{"id":373479,"date":"2025-12-05T00:00:19","date_gmt":"2025-12-05T03:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373479"},"modified":"2025-12-04T03:19:16","modified_gmt":"2025-12-04T06:19:16","slug":"a-floresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-floresta\/","title":{"rendered":"A floresta"},"content":{"rendered":"<p>Aquela floresta bem que poderia ser cen\u00e1rio de um filme de terror. Sim, \u00e9 verdade que, durante a noite, o chirriar de alguma coruja pudesse causar calafrio na espinha at\u00e9 mesmo dos mais destemidos. Todavia, bastava surgir os primeiros raios solares para que todo esse medo fosse dissipado. Os cantos dos in\u00fameros p\u00e1ssaros tornavam aquele lugar o mais prop\u00edcio para uma agrad\u00e1vel caminhada.<\/p>\n<p>Pois foi justamente numa bela manh\u00e3, no in\u00edcio da primavera, que aquele jovem casal decidiu matar aula e se embrenhar por trilhas que os cora\u00e7\u00f5es apaixonados anseiam conhecer. Analu e Hugo, de uniforme e mochila nas costas, rumaram para aquela mata, que soprava promessas de amor nos ouvidos daqueles enamorados. Eles aceitaram o convite quase de imediato, tamanha a impulsividade dos adolescentes.<\/p>\n<p>Andaram algumas dezenas de metros mata adentro. A garota, receosa de que algu\u00e9m ainda pudesse v\u00ea-los, quis ir mais adiante. O rapaz, apesar de ansioso, concordou. Caminharam 500 metros ou mais, at\u00e9 que pararam diante de uma enorme \u00e1rvore. Deixaram as mochilas junto \u00e0s ra\u00edzes expostas. Ainda ofegantes, muito mais pela emo\u00e7\u00e3o do que pela caminhada, os dois se beijaram pela primeira vez.<\/p>\n<p>Analu, mais experiente, orientava o namorado, que parecia perdido diante de tanta novidade. Encostada na \u00e1rvore, a garota sentia os l\u00e1bios do amado quando, de repente, ouviu um som seco. Assustada, abriu os olhos e viu a express\u00e3o morta do rapaz, que tombou ao seu lado. Ela mal teve tempo de gritar, pois uma enorme m\u00e3o a suspendeu pelo pesco\u00e7o, enquanto a outra, com uma enorme faca, abriu seu ventre. As tripas ca\u00edram no ch\u00e3o. A garota deu seu \u00faltimo suspiro antes daquele homem gigantesco a soltar. O corpo da jovem despencou e caiu pr\u00f3ximo ao de Hugo, quase como se continuassem a se amar.<\/p>\n<p>Naquela mesma noite, as fam\u00edlias dos desaparecidos, desesperadas, procuraram em cada canto. Nada de Analu, nada de Hugo. Foram at\u00e9 a pol\u00edcia, onde o delegado, o bonach\u00e3o Andrade, disse que mais cedo ou mais tarde o casalzinho iria aparecer. Com certeza estavam escondidos por conta da proibi\u00e7\u00e3o do namoro.<\/p>\n<p>No dia seguinte, as buscas continuaram. Nenhuma pista. Prosseguiram por mais um m\u00eas, at\u00e9 que, finalmente, Andrade resolveu levar aquele sumi\u00e7o a s\u00e9rio. Juntou uma turma de populares e vasculhou cada cent\u00edmetro da cidade. Nenhuma pista. At\u00e9 que a m\u00e3e de Analu sugeriu procurarem na floresta. Andrade, que estava com a roupa encharcada de suor, disse que iriam l\u00e1 nas primeiras horas do dia seguinte.<\/p>\n<p>Apesar da chuva e da vontade de adiar a busca, Andrade achou por bem acabar por uma vez por todas com aquela situa\u00e7\u00e3o. Aos quase 30 volunt\u00e1rios do dia anterior, juntaram-se mais de 40, inclusive o velho Hor\u00e1cio, que estava acompanhado de Sans\u00e3o e Dalila, sua dupla de perdigueiros quase puros.<\/p>\n<p>Diante da floresta, abriu-se um enorme arco humano. As buscas come\u00e7aram. As fortes chuvas do m\u00eas haviam lavado todo o sangue. Os corpos dos jovens tamb\u00e9m n\u00e3o foram encontrados, talvez tivessem sido enterrados ou, ent\u00e3o, devorados por animais selvagens. Todos sabiam que ali era regi\u00e3o de on\u00e7as, sem contar os in\u00fameros javalis, que haviam escapado ou que foram soltos por antigos criadores.<\/p>\n<p>Depois de procurarem por quase a manh\u00e3 inteira, eis que os cachorros latiram. O velho Hor\u00e1cio sabia que eles haviam encontrado algo. Ele correu ao encal\u00e7o dos seus pupilos, que, est\u00e1ticos, apontavam para uma moita ao p\u00e9 de uma enorme \u00e1rvore. Era o caderno de Analu, como logo reconheceu sua m\u00e3e. A mulher, com o cora\u00e7\u00e3o apertado, abriu o caderno da filha e leu uma frase escrita com uma caligrafia desconhecida: &#8220;Analu, sinto que nossos destinos est\u00e3o eternamente ligados!&#8221; Era a letra de Hugo.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquela floresta bem que poderia ser cen\u00e1rio de um filme de terror. 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