{"id":373278,"date":"2025-12-07T00:15:45","date_gmt":"2025-12-07T03:15:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373278"},"modified":"2025-12-02T19:13:05","modified_gmt":"2025-12-02T22:13:05","slug":"duas-faces-da-mesma-moeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/duas-faces-da-mesma-moeda\/","title":{"rendered":"Duas faces da mesma moeda"},"content":{"rendered":"<p>Exorcismo<\/p>\n<p>Ele escrevia poemas para exorcizar seus dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>Repelidos pelos versos, eles eram lan\u00e7ados ao ar e em seguida dispersos ao sabor do vento. Porque n\u00e3o eram diabos vindos das profundas do inferno, os pesos-pesados de malignidade; eram antes construtos do psiquismo do poeta, resqu\u00edcios de pequenas maldades, de ressentimentos aparentemente esquecidos, de antigos rancores. Mais para diabretes, portanto, do que para dem\u00f4nios impiedosos.<\/p>\n<p>Assim, levados pelo vento, dispersavam-se pela cidade. E, como acontecia com as criaturas, seu destino singularizava-se.<\/p>\n<p>Alguns tinham a sorte de encontrar humanos apetitosos a quem obsedar. E se instalavam, posseiros de garras e dentes afiados, na mente e no cora\u00e7\u00e3o dos infelizes, n\u00e3o raro recepcionados efusivamente por seus pares que j\u00e1 se encontravam ali.<\/p>\n<p>Outros vagavam sem rumo, buscando em v\u00e3o uma presa a quem assediar, no fundo ansiando pelo retorno ao corpo e ao esp\u00edrito do poeta. Poucos conseguiam faz\u00ea-lo; a maioria se tornava pobres diabos sem v\u00edtimas, incapazes de se ancorar em algum vivente. Levavam, em tais condi\u00e7\u00f5es, uma exist\u00eancia miser\u00e1vel, pior que a de qualquer c\u00edrculo do inferno, condenados a um voejar incessante e sem sentido.<\/p>\n<p>Alguns, resilientes e afortunados, conseguiam voltar a sua v\u00edtima. E descobriam, mortificados, que tinham de recome\u00e7ar do zero os tormentos, tocai\u00e1-la por um bom tempo, rode\u00e1-la em c\u00edrculos cada vez mais pr\u00f3ximos, para s\u00f3 ent\u00e3o tocar o escritor com suas garras sujas, e depois, muito depois, crav\u00e1-las em seu psiquismo.<\/p>\n<p>Diante de tanto trabalho, alguns desistiam. E desapareciam quase sem deixar vest\u00edgio, como um mau poema deletado, uma po\u00e7a de \u00e1gua exposta ao sol inclemente ou uma semente que apodreceu antes de germinar.<\/p>\n<p>Esconjuro<\/p>\n<p>Ele escrevia para esconjurar seus fantasmas.<\/p>\n<p>Repelidos pelo texto, eles eram lan\u00e7ados ao ar e em seguida dispersos ao sabor do vento. Porque fantasmas s\u00e3o leves, et\u00e9reos, di\u00e1fanos, e al\u00e9m disso poucos deles eram abantesmas de verdade, resqu\u00edcios imateriais de gente falecida; a maioria era de projetos de que ele deliberadamente abrira m\u00e3o, sonhos de que havia desistido, um amor que n\u00e3o vivera em sua plenitude, por medo do fracasso, devaneios que descartara, vendo-os como coisa de crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim, levados pelo vento, todos eles se dispersavam pela cidade. E, como acontecia com as criaturas, seu destino singularizava-se.<\/p>\n<p>Os fantasmas \u201creais\u201d logo encontravam viventes com quem se aninhar. Como tinham pouqu\u00edssima mem\u00f3ria \u2013 exceto das circunst\u00e2ncias de sua morte, lembradas em detalhe, e de lampejos fugidios de sua exist\u00eancia antes disso \u2013, em pouco tempo esqueciam o escritor. E viviam \u201cfelizes\u201d junto \u00e0 nova v\u00edtima, se \u00e9 que se pode agregar o termo felicidade \u00e0 condi\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica e se \u00e9 que se pode chamar de v\u00edtima ao indiv\u00edduo que tenha um encosto.<\/p>\n<p>J\u00e1 os fantasmas de sonhos, projetos e antigos amores vagavam sem rumo, ansiando pelo retorno ao corpo e ao esp\u00edrito daquele que lhes dera um arremedo de exist\u00eancia. Por essa raz\u00e3o, mostravam-se incapazes de se ligar a outro ser vivo, a menos que este tamb\u00e9m houvesse desistido, por medo ou fastio, dos sonhos, projetos e antigos amores do escritor. N\u00e3o os mesmos, claro, mas algo numa vibra\u00e7\u00e3o id\u00eantica. Isso acontecia rar\u00edssimas vezes; desse modo, a grande maioria se transformava em almas penadas. Provinham desses infelizes os uivos lastimosos atribu\u00eddos \u00e0 totalidade dos abantesmas.<\/p>\n<p>Mas alguns, afortunados, conseguiam voltar a seu criador. Ent\u00e3o era uma alegria, aconchegavam-se junto a ele, acariciavam-no com suas m\u00e3os et\u00e9reas, cobriam-no de beijos e abra\u00e7os ectopl\u00e1smicos. Tal influ\u00eancia carinhosa algumas vezes levava \u00e0 retomada, com um vigor acrescido, dos antigos sonhos e projetos, \u00e0 redescoberta de velhos amores. E esses fantasmas viam sua condi\u00e7\u00e3o enfraquecer, sua exist\u00eancia ganhar um m\u00ednimo de concretude no que haviam impulsionado; e desapareciam felizes, de alguma forma perpetuados naquilo que haviam contribu\u00eddo para dar andamento ou mesmo concretizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exorcismo Ele escrevia poemas para exorcizar seus dem\u00f4nios. Repelidos pelos versos, eles eram lan\u00e7ados ao ar e em seguida dispersos ao sabor do vento. 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