{"id":374114,"date":"2025-12-10T01:00:45","date_gmt":"2025-12-10T04:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=374114"},"modified":"2025-12-09T14:45:18","modified_gmt":"2025-12-09T17:45:18","slug":"recordo-onde-estava-quando-teve-inicio-o-tempo-dos-sorrisos-pavorosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/recordo-onde-estava-quando-teve-inicio-o-tempo-dos-sorrisos-pavorosos\/","title":{"rendered":"Recordo onde estava quando teve in\u00edcio o Tempo dos Sorrisos Pavorosos"},"content":{"rendered":"<p>Dizem, nos Estados Unidos, que cada pessoa adulta se lembra onde estava e o que fazia no 11 de setembro de 2001, quando desabaram as Torres G\u00eameas, atingidas por avi\u00f5es. Quanto a mim, recordo com clareza onde estava quando teve in\u00edcio o Tempo dos Sorrisos Pavorosos, infinitamente mais grave que um ataque terrorista.<\/p>\n<p>Era uma quinta-feira. Eu sa\u00eda de um sebo (garimpar livros raros est\u00e1 entre meus esportes prediletos) e buscava um restaurante para almo\u00e7ar, j\u00e1 eram quase 13h30. De repente, o rosto das pessoas, de todas que eu via, come\u00e7ou a mudar. Elas se esfor\u00e7avam por sorrir \u2013 e era pat\u00e9tico aquela empreitada coletiva para demonstrar cordialidade. Pat\u00e9tico, n\u00e3o; pavoroso, assustador.<\/p>\n<p>Por um momento, suas fei\u00e7\u00f5es assumiam o aspecto de uma carranca do S\u00e3o Francisco, exibindo dentes enormes. Depois se transformavam, calib\u00e3s shakespearianos sem um pingo de intelig\u00eancia no olhar, pobres idiotas que deixavam a baba escorrer pela comissura dos l\u00e1bios perpetuamente escancarados. Essa muta\u00e7\u00e3o incessante da fisionomia, contraponto ao sorriso for\u00e7ado, era pavorosa; mas o pior era o sil\u00eancio, n\u00e3o se ouvia uma voz, apenas falas previamente gravadas, transmitidas pelo r\u00e1dio, televis\u00e3o e outros meios eletr\u00f4nicos. N\u00e3o se viam postagens nos smartphones, at\u00e9 ent\u00e3o onipresentes. Era como se todas as for\u00e7as de cada indiv\u00edduo, todos os recursos de seu psiquismo, estivessem mobilizados para abrir e curvar os l\u00e1bios e conserv\u00e1-los naquele esgar obsceno.<\/p>\n<p>Cambaleei at\u00e9 uma vitrine, olhei-me e vi, refletido, meu rosto habitual. Suspirei de al\u00edvio, mas logo veio um pensamento inquietante. \u201cE se cada um, ao se olhar em um espelho ou algo semelhante, v\u00ea sua fisionomia de sempre, sem aquela careta?\u201d Falei em voz alta:<\/p>\n<p>&#8211; Deuses, ser\u00e1 que tamb\u00e9m fui transformado?<\/p>\n<p>Minha voz soou estranhamente alta em meio ao sil\u00eancio. Mas isso me tranquilizou, pelo menos ainda conseguia pensar e exprimir minhas reflex\u00f5es, talvez fosse o \u00fanico, em toda a cidade \u2013 n\u00e3o ousei pensar no pa\u00eds e no mundo \u2013 a n\u00e3o sofrer a metamorfose. Voltei r\u00e1pido para casa, liguei a TV: nada, nenhuma not\u00edcia sobre a muta\u00e7\u00e3o. O \u201cao vivo\u201d desapareceu da programa\u00e7\u00e3o. As poucas tentativas de notici\u00e1rio mostravam apresentadores de boca aberta, balbuciando sons sem sentido. Shakespeare escreveu, em Macbeth: \u201cA vida (&#8230;) \u00e9 uma hist\u00f3ria contada por um idiota, cheia de som e f\u00faria e vazia de significado\u201d. Pois bem, os idiotas estavam ali, em trajes impec\u00e1veis, talvez tentassem contar uma hist\u00f3ria cheia de f\u00faria, mas era imposs\u00edvel entender o que sa\u00eda de suas bocas arreganhadas em horr\u00edvel amistosidade. De qualquer modo, os ensaios de transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es logo sa\u00edram do ar.<\/p>\n<p>No dia seguinte, sa\u00ed cautelosamente de casa. Menos gente nas ruas, todos com uma careta nos l\u00e1bios de m\u00fasculos fatigados. Alguns, talvez percebendo que eu sorria com dificuldade \u2013 sim, tentei fazer como todo mundo, para n\u00e3o ser hostilizado \u2013 dirigiam-me um olhar inquiridor, com uma pitada de intelig\u00eancia, como se perguntassem:<\/p>\n<p>&#8211; Por que seu sorriso n\u00e3o se abre? N\u00e3o quer ser amigo? N\u00e3o gosta de n\u00f3s? Voc\u00ea \u00e9 um estranho, um Outro?<\/p>\n<p>Eu me afastava r\u00e1pido deles, antes que a curiosidade em seu olhar se transformasse em hostilidade. Porque pessoas que exibem os caninos podem facilmente dilacerar.<\/p>\n<p>E assim vivo agora, vagando a esmo pela cidade cada vez mais vazia, falando sozinho \u2013 recurso para constatar que o fen\u00f4meno respons\u00e1vel pelo Tempo dos Sorrisos Pavorosos n\u00e3o me atingiu, n\u00e3o ainda. Tenho bastante comida, embora alguns enlatados estejam ultrapassando a data de validade, aparentemente produzir e distribuir bens \u00e9 incompat\u00edvel com o sorrir o tempo todo, em sil\u00eancio. Estou bem de sa\u00fade, posso ouvir minhas m\u00fasicas favoritas, ler meus amados livros, mas n\u00e3o sei por quanto tempo a eletricidade chegar\u00e1 \u00e0s resid\u00eancias. \u00c9 um fim triste e surreal para nossa civiliza\u00e7\u00e3o, que morre sem guerras, sem pandemias, sem desastres clim\u00e1ticos. Morre com um esgar. Sou um estranho em uma terra estranha, um l\u00facido taciturno em meio a um mar de imbecis que mostram os dentes sem parar. N\u00e3o sei quanto tempo me resta, nos resta. N\u00e3o acabou chorare, como cantavam os Novos Baianos; acabou sorrire.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dizem, nos Estados Unidos, que cada pessoa adulta se lembra onde estava e o que fazia no 11 de setembro de 2001, quando desabaram as Torres G\u00eameas, atingidas por avi\u00f5es. Quanto a mim, recordo com clareza onde estava quando teve in\u00edcio o Tempo dos Sorrisos Pavorosos, infinitamente mais grave que um ataque terrorista. 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