso com Teresa, uma lourinha 25 anos mais nova do que ele.<\/p>\n<p>Certa tarde, ao passearem pelo Aterro do Flamengo, Dermeval e Teresa trombaram com Valtencir. Houve as apresenta\u00e7\u00f5es, os \u201cmuito prazer\u201d, e come\u00e7aram a papear. O improv\u00e1vel casal percebeu, sem esfor\u00e7o, que os olhos do mais que gaiteiro brilhavam e que ele babava na gravata inexistente; era como se estivesse morto de fome e visse a mo\u00e7oila transformar-se em uma suculenta coxa de frango, como sucedeu a Charles Chaplin no filme Em busca do ouro. Mais ainda, as m\u00e3os de Valtencir n\u00e3o paravam quietas \u2013 mas cada gesto que poderia ser ofensivo era acompanhado de um olhar mais de admira\u00e7\u00e3o do que de tes\u00e3o, por um riso contagiante, cheio de simpatia, e pela frase \u201cCom todo o respeito!\u201d, que virou bord\u00e3o.<\/p>\n<p>Tipo assim:<\/p>\n<p>&#8211; Que cabelo lourinho! Posso tocar? Com todo o respeito!<\/p>\n<p>&#8211; Que rostinho lindo! Posso acariciar por um momento, s\u00f3 um momentinho? Com todo o respeito!<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel zangar-se, sentir ci\u00fames diante de uma paquera t\u00e3o ostensiva, mas t\u00e3o pouco agressiva, no melhor estilo da malandragem brasileira. Dermeval estava se divertindo com os esfor\u00e7os do amigo para seduzir, com todo o respeito, a sua mulher; e decidiu dar-lhe uma chance, ver se ele aproveitava a minutagem e marcava um gola\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Olhem, Teresa, Valtencir, me bateu uma senhora dor de cabe\u00e7a. Vou pra casa, s\u00e3o s\u00f3 dois quarteir\u00f5es. Voc\u00eas continuem a conversar, deu pra perceber que est\u00e3o gostando da companhia um do outro.<\/p>\n<p>Deu um abra\u00e7\u00e3o no amigo, um beijo na namorada e se afastou, recusando com um sorriso a oferta da mo\u00e7a para acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Teresa chegou no apartamento quatro horas depois. Deparou-se, como esperava, com o sil\u00eancio interrogativo de Dermeval e come\u00e7ou a explicar:<\/p>\n<p>&#8211; Foi uma tarde agrad\u00e1vel. Engra\u00e7ado, a paquera a todo vapor parou quando voc\u00ea se foi; era como se estivesse se exibindo para voc\u00ea. Ele cessou de buscar pretextos para me tocar, foi um perfeito cavalheiro. Ou quase isso \u2013 de um risinho e prosseguiu. \u2013 Depois tomamos um chopinho, e s\u00f3 ent\u00e3o o lobo mau voltou, propondo que f\u00f4ssemos para um lugarzinho mais discreto e aconchegante.<\/p>\n<p>Silenciou um instante, depois quebrou o suspense.<\/p>\n<p>&#8211; Recusei, claro, s\u00f3 amo voc\u00ea, s\u00f3 fa\u00e7o com voc\u00ea. Agora vou tomar um banho, o sol estava forte \u2013 e abriu um sorrisinho monalisesco.<\/p>\n<p>A men\u00e7\u00e3o ao banho e, em especial, o sorriso discreto deram-lhe a quase certeza de que Valtencir, aquele fiodeuma\u00e9gua, havia aproveitado bem os minutos em campo e enca\u00e7apado. Sorte dele, Teresa era uma del\u00edcia, uma fera na cama, seus beijos enlouqueciam.<\/p>\n<p>Dando de ombros, Dermeval cantarolou uma estrofe de Dom de iludir, de Caetano Veloso, uma de suas can\u00e7\u00f5es prediletas: &#8220;Voc\u00ea diz a verdade\/ A verdade \u00e9 o seu dom de iludir\/ Como pode querer\/ Que a mulher v\u00e1 viver sem mentir&#8221;.<\/p>\n<p>Em seguida, tratou de relaxar. A noite era uma crian\u00e7a, depois de um jantar leve regado a vinho teria a namorada em seus bra\u00e7os, precisava estar em plena forma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valtencir n\u00e3o era um velho gaiteiro. Primeiro, porque n\u00e3o era velho, embora caminhasse rapidinho para esse status, tinha 56 anos bem rodados. 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