{"id":373470,"date":"2025-12-05T00:45:34","date_gmt":"2025-12-05T03:45:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373470"},"modified":"2025-12-04T02:42:39","modified_gmt":"2025-12-04T05:42:39","slug":"e-se-eu-tivesse-rabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/e-se-eu-tivesse-rabo\/","title":{"rendered":"E, SE EU TIVESSE RABO?"},"content":{"rendered":"<p>Cheguei. Assim pensei no primeiro momento.<\/p>\n<p>Caminhei pela trilha entre folhagens, avistando ao longo e abaixo o litoral de uma praia. Meu primeiro \u00edmpeto foi correr para as \u00e1guas cristalinas.<\/p>\n<p>O c\u00e9u, nu de nuvens, alinhava no horizonte com o mar cobalto espremido entre o anil e o turquesa; espumava o branco da paz.<\/p>\n<p>Do alto, apressado, escorreguei entre folhas abandonadas ao ch\u00e3o fugindo dos gravetos pontiagudos que as solas dos p\u00e9s sofriam \u2013 machucadas.<\/p>\n<p>O alivio chegou quando pisei na areia fina e macia. Um carinho ap\u00f3s o caminho geogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Mergulhei impiedosamente, rasgando a \u00e1gua com meu corpo suado.<\/p>\n<p>Deleitei-me ao aprofundar a cabe\u00e7a, e dei de encontro com a cara zangada de um peixe assustado.<\/p>\n<p>Sensa\u00e7\u00e3o de plenitude, ignorando ser solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>De volta, ao piso macio e seco, percebi-me observado.<\/p>\n<p>Um zumzumzum&#8230; Parecia voz inaud\u00edvel \u00e0 compreens\u00e3o. Fui cercado por uma gente que como eu buscava entender a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em mim, as m\u00e3os ousavam tocar-me e, at\u00f4nito percebi que a semelhan\u00e7a se distanciava ao v\u00ea-los virados de costas.<\/p>\n<p>Sim. Eles tinham rabos. Eram pelo menos uns vinte.<\/p>\n<p>Rodeavam inquietos a minha pessoa. T\u00ednhamos o bom senso do respeito.<\/p>\n<p>Somente os olhos intrigados me reviravam. Demorei a entender o bailado dos rabos.<\/p>\n<p>Uns enrolados, outros entre as pernas, outros, abanavam nas costas de um lado ao outro.<\/p>\n<p>Percebi em segundos, que sentiam falta do meu rabo. Como eu, o corpo, n\u00e3o mostrava diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Percebi a comunica\u00e7\u00e3o primitiva ou linguagem que ainda n\u00e3o me fora apresentada<\/p>\n<p>Sorri.<\/p>\n<p>Uma bela jovem aproximou-se.<\/p>\n<p>Logo fui disputado por outra menos bonita, por\u00e9m forte e, pareceu-me a l\u00edder. Comecei a perceber que o rabo era a forma de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A l\u00edder mantinha seu rabo erguido como um estandarte.<\/p>\n<p>As mulheres abanavam o rabo quando curiosas, os homens mantinham seus rabos controlados: ora enrolados ora alongados. E, as crian\u00e7as aparentemente medrosas guardavam entre as pernas &#8211; seus rabos.<\/p>\n<p>Fui virado e revirado muitas vezes; buscavam em mim \u2013 o rabo. O fato de n\u00e3o t\u00ea-lo exigiu uma reuni\u00e3o do Conselho.<\/p>\n<p>Fui mantido ref\u00e9m, todavia cuidado.<\/p>\n<p>Virei um s\u00edmbolo apurado e fui chamado de \u201cO desrabado.\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 noite recebi a visita de um grupo que ousou procurar em mim &#8211; o rabo.<\/p>\n<p>Fiquei estarrecido por ser tratado como cobaia &#8211; vi-me rato em uma caixa \u2013 a ser observado.<\/p>\n<p>Passada a semana, acostumei-me ao habitat.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m deixei de ser atra\u00e7\u00e3o por falta do rabo, e convivi na aldeia em paz.<\/p>\n<p>Aprendi aos poucos a linguagem dos rabos, e assim at\u00e9 tentei criar para mim um enxerto com folhas de palmeira tran\u00e7adas.<\/p>\n<p>Pior o efeito do que a realidade.<\/p>\n<p>Acabei por ser aceito sem o rabo e permitiram minha acultura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na praia, enquanto eu nadava com os bra\u00e7os, eles usavam os rabos. Para subir nos coqueiros, eu usava as pernas tran\u00e7adas e eles seguravam-se nos rabos. Lembrei-me dos macacos.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, na reuni\u00e3o da aldeia, rabos batiam palmas, rabos se afetuavam, rabos se disputavam e at\u00e9 rabos copulavam. Tentei observar detalhes de como diferente de mim, os rabos fazendo amor.<\/p>\n<p>Em um momento de tens\u00e3o, um homem rabudo se aproximou. Com o rabo estendido amea\u00e7ou enrabar-me por sentir-se tra\u00eddo pela sua parceira, que de mim n\u00e3o despregava os olhos.<\/p>\n<p>Diante daquela enorme espada de carne, vi-me impotente e desprotegido. N\u00e3o fosse a l\u00edder e seu estandarte, eu n\u00e3o estaria aqui escrevendo.<\/p>\n<p>E assim protegido, tamb\u00e9m passei outros perrengues. A pr\u00f3pria l\u00edder interessada queria provar o diferente.<\/p>\n<p>E, decidida, insatisfeita, confabulava um rabo a ser implantado em mim.<\/p>\n<p>E foi exatamente naquele momento, que despertei do pesadelo que me manteve presente naquela ilha \u2013 diferente. &#8211; onde rabos falam por gente.<\/p>\n<p>Pulei da cama, fugindo e instintivamente passei minha m\u00e3o na bunda. Suspirei aliviado, porque n\u00e3o encontrei rabo nenhum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheguei. Assim pensei no primeiro momento. Caminhei pela trilha entre folhagens, avistando ao longo e abaixo o litoral de uma praia. Meu primeiro \u00edmpeto foi correr para as \u00e1guas cristalinas. O c\u00e9u, nu de nuvens, alinhava no horizonte com o mar cobalto espremido entre o anil e o turquesa; espumava o branco da paz. 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