{"id":373003,"date":"2025-12-03T01:15:27","date_gmt":"2025-12-03T04:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373003"},"modified":"2025-11-30T12:33:57","modified_gmt":"2025-11-30T15:33:57","slug":"casa-corpo-cosmos-tres-escalas-que-se-espelham","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/casa-corpo-cosmos-tres-escalas-que-se-espelham\/","title":{"rendered":"Casa, corpo, cosmos: tr\u00eas escalas que se espelham"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o entendi se foi sonho ou realidade. Nem quanto tempo se passou ap\u00f3s aquela in\u00e9dita sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que eu havia morrido. Sim, eu estava definitivamente e seguramente morto. N\u00e3o sei bem como, mas voltei para a casa em que morei at\u00e9 o final da minha adolesc\u00eancia, antes que nos mud\u00e1ssemos de cidade a fim de que minha irm\u00e3 e eu frequent\u00e1ssemos a universidade. Meu pai pediu transfer\u00eancia da filial da empresa onde ele trabalhava para a matriz e, um dia, acompanhando o caminh\u00e3o de mudan\u00e7a, fomos a bordo de nossa velha Belina para a capital.<\/p>\n<p>Todos se integraram rapidamente \u00e0 nova vida, at\u00e9 os bichos de casa, nossos gatos Fred e Antonieta. Menos eu. Sentia falta, todos os dias, da rotina na nossa velha casa, que havia sido tamb\u00e9m a casa de meus av\u00f3s. Nunca me esqueci do cheiro de cada c\u00f4modo, da forma como ela fazia barulhos estranhos \u00e0 noite \u2013 que eu vim compreender mais tarde como a dilata\u00e7\u00e3o e a contra\u00e7\u00e3o normais dos velhos materiais que a compunham \u2013 e a delicadeza com que a passagem do trem invadia meu quarto nas madrugadas.<\/p>\n<p>E, passado aquele transe, um estado de torpor e d\u00favida, eu, misteriosamente, estava ali de volta. Tudo era exatamente igual.<\/p>\n<p>At\u00e9 as roupas na gaveta ficavam na mesma ordem em que eu havia deixado pouco antes da mudan\u00e7a. Eu n\u00e3o entendia nada, e entendia tudo ao mesmo tempo. Morrera e n\u00e3o lembrava por qu\u00ea. Eu passava as m\u00e3os nas camisetas dentro da gaveta, sentia o perfume t\u00e3o familiar do amaciante que minha m\u00e3e usava na lavagem e pensava que eu n\u00e3o escolhera a \u00faltima roupa com que iam me vestir. Mas isso n\u00e3o fazia qualquer diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>De repente, n\u00e3o sei se por telepatia ou por imagina\u00e7\u00e3o, ouvi, ou supus ter ouvido, um di\u00e1logo entre minha irm\u00e3 e uma prima. Queriam esvaziar meu arm\u00e1rio, j\u00e1 na casa nova da cidade, e guardariam algumas coisas de recorda\u00e7\u00e3o. Minha prima pegaria justamente uma camiseta que eu detestava, que me apertava no pesco\u00e7o e que eu usara apenas uma vez. Passou-me pela mente que ela poderia ter escolhido algo melhor e que, se pudesse, ou se elas me ouvissem, eu mesmo daria a sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo era estranho. O tempo avan\u00e7ava e retrocedia com a rapidez do meu pensamento. Onde eu pensava, eu estava.<\/p>\n<p>Ao cabo de alguns minutos, eu havia viajado para a minha inf\u00e2ncia, sentindo ao meu lado a presen\u00e7a dos meus av\u00f3s. Fixei o olhar, curioso, em minha av\u00f3, que morrera quando eu era muito pequeno. Convivi pouco com ela, e n\u00e3o me lembrava direito de suas fei\u00e7\u00f5es. Prestei aten\u00e7\u00e3o em cada detalhe: nas rugas, nos cabelos brancos, nos olhos azuis. Em como ela dizia para eu parar de correr de veloc\u00edpede, e me dava gelatina em cubinhos coloridos, misturada a creme de leite.<\/p>\n<p>Em seguida, estive de novo no gin\u00e1sio onde conheci Patr\u00edcia. Loura, esguia, alguns cent\u00edmetros mais alta do que eu, me olhava com desprezo e mais eu gostava dela. Num instante, avancei ao tempo presente, revendo Patr\u00edcia modificada pelos anos que tinham passado \u2013 eu a encontrara numa rede social uns meses antes de&#8230; enfim, uns meses antes de come\u00e7ar esta hist\u00f3ria. Os anos haviam sido implac\u00e1veis com ela, e parecia uma pessoa diferente, sem express\u00e3o na face, sem a vivacidade e presen\u00e7a de esp\u00edrito que tanto me fascinavam na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Comecei a p\u00f4r em d\u00favida meu del\u00edrio quando pensei que, ao morrer, \u00e9ramos absorvidos por alguma for\u00e7a, como se algo misterioso nos levasse de volta a uma origem comum, apagando, aos poucos, todos os pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es. E eu estava ali, ainda completamente consciente de minha individualidade, com a \u00fanica diferen\u00e7a que, agora, n\u00e3o conseguia ser ouvido ou visto pelos outros.<\/p>\n<p>O que fazer numa situa\u00e7\u00e3o dessas?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m havia me falado como me comportar depois do grande encontro com o desconhecido, a noite da alma. Tentei lembrar-me de algumas li\u00e7\u00f5es do Padre Nelson durante o catecismo. Nada me soou \u00fatil naquele momento. Avancei alguns anos, at\u00e9 quando conheci Renata, minha primeira namorada, vagamente esp\u00edrita. Diziam que a m\u00e3e dela recebia uma cigana. Mas nunca consegui levar a s\u00e9rio aquela pataquada, pois, incorporada \u201ca cigana\u201d, a mulher n\u00e3o dizia nada diferente das vulgaridades que costumava pronunciar quando pensava com a pr\u00f3pria cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Minhas leituras n\u00e3o haviam sido muito edificantes neste particular. As \u00fanicas mem\u00f3rias que me chegavam eram as p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, escritas por Machado de Assis, e Jo\u00e3o Sim\u00f5es Continua, de Or\u00edgenes Lessa. Nenhum dos dois livros era exatamente esclarecedor sobre o que fazer achando-se morto. Vivo e morto ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Num segundo, avancei v\u00e1rios anos no tempo e, andando pelo pequeno cemit\u00e9rio da cidade do interior, descobri minha sepultura caiada no meio de tantas outras de completos desconhecidos. A sepultura estava gasta, decr\u00e9pita, com um retrato de lou\u00e7a que lembrava vagamente o que eu tinha sido. O retrato estava quebrado justamente onde o nome vinha escrito, de modo que eu n\u00e3o consegui confirmar se era eu mesmo ou outro. Como assim? Percebi que n\u00e3o me lembrava mais de minhas pr\u00f3prias fei\u00e7\u00f5es, e fazia muito tempo que n\u00e3o conseguia me enxergar no espelho.<\/p>\n<p>Fiquei horas, talvez dias, brincando de viajante no tempo, perambulando pelos lugares que visitava ao sabor do pensamento e na velocidade da luz. Foi a\u00ed que lembrei, ou revisitei, a conversa que, ainda na escola, tive com um amigo: que, se f\u00f4ssemos esp\u00edritos, pod\u00edamos viajar livremente pelo espa\u00e7o sem nos preocuparmos com gravidade, v\u00e1cuo ou falta de oxig\u00eanio. Num instante, estava em \u00f3rbita da Terra, no fundo de uma cratera da Lua e, sem demora, em sua face escura. Vi de perto os an\u00e9is de Saturno, de gelo e poeira, pelos quais sempre fora fascinado desde uma aula de geografia no prim\u00e1rio. Queria visitar um buraco negro. Quem sabe nele encontraria respostas para as minhas d\u00favidas? Vigorariam, ali, as mesmas leis da f\u00edsica? A velha rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito? Haveria seres ou pensamento, outras realidades ou universos?<\/p>\n<p>Ousei questionar coisas maiores. Haveria um Deus? Ele estava atento ao que faz\u00edamos, ou era completamente indiferente? Fomos criados \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, ou apenas est\u00e1vamos largados \u00e0 pr\u00f3pria sorte num vazio sem fim?<\/p>\n<p>Percebi que era a hora de ser mais pr\u00e1tico, tentar entender minha situa\u00e7\u00e3o de uma vez por todas. Pensei e, num \u00e1timo, voltei \u00e0 Terra, no meio de pessoas conhecidas. No entanto, todas estavam vivas. Fiquei na d\u00favida sobre onde estariam os outros na mesma situa\u00e7\u00e3o que eu. Fui atra\u00eddo para algum lugar que, em princ\u00edpio, n\u00e3o reconheci. Aos poucos, meus olhos se acostumaram e entendi que estava na sala de Luciana. Ela pensava fortemente em mim e me atraiu.<\/p>\n<p>Luciana havia sido minha grande paix\u00e3o nos \u00faltimos tempos, mas n\u00e3o me dera qualquer sinal, e eu sequer me aproximei. As pessoas andavam muito dif\u00edceis ultimamente, e me aproximar sem uma indica\u00e7\u00e3o clara estava fora de cogita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Luciana estava em seu apartamento, banhado por uma linda luz do sol, em meio a livros e anota\u00e7\u00f5es. Sentia-a preocupada com alguma coisa, mas eu interrompera suas atribula\u00e7\u00f5es e podia ler o que ela pensava.<\/p>\n<p>Ela se lamentava por n\u00e3o haver falado mais comigo, n\u00e3o ter me dado aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentira-se atra\u00edda por mim, mas ficou receosa de me dar uma chance e quebrar a cara como acontecera com seu ex-namorado argentino. E, agora, o arrependimento a consumia. Passou-lhe pela cabe\u00e7a que, mesmo que fosse por pouco tempo, talvez o final da minha vida pudesse ter sido mais feliz. Ela sabia das minhas inten\u00e7\u00f5es, do meu profundo desejo, gra\u00e7as \u00e0 indiscri\u00e7\u00e3o de uma amiga em comum. N\u00e3o me do\u00eda pensar no que poderia ter sido, e talvez nem a ela, mas, de repente, uma l\u00e1grima furtiva rolando de seus olhos me atingiu profundamente. E eu fui prestando aten\u00e7\u00e3o nela, nos contornos de seu rosto, nos cabelos, nos l\u00e1bios meio cerrados. Quando percebi, estava vendo Luciana por dentro, literalmente. Os \u00f3rg\u00e3os, vivos, pulsavam cheios de uma intensa for\u00e7a vital. Os pensamentos pareciam lampejos no c\u00e9rebro. E eu fui olhando com mais detalhes, e mais profundamente, at\u00e9 v\u00ea-la como uma ess\u00eancia de energia. Do sistema \u00e0 c\u00e9lula, da c\u00e9lula ao \u00e1tomo&#8230; E percebi tudo girando \u00e0 minha volta, a dist\u00e2ncias enormes, quase infinitas, da mesma forma que vira no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Quantos mist\u00e9rios teria eu para aprender ainda! Analisar de perto os seres e perceber as sutis rela\u00e7\u00f5es existentes. Tra\u00e7ar analogias, investigar semelhan\u00e7as.<\/p>\n<p>Ver, quase ao mesmo momento, os dinossauros andando sobre um planeta vazio, in\u00f3spito, e, em seguida, avan\u00e7ar para tempos muito \u00e0 frente daqueles em que eu havia vivido, igualmente in\u00f3spitos e vazios.<\/p>\n<p>Espa\u00e7o e tempo n\u00e3o eram mais barreiras para mim.<\/p>\n<p>Um dia, eu j\u00e1 n\u00e3o respondia pelo nome que tivera. Ou ningu\u00e9m se lembrava mais dele. Era como se aquela individualidade houvesse sido dissolvida. As ora\u00e7\u00f5es feitas por minha irm\u00e3 em inten\u00e7\u00e3o da minha alma e o remorso de Luciana foram os \u00faltimos contatos humanos que percebi. E elas j\u00e1 estavam velhinhas.<\/p>\n<p>Fazia tempo que me sentia como um viajante que p\u00f5e no ch\u00e3o uma pesada mala depois de uma viagem longa demais. N\u00e3o tinha corpo, mas senti uma esp\u00e9cie de cansa\u00e7o bom, um conforto por n\u00e3o me submeter mais \u00e0s vicissitudes da carca\u00e7a de carne e osso.<\/p>\n<p>Pela primeira vez desde que morri, n\u00e3o havia lembran\u00e7as, nem perguntas, nem compara\u00e7\u00f5es com livros de Machado ou de Or\u00edgenes. Apenas um vazio que n\u00e3o era amea\u00e7a nem castigo. S\u00f3 um vazio.<\/p>\n<p>E, curiosamente, dormindo cada vez mais fundo, foi assim que voltei a me sentir inteiro.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o entendi se foi sonho ou realidade. Nem quanto tempo se passou ap\u00f3s aquela in\u00e9dita sensa\u00e7\u00e3o. O fato \u00e9 que eu havia morrido. Sim, eu estava definitivamente e seguramente morto. 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