{"id":373870,"date":"2025-12-08T00:00:57","date_gmt":"2025-12-08T03:00:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=373870"},"modified":"2025-12-06T22:52:07","modified_gmt":"2025-12-07T01:52:07","slug":"o-rapaz-dos-dedos-eletricos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-rapaz-dos-dedos-eletricos\/","title":{"rendered":"O RAPAZ DOS DEDOS EL\u00c9TRICOS"},"content":{"rendered":"<p>A gente, que escreve, se inspira no textos dos amigos, na hist\u00f3ria das pessoas e na pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Lendo o texto <em>Greg\u00f3rio, o \u00e1s da m\u00e1quina de escrever<\/em>, do not\u00e1vel escritor Eduardo Mart\u00ednez, publicado no <strong>Quadradinho em Foco do Notibras<\/strong>, n\u00e3o teve como deixar de me lembrar de como vi meu esposo pela primeira vez e do barulho da m\u00e1quina de escrever, a qual ele trabalhava.<\/p>\n<p>Nasci em Luzi\u00e2nia, mas fui pra Bras\u00edlia na tenra inf\u00e2ncia e fiquei l\u00e1 at\u00e9 os 17 anos, quando voltei para minha cidade natal.<\/p>\n<p>Meu pai arrumou emprego em Bras\u00edlia, mas nunca tirou o p\u00e9 de Luzi\u00e2nia.<\/p>\n<p>A gente vinha a Luzi\u00e2nia de 15 em 15 dias. T\u00ednhamos casa em Luzi\u00e2nia e, tamb\u00e9m por causa da igreja, que meu pai, minha m\u00e3e e eu \u00e9ramos trabalhadores de Cristo.<\/p>\n<p>Meu pai se aposentou e n\u00e3o quis ficar morando em Bras\u00edlia e voltou definitivamente \u00e0s origens, apesar de que sempre amamos Bras\u00edlia, ainda mais que a maior parte do territ\u00f3rio do DF era Luzi\u00e2nia. O nosso sentimento por Bras\u00edlia sempre foi genu\u00edno. Consideramos Luzi\u00e2nia m\u00e3e de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Como a gente vinha s\u00f3 aos finais de semana, ia para igreja e depois voltava para Bras\u00edlia, eu n\u00e3o conhecia os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. Um dia, resolvi visitar a prefeitura, s\u00f3 para conhecer mesmo.<\/p>\n<p>O pr\u00e9dio antigo da prefeitura, t\u00e9rreo, dois corredores imensos, o da direita, ao entrar, funcionava a Prefeitura Municipal e, \u00e0 esquerda, funcionava o F\u00f3rum. Entrei pela direita. As pessoas deixavam as portas abertas e a gente ia passando pelo corredor e vendo as pessoas trabalhando. Salas de um lado e outro. \u00c0 medida que ia andando, ouvia o barulho de uma m\u00e1quina de escrever que mais parecia o barulho de uma metralhadora.<\/p>\n<p>Eu ainda n\u00e3o trabalhava fora, mas, como o Eduardo relatou, naquele tempo, ter curso de datilografia era quase obrigat\u00f3rio. As pessoas faziam o tal curso para se preparar para o mercado de trabalho. Era um dos requisitos indispens\u00e1veis para trabalhar em qualquer lugar, ainda mais no Servi\u00e7o P\u00fablico.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 era datil\u00f3grafa e sempre procurei fazer as coisas muito bem-feitas.<\/p>\n<p>O exame final do curso, a gente tinha de dar 108 toques por minuto, essa era a m\u00e9dia m\u00ednima para passar no tal exame. Se a gente n\u00e3o conseguisse os tais 108 toques por minuto, a gente era reprovada, tinha de treinar mais e fazer a prova novamente. N\u00e3o recebia o tal Diploma de Datilografia se n\u00e3o passasse.<\/p>\n<p>J\u00e1 me esqueci de quantos toques consegui no meu exame, mas foi muito acima do m\u00ednimo exigido.<\/p>\n<p>O barulho da m\u00e1quina de escrever me fez ter curiosidade de conhecer o datil\u00f3grafo ou datil\u00f3grafa, que estava arrasando na m\u00e1quina de escrever. Fui andando e, a cada passo que dava, o barulho ficava mais alto. T\u00e1-t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1-t\u00e1-r\u00e1-t\u00e1-t\u00e1, espa\u00e7o, o t\u00e1-r\u00e1-t\u00e1-t\u00e1 de novo.<\/p>\n<p>Quanto mais andava, a minha opini\u00e3o boa sobre a pessoa aumentava. Quando cheguei em frente, era um rapag\u00e3o, loiro, de olhos verdes, cabelos nos ombros, que coisa mais linda!<\/p>\n<p>Quando ele percebeu que tinha algu\u00e9m na porta, ele levantou as vistas, mas como eu n\u00e3o falei nada e tinha a secret\u00e1ria do lado para atender as pessoas, ele baixou as vistas novamente, sem diminuir a cad\u00eancia da m\u00e1quina de escrever.<\/p>\n<p>Fiquei por alguns segundos admirando aquele mo\u00e7o que parecia ter eletricidade nos dedos. J\u00e1 existia a m\u00e1quina el\u00e9trica, mas eu ainda n\u00e3o conhecia.<\/p>\n<p>Sa\u00ed daquele lugar, voltei, nem terminei de andar no corredor. Era tudo igual, s\u00f3 as salas, com as portas abertas e as pessoas trabalhando. Sa\u00ed falando sozinha.<\/p>\n<p>\u2014 Que rapaz lindo! Vou casar com ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o tirei o rapaz da cabe\u00e7a, s\u00f3 pensava nele e no som da m\u00e1quina de escrever na minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu tinha uma m\u00e1quina de escrever port\u00e1til, que meu pai me dera de presente de 15 anos. Chegando em casa, peguei minha m\u00e1quina e quis imitar o rapaz. Mas que ledo engano, n\u00e3o chegava nem perto.<\/p>\n<p>A partir desse dia, sa\u00eda do col\u00e9gio, que s\u00f3 \u00e9 separado da Prefeitura por uma rua, e dava uma volta na prefeitura para ver o rapaz dos dedos el\u00e9tricos. Paix\u00e3o \u00e0 primeira vista, mas o mo\u00e7o nem notava a minha presen\u00e7a. E, como vi que ele n\u00e3o era menino mais, passei a ter certeza que era casado.<\/p>\n<p>Pedi a uma colega para ir comigo l\u00e1, pois ela certamente o conhecia. Minha colega, n\u00e3o s\u00f3 o conhecia, como me deu a ficha completa dele, pois eram vizinhos.<\/p>\n<p>Deu a sopa no mel, a palha na rapadura. O mo\u00e7o era solteiro e o melhor de tudo, n\u00e3o tinha namorada.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu vou me casar com ele.<\/p>\n<p>Minha colega riu e falou:<\/p>\n<p>\u2014 Vai nada! Ele \u00e9 super s\u00e9rio, s\u00f3 vive para o trabalho, \u00e9 o ca\u00e7ula, s\u00f3 vive para o trabalho e para os pais idosos. Ele que cuida dos velhos. E ningu\u00e9m nunca o viu com namorada alguma.<\/p>\n<p>\u2014 Que maravilha! \u2014 disse toda animada \u2014 meu pai sempre me disse que, quando eu fosse arrumar algu\u00e9m para casar, que observasse como ele trata os pais. Se tratar bem, vai ser bom para voc\u00ea tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Voc\u00ea vai ver, eu vou me casar com ele.<\/p>\n<p>\u2014 Vai nada, rapaz tem a \u00e9poca de casar. Ele j\u00e1 passou da idade de casar. Geralmente, os homens casam at\u00e9 os 21, 22 anos. Passando disso, n\u00e3o casam mais. Ele \u00e9 mais velho que n\u00f3s, 10 anos. N\u00e3o casa, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tive quase certeza de que ele era casado, pois nunca me deu trela, s\u00f3 olha e abaixa a cabe\u00e7a novamente, mas, agora, voc\u00ea falando que ele \u00e9 solteiro e n\u00e3o tem namorada, espere e ver\u00e1.<\/p>\n<p>A minha colega ria, fazia gra\u00e7a com as outras meninas que o conheciam tamb\u00e9m. Mas, na minha cabe\u00e7a, estava tudo certo. Eu iria me casar com o rapaz dos dedos el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>Para resumir, dentro de quatro anos, estava eu me casando com o rapaz dos dedos el\u00e9tricos. Essa minha colega n\u00e3o teve como ir no meu casamento porque, coincidentemente, ela se casou no mesmo dia e hor\u00e1rio que eu.<\/p>\n<p>Detalhe: no dia em que ela foi comigo \u00e0 Prefeitura para ver se conhecia o ent\u00e3o hoje meu esposo, ela conheceu um rapaz, que era rec\u00e9m-chegado do Nordeste, e foi com ele que ela se casou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Eu e ela estamos casadas h\u00e1 quase 50 anos.<\/p>\n<p>O Cupido estava solto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gente, que escreve, se inspira no textos dos amigos, na hist\u00f3ria das pessoas e na pr\u00f3pria hist\u00f3ria. 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