{"id":373259,"date":"2025-12-03T00:00:14","date_gmt":"2025-12-03T03:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373259"},"modified":"2025-12-02T18:24:15","modified_gmt":"2025-12-02T21:24:15","slug":"era-uma-alma-penada-que-vagava-a-noite-pela-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/era-uma-alma-penada-que-vagava-a-noite-pela-cidade\/","title":{"rendered":"Era uma alma penada que vagava \u00e0 noite pela cidade"},"content":{"rendered":"<p>Ele era uma alma penada. Vagava \u00e0 noite pela cidade, olhando os viventes, suas pequenas (ou n\u00e3o t\u00e3o pequenas) alegrias e tristezas. Quanto a ele, n\u00e3o sentia coisa alguma, nem sequer pena de si mesmo.<\/p>\n<p>Os transeuntes n\u00e3o o viam, ou ent\u00e3o preferiam ignor\u00e1-lo, talvez sentindo que ele j\u00e1 n\u00e3o pertencia a este mundo. Isso n\u00e3o tinha import\u00e2ncia, sua condi\u00e7\u00e3o estava al\u00e9m dos olhares alheios de aprova\u00e7\u00e3o ou reprova\u00e7\u00e3o. Limitava-se a caminhar, sem rumo definido, at\u00e9 encontrar o que buscava.<\/p>\n<p>Era sempre uma espelunca, um boteco de quinta categoria. Toda vez um novo, n\u00e3o procurava duas vezes o mesmo botequim. Entrava e ficava quieto junto \u00e0 porta, como que saboreando a atmosfera de derrota ali reinante. Depois, aproximava-se do balc\u00e3o e dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Uma cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>Nunca um \u201cMerm\u00e3o, me v\u00ea uma caninha\u201d, para estabelecer algum tipo de familiaridade, de cumplicidade. Jamais um \u201cpor favor\u201d no final. Era uma ordem, dirigida a ningu\u00e9m. E ningu\u00e9m lhe respondia. A bebida era colocada diante dele, e ponto.<\/p>\n<p>Minutos depois, outra ordem:<\/p>\n<p>&#8211; Uma cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u201coutra dose\u201d, algo assim. S\u00f3 \u201cuma cacha\u00e7a\u201d. A coisa se repetia umas tr\u00eas vezes, nunca mais do que quatro, e ia embora. Aquelas palavras dirigidas a ningu\u00e9m eram, na maioria esmagadora das vezes, as \u00fanicas que pronunciava o dia inteiro.<\/p>\n<p>De volta ao pardieiro onde se refugiava, antes de vagar pelas ruas, sentava-se na beira da cama e olhava a parede, sem pensar. Depois desabava, meio b\u00eabado, e dormia sem sonhos ou pesadelos, para recome\u00e7ar tudo no dia seguinte.<\/p>\n<p>Essa parte do seu insosso cotidiano era a \u00fanica que sofria varia\u00e7\u00f5es. Por vezes, depois de voltar do botequim e sentar-se na cama, pegava o canivete e cortava-se no bra\u00e7o. Ver o sangue que flu\u00eda em seu corpo derramar-se no ch\u00e3o, antes de cessar de cair e coagular, dava um testemunho de seu desespero: ainda estava vivo, a rotina daquela exist\u00eancia sem sentido teria de ser suportada por pelo menos mais um dia. At\u00e9 que chegasse o fim inevit\u00e1vel (mas n\u00e3o buscado ansiosa e ativamente), e ele se juntasse para sempre \u00e0s demais almas penadas. Porque n\u00e3o tinha planos de se suicidar. Mortos n\u00e3o se matam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele era uma alma penada. Vagava \u00e0 noite pela cidade, olhando os viventes, suas pequenas (ou n\u00e3o t\u00e3o pequenas) alegrias e tristezas. Quanto a ele, n\u00e3o sentia coisa alguma, nem sequer pena de si mesmo. Os transeuntes n\u00e3o o viam, ou ent\u00e3o preferiam ignor\u00e1-lo, talvez sentindo que ele j\u00e1 n\u00e3o pertencia a este mundo. 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