{"id":373644,"date":"2025-12-06T02:00:01","date_gmt":"2025-12-06T05:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373644"},"modified":"2025-12-05T03:41:30","modified_gmt":"2025-12-05T06:41:30","slug":"gregorio-o-as-da-maquina-de-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gregorio-o-as-da-maquina-de-escrever\/","title":{"rendered":"Greg\u00f3rio, o \u00e1s da m\u00e1quina de escrever"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se voc\u00ea viveu os conturbados anos 1970, quando um curso de datilografia era praticamente um divisor de \u00e1guas entre conseguir ou n\u00e3o um emprego em alguma reparti\u00e7\u00e3o. E, quanto mais \u00e1geis fossem os dedos, maior era o status do funcion\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o pense voc\u00ea, no entanto, que era todo mundo que conseguia se entender bem com aquela que hoje \u00e9 alcunhada de trambolho, mas que antigamente era a tal m\u00e1quina de escrever. Alguns, seja por falta de traquejo ou, n\u00e3o duvido, seja at\u00e9 por certa timidez, se desmanchava em nervosismo quando as digitais tocavam nas teclas. E a coisa desandava de vez quando o texto era ditado por um superior hier\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio, definitivamente, era o mais not\u00e1vel no of\u00edcio. N\u00e3o importava quem fosse ditar, fosse at\u00e9 mesmo Lu\u00eds Carlos que, por conta da fala, de t\u00e3o apressada, era apelidado de Ligeirinho.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos recebendo elogios, Greg\u00f3rio passou a colecionar certos sentimentos. A princ\u00edpio, aparentemente bons: autoestima, brio, dignidade, satisfa\u00e7\u00e3o, honra e at\u00e9 mesmo boa dose de pundonor. Todavia, como nem tudo na vida \u00e9 um passeio no parque num domingo ensolarado, eis que a altivez come\u00e7ou a se apoderar do se \u00e2mago. Pior, a arrog\u00e2ncia misturada com vaidade e pitadas de presun\u00e7\u00e3o e ess\u00eancia de desd\u00e9m, at\u00e9 que o sujeito perdeu todas as estribeiras e passou a n\u00e3o disfar\u00e7ar a pr\u00f3pria soberba.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante o modo desprez\u00edvel de agir, Greg\u00f3rio possu\u00eda cartaz com a alta c\u00fapula do escrit\u00f3rio. Tanto \u00e9 que, numa sexta-feira, foi chamado \u00e0s pressas para digitar duas ou tr\u00eas laudas na sala de um dos diretores. E l\u00e1 foi o homem, todo empertigado, cumprir mais uma miss\u00e3o com seus dedos infal\u00edveis.<\/p>\n<p>J\u00e1 no \u00faltimo andar, Greg\u00f3rio caminhava pelo corredor em dire\u00e7\u00e3o ao seu destino, quando passou por uma sala aberta e viu uma mulher em frente a uma m\u00e1quina de escrever \u00faltimo modelo. Curioso, ele se aproximou e, ao perceber que a fulana, dedos indicadores em riste, teclava lentamente, tamanha a dificuldade de encontrar as letras, fez um coment\u00e1rio jocoso.<\/p>\n<p>\u2014 Do jeito que voc\u00ea bate \u00e0 m\u00e1quina, minha senhora, n\u00e3o demora, vai ser mandada embora.<\/p>\n<p>A mulher encarou o intrometido e, com um sorriso sarc\u00e1stico nos l\u00e1bios, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Meu amigo, se liga! Sou cargo comissionado.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se voc\u00ea viveu os conturbados anos 1970, quando um curso de datilografia era praticamente um divisor de \u00e1guas entre conseguir ou n\u00e3o um emprego em alguma reparti\u00e7\u00e3o. E, quanto mais \u00e1geis fossem os dedos, maior era o status do funcion\u00e1rio. 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