{"id":373474,"date":"2025-12-05T02:00:43","date_gmt":"2025-12-05T05:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373474"},"modified":"2025-12-04T02:51:56","modified_gmt":"2025-12-04T05:51:56","slug":"arnaldo-carvalho-ou-wendell-abreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/arnaldo-carvalho-ou-wendell-abreu\/","title":{"rendered":"Arnaldo Carvalho ou Wendell Abreu?"},"content":{"rendered":"<p>Arnaldo Carvalho, jornalista de renome e com tr\u00e2nsito na alta c\u00fapula do poder em Bras\u00edlia, poderia usufruir de uma aposentadoria regada aos prazeres mundanos da vida. Mas n\u00e3o! Faltava-lhe algo, pr\u00f3prio de quem havia sa\u00eddo de Del Castilho, bairro do sub\u00farbio carioca: o reconhecimento popular.<\/p>\n<p>O sujeito, no entanto, n\u00e3o poderia simplesmente mudar o estilo austero, que j\u00e1 era sua marca registrada. O que iriam pensar os seus fi\u00e9is leitores? Certamente diriam que estaria acometido de dem\u00eancia ou Alzheimer ou at\u00e9 coisa pior. Sim, um surto psic\u00f3tico, talvez provocado por uma mistura de medica\u00e7\u00f5es controladas. Nada que um m\u00e9dico, com a devida paga, n\u00e3o pudesse atestar.<\/p>\n<p>Madrugada de sexta-feira, princ\u00edpio de novembro, adormeceu, apesar do temporal carregado de raios e trov\u00f5es. Acordou quando a manh\u00e3 galopava para a hora do almo\u00e7o. Espregui\u00e7ou-se, como h\u00e1 muito n\u00e3o o fazia. Sorriu e teve \u00edmpeto de se inscrever em alguma maratona, mas logo declinou dessa loucura. Logo ele, cujo \u00fanico esporte sempre fora digitar laudas e laudas para os diversos jornais que havia trabalhado. No m\u00e1ximo, uma pelada nos finais de semana, quando se sentava confortavelmente em uma cadeira \u00e0 margem do campo, copo de cerveja na m\u00e3o, de onde incentivava os colegas de reda\u00e7\u00e3o ou, no m\u00e1ximo, era guarda-meta.<\/p>\n<p>Quando entrava em campo, Juarez, fervoroso torcedor do Botafogo, chamava Arnaldo de Wendell, antigo goleiro dos anos 1970. Arnaldo, flamenguista roxo, se segurava para n\u00e3o xingar o amigo. Queria, por motivos \u00f3bvios, ser chamado de Raul, mas n\u00e3o rolava.<\/p>\n<p>Pois l\u00e1 estava o Arnaldo com uma generosa x\u00edcara de caf\u00e9 preto, duas torradas e, por recomenda\u00e7\u00e3o da Ruth, a esposa, meio mam\u00e3o com sementes.<\/p>\n<p>\u2014 Meu bem, n\u00e3o h\u00e1 pris\u00e3o de ventre que resista. Mas tem que comer todos os dias, hein!<\/p>\n<p>Assim que terminou, encheu a x\u00edcara mais uma vez e foi at\u00e9 a sacada do apartamento no Sudoeste. Tomou um gole e, quando j\u00e1 estava novamente com o caf\u00e9 pr\u00f3ximo aos l\u00e1bios, eis que parece ter escutado algu\u00e9m cham\u00e1-lo. Quer dizer, n\u00e3o exatamente Arnaldo ou Arnaldo Carvalho, como raramente o faziam. Mas Wendell.<\/p>\n<p>Arnaldo tomou um susto e quase queimou os l\u00e1bios com o caf\u00e9. Olhou desconfiado para os lados, mas nada. Por um instante, pensou que aquilo n\u00e3o passava de coisa da sua cabe\u00e7a, at\u00e9 que, uma vez mais, por\u00e9m de modo contundente, ouviu a mesma voz.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, Wendell! T\u00e1 surdo?<\/p>\n<p>\u2014 Quem est\u00e1 falando? Onde voc\u00ea est\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, para com isso! Voc\u00ea sabe muito bem quem eu sou.<\/p>\n<p>\u2014 Sei?<\/p>\n<p>\u2014 Sim!<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe, mas n\u00e3o me recordo. De onde nos conhecemos?<\/p>\n<p>\u2014 Sou o seu alter ego.<\/p>\n<p>\u2014 Alter ego?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>\u2014 E por que voc\u00ea me chamou de Wendell?<\/p>\n<p>\u2014 Gosto de Wendell. \u00c9 sonoro. E, convenhamos, muito melhor do que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Do que o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9, voc\u00ea sabe.<\/p>\n<p>\u2014 Sei?<\/p>\n<p>\u2014 Arnaldo ou&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ou o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Raul.<\/p>\n<p>\u2014 Raul?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9. Nada a ver. Al\u00e9m do mais, Raul popular \u00e9 s\u00f3 o Seixas.<\/p>\n<p>\u2014 Hum!<\/p>\n<p>\u2014 Abreu t\u00e1 bom?<\/p>\n<p>\u2014 Abreu?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Wendell Abreu. \u00c9 o nome que vai te fazer popular.<\/p>\n<p>\u2014 Abreu? Pera\u00ed! Abreu \u00e9 aquele Loco que acabou com a gente em 2010. N\u00e3o pode ser Coimbra?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Abreu \u00e9 melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu sou Meng\u00e3o. Coimbra \u00e9 do Zico.<\/p>\n<p>\u2014 Abreu e n\u00e3o se fala mais nisso.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1! Mas qual \u00e9 o plano?<\/p>\n<p>\u2014 O lance \u00e9 o seguinte. Tu tem que fazer o dejejum exatamente como voc\u00ea fez hoje. Caf\u00e9 preto, duas torradas, meio mam\u00e3o com semente e, em seguida, pegue mais uma x\u00edcara de caf\u00e9 e venha para c\u00e1. Se voc\u00ea fizer isso do jeito que t\u00f4 te falando, todos os dias voc\u00ea vai receber uma, digamos, inspira\u00e7\u00e3o. Da\u00ed, \u00e9 s\u00f3 usar o moleque doido de Del Castilho, que est\u00e1 guardado bem a\u00ed no fundo desse cora\u00e7\u00e3o carregado de sentimentos e muito samba no p\u00e9.<\/p>\n<p>Arnaldo Carvalho, quer dizer, Wendell Abreu, seguiu as orienta\u00e7\u00f5es de seu alter ego e, j\u00e1 no dia seguinte, escreveu um texto que quase fez a esposa morrer de tanto rir. Mesmo assim, ainda na d\u00favida, pensou por quase uma hora se iria encaminh\u00e1-lo ao editor do jornal. Ruth at\u00e9 tentou convencer o marido, mas quem deu o empurr\u00e3o final foi o alter ego.<\/p>\n<p>\u2014 Que voc\u00ea est\u00e1 esperando, Wendell?<\/p>\n<p>\u2014 Tem certeza?<\/p>\n<p>\u2014 Num t\u00f4 te falando?<\/p>\n<p>\u2014 Mas tem que ser Wendell Abreu?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi o que combinamos?<\/p>\n<p>Arnaldo, finalmente, mandou o texto para o editor. Disse que era um grande amigo de Del Castilho, cujo texto era uma pintura.<\/p>\n<p>\u2014 E o cara se chama mesmo Wendell Abreu?<\/p>\n<p>\u2014 Por incr\u00edvel que pare\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, j\u00e1 que voc\u00ea est\u00e1 recomendando, vai ser manchete.<\/p>\n<p>Choveram mensagens e telefonemas como a reda\u00e7\u00e3o do jornal nunca havia visto. Todos queriam mais textos do tal Wendell Abreu, que se tornou coqueluche dos leitores da capital. E o sucesso foi tamanho, que come\u00e7ou a provocar certo ci\u00fame no Arnaldo Carvalho, que precisou fazer terapia at\u00e9 assimilar aquela loucura.<\/p>\n<p>Tirando a Ruth, Arnaldo e o seu alter ego, ningu\u00e9m desconfia que Wendell Abreu \u00e9, v\u00e1 l\u00e1, mero devaneio de um jornalista frustrado. Seja como for, agora ele \u00e9 muito mais popular do que jamais imaginou. E ainda pode se dar ao luxo de passear tranquilamente na rua sem que ningu\u00e9m venha lhe pedir para tirar uma <em>selfie<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arnaldo Carvalho, jornalista de renome e com tr\u00e2nsito na alta c\u00fapula do poder em Bras\u00edlia, poderia usufruir de uma aposentadoria regada aos prazeres mundanos da vida. Mas n\u00e3o! 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