{"id":374552,"date":"2025-12-14T01:15:48","date_gmt":"2025-12-14T04:15:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=374552"},"modified":"2025-12-14T06:12:05","modified_gmt":"2025-12-14T09:12:05","slug":"bilac-odiava-chucrute-e-sofreu-o-1o-acidente-de-automovel-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bilac-odiava-chucrute-e-sofreu-o-1o-acidente-de-automovel-no-brasil\/","title":{"rendered":"Bilac odiava chucrute e sofreu o 1\u00ba acidente de autom\u00f3vel no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Olavo Br\u00e1s Martins dos Guimar\u00e3es Bilac (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 \u2013 Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918) foi poeta, jornalista, cronista e contista \u2014 isto \u00e9, algu\u00e9m que nunca deixou faltar trabalho nem adjetivo. Tornou-se o grande medalh\u00e3o do parnasianismo no Brasil, escola liter\u00e1ria em que a forma \u00e9 rainha, a m\u00e9trica \u00e9 lei e a rima, se puder, deve marchar em passo de parada. Foi t\u00e3o celebrado que muitos o trataram como \u201co\u201d poeta brasileiro por excel\u00eancia, recebendo o t\u00edtulo oficioso de \u201cpr\u00edncipe dos poetas\u201d \u2014 uma nobreza de papel, mas com bastante pompa.<\/p>\n<p>Sua poesia se espraiou por quase tudo: escreveu para crian\u00e7as, escreveu sobre desejos, escreveu sobre pol\u00edtica, escreveu com ambi\u00e7\u00e3o \u00e9pica, escreveu confiss\u00f5es \u00edntimas e tamb\u00e9m lan\u00e7ou olhos sociais, sempre com aquele zelo de quem passa o verso a ferro, alinhando s\u00edlabas como bot\u00f5es de farda. E j\u00e1 que a \u00e9poca gostava de virtudes p\u00fablicas, Bilac fez da literatura tamb\u00e9m um palanque: difundiu valores c\u00edvicos, nacionalistas e republicanos, e soube ocupar, com habilidade, o lugar de poeta que n\u00e3o se contenta em ser lido \u2014 quer tamb\u00e9m ser ouvido.<\/p>\n<p>Filho de Br\u00e1s Martins dos Guimar\u00e3es Bilac e de Delfina Belmira Gomes de Paula, teve inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia dentro do padr\u00e3o: estudo, disciplina e a promessa de um futuro respeit\u00e1vel. Aos 15 anos, com a pressa t\u00edpica dos prod\u00edgios (e a expectativa t\u00edpica dos pais), conseguiu autoriza\u00e7\u00e3o especial para entrar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro \u2014 mais por desejo paterno do que por voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. O pai, m\u00e9dico ligado \u00e0 campanha da Guerra do Paraguai, sonhava provavelmente com o jaleco; Bilac, por sua vez, j\u00e1 parecia preferir o papel impresso. Resultado: frequentou a Medicina, mas foi fisgado pela reda\u00e7\u00e3o e pelo burburinho intelectual. A pr\u00e1tica m\u00e9dica ficou para depois \u2014 e o \u201cdepois\u201d n\u00e3o veio. Mais tarde, ainda ensaiou o Direito em S\u00e3o Paulo; tamb\u00e9m n\u00e3o concluiu. Digamos que Bilac era muito bom em come\u00e7ar destinos \u201cs\u00e9rios\u201d e excelente em abandon\u00e1-los no meio do caminho, rumo ao \u00fanico v\u00edcio socialmente aceito: a literatura.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, firmou-se como figura t\u00edpica do meio letrado: jornalista ativo, poeta em ascens\u00e3o, frequentador de bo\u00eamias e de c\u00edrculos liter\u00e1rios \u2014 daqueles em que todos sabem de tudo e discutem tudo, especialmente o que n\u00e3o d\u00e1 dinheiro. Sua proje\u00e7\u00e3o e suas amizades com intelectuais e pol\u00edticos abriram portas para um cargo p\u00fablico: inspetor escolar. E como educa\u00e7\u00e3o, naquele tempo, tinha aura de miss\u00e3o civilizat\u00f3ria (e prest\u00edgio de sal\u00e3o), a fun\u00e7\u00e3o vinha com certo brilho. Bilac, afinal, n\u00e3o era homem de se esconder: sua vida cotidiana tamb\u00e9m rendia hist\u00f3ria. Em 1897, perdeu o controle de um autom\u00f3vel Serpollet e o atirou contra uma \u00e1rvore na Estrada da Tijuca \u2014 epis\u00f3dio lembrado como o primeiro acidente de carro registrado no Brasil. O pa\u00eds mal tinha carros; Bilac j\u00e1 inaugurava o acidente. Pioneirismo \u00e9 isso: chegar primeiro at\u00e9 nos trope\u00e7os.<\/p>\n<p>A estreia po\u00e9tica nos jornais cariocas veio em 1884, com o soneto \u201cSesta de Nero\u201d, publicado na Gazeta de Not\u00edcias, recebendo elogios de Artur Azevedo \u2014 uma esp\u00e9cie de \u201cselo de qualidade\u201d do circuito. Tamb\u00e9m escreveu livros did\u00e1ticos, ora sozinho, ora em parceria com amigos como Coelho Neto e Manuel Bonfim, porque, quando a literatura chama, a conta tamb\u00e9m vem.<\/p>\n<p>Em 1888, lan\u00e7ou Poesias, livro que caiu no gosto do p\u00fablico e ajudou a carimbar sua consagra\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, Bilac n\u00e3o era apenas um poeta: era um patrim\u00f4nio em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas nem s\u00f3 de sonetos vive um homem em tempos agitados. Em 1891, com a dissolu\u00e7\u00e3o do parlamento e a consolida\u00e7\u00e3o de Floriano Peixoto no poder, a pol\u00edtica esquentou \u2014 e Bilac decidiu n\u00e3o ficar calado. Participou da funda\u00e7\u00e3o de O Combate, jornal de oposi\u00e7\u00e3o ao florianismo e cr\u00edtico do estado de s\u00edtio decretado naquele contexto. A consequ\u00eancia veio do jeito cl\u00e1ssico: cadeia. Bilac foi preso e passou cerca de quatro meses na Fortaleza da Laje, aprendendo, na pr\u00e1tica, que a Rep\u00fablica tamb\u00e9m sabia rimar \u201coposi\u00e7\u00e3o\u201d com \u201crepress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Conta-nos \u00d3rris Soares, tio do J\u00f4 Soares e grande amigo de Augusto dos Anjos \u2013 coube ao jornalista \u00d3rris salvar o \u201cEU\u201d do ostracismo \u2013 que, por volta de 1906, subiu num navio com destino a Buenos Aires, em escala no Recife, para entrevistar a divina Sarah Bernhardt. Sem acesso \u00e0 atriz, tentou ver um cavalo, tamb\u00e9m transportado naquele navio, campe\u00e3o de corridas, que valia 800 contos de r\u00e9is. Como havia muita gente em volta, desistiu. Mas soube que Bilac estava entre os passageiros. Ent\u00e3o, foi \u00e0 procura do poeta, a quem entrevistava quando chegou Da Costa e Silva e entregou um exemplar de seu livro \u201cSangue\u201d para o pr\u00edncipe dos poetas, dizendo umas poucas palavras. Foi o autor virar as costas e Bilac lan\u00e7ou o livro ao mar, justificando-se:<\/p>\n<p>\u2014 Poetas e bananas, no Brasil, s\u00f3 servem para espalhar doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Continua \u00d3rris: em 1917, plena guerra, encontro Bilac numa casa de refrescos na Avenida Rio Branco, no Rio. Junto estava Paulo da Silveira. Come\u00e7amos a conversar sobre os \u00faltimos acontecimentos, quando ele nos interpela sobre a guerra:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me falem de guerras se acaso forem partid\u00e1rios da Alemanha. Eu detesto a Alemanha, detesto Goethe, detesto Wagner e detesto chucrute.<\/p>\n<p>Na vida amorosa, a rima foi menos perfeita. O grande amor teria sido Am\u00e9lia de Oliveira, irm\u00e3 do poeta Alberto de Oliveira. Noivaram, mas o compromisso se desfez por resist\u00eancia familiar \u2014 suspeitava-se que o poeta era \u201carruinado\u201d, como se poesia fosse investimento de alto retorno. Um segundo noivado, com Maria Selika, filha do violonista Francisco Pereira da Costa, tamb\u00e9m durou pouco. Bilac seguiu sozinho, sem constituir fam\u00edlia, como quem se dedica integralmente ao of\u00edcio e \u00e0s suas melancolias privadas. Morreu em 28 de dezembro de 1918, v\u00edtima de edema pulmonar e insufici\u00eancia card\u00edaca, e foi sepultado no Cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><strong>Foto: Alberto de Oliveira, Raymundo Correa e Olavo Bilac, os maiores poetas brasileiros da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX.<\/strong><\/li>\n<li><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olavo Br\u00e1s Martins dos Guimar\u00e3es Bilac (Rio de Janeiro, 16 de dezembro de 1865 \u2013 Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1918) foi poeta, jornalista, cronista e contista \u2014 isto \u00e9, algu\u00e9m que nunca deixou faltar trabalho nem adjetivo. 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