{"id":374744,"date":"2025-12-17T00:15:30","date_gmt":"2025-12-17T03:15:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=374744"},"modified":"2025-12-14T02:17:35","modified_gmt":"2025-12-14T05:17:35","slug":"a-mulher-vulcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mulher-vulcao\/","title":{"rendered":"A MULHER VULC\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Amizade n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria. Amigo n\u00e3o precisa estar. Amiga precisa ser. Fogo de vulc\u00e3o. Fuma\u00e7a de sonhos, cinzas de ilus\u00e3o&#8221;<br \/>\n(Fil\u00f3 da Guarda, marcadora de ponto do Maracatu Meninas G)<\/p>\n<p>Percebeu que n\u00e3o fumava h\u00e1 anos.<\/p>\n<p>O c\u00e2ncer do pai e a falta de ar da m\u00e3e lhe deram alguma refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois, havia a lembran\u00e7a da hist\u00f3ria da morte do cavalo do cowboy da propaganda do Marlboro na TV, nos anos 60\/70. C\u00e2ncer nos pulm\u00f5es; sim! Nos pulm\u00f5es do cowboy e do seu fiel cavala do garanh\u00e3o. Sina de inveterados viciados tabacantes. Tudo no finalzinho dos loucos anos 60.<\/p>\n<p>&#8220;Ta\u00ed mais um \u00f3timo e verdadeiro argumento na defesa da mac\u00f4, cara! A parada \u00e9 natural, sintonia pura com o universo e curaria at\u00e9 o cavalo do Marlboro&#8230;na boa, meu!&#8221;, deixaria escrito no seu Di\u00e1rio de Bordo; um \u00fanico caderno espiral escrito \u00e0 m\u00e3o encontrado ao lado dos restos da fogueira naquela manh\u00e3 ap\u00f3s o Luau derradeiro.<\/p>\n<p>O caderno sobrevivente, depois de jogar os outros 21 na &#8220;fogueira dos sonhos&#8221;, em madrugada de reggae na praia paradis\u00edaca.<\/p>\n<p>Final de domingo de P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>O cara chegou \u00e0 feirinha do rio da Madre no meio do dia. Sol de rachar.<\/p>\n<p>Parou, sentou-se na \u00fanica cadeira dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>Observou as pessoas dan\u00e7ando na areia e o som rolando ao vivo no pequeno palco. Pensou em metaversos, em dimens\u00f5es paralelas e percebeu que dimens\u00e3o era mesmo aquela. Pessoas conhecidas vieram dar-lhe boas novas.<\/p>\n<p>O cara lembrou-se de tantas outras P\u00e1scoas.<\/p>\n<p>Olhou para ao lado e l\u00e1 estava ela: A Mulher Vulc\u00e3o. Fumava quatro Marlboros de uma s\u00f3 vez. Chamin\u00e9 absoluto.<\/p>\n<p>E o som do &#8220;Maracatu das Meninas G&#8221; balan\u00e7ando a tarde fumegante de alto Ver\u00e3o. O ar parado feito olho de peixe morto assado. E a fuma\u00e7a cobrindo a praia, o Cost\u00e3o, o Morro da Pedra do Urubu. Tudo.<\/p>\n<p>Mesmo curtindo a pior ressaca dos \u00faltimos quarenta s\u00e9culos, o cara saiu da rede naquela tarde\/labaredas\/chamas fumegantes\/calor de 400 graus.<\/p>\n<p>Foi ao bar\/trapiche na beira do rio, sentou-se na mesa de sempre e ficou olhando fixo\/vago para os reflexos do Sol de Meio-dia incendiando as \u00e1guas do rio da Madre, em primeiro plano; e l\u00e1 no plano fundo, as ondas branquinhas do mar quebrando na grande praia da Guarda. S\u00fabito, levantou-se e pediu licen\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Oi, Que tal?&#8230; Podes me dar um cigarro?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, claro!-respondeu a garota dourada com l\u00edngua, olhos e cabelos de fogo.<\/p>\n<p>Era ela novamente cruzando o caminho do cara que odiava cigarros industrializados. Elazinha mesmo, em mais carnes do que ossos: A Mulher Vulc\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Fumava quatro Marlboros de uma s\u00f3 vez. Chamin\u00e9 absoluto&#8221;.<\/p>\n<p>Dimens\u00f5es paralelas, cof cof cof&#8230;<\/p>\n<p>E a segunda-feira P\u00f3s-P\u00e1scoa explodiu feito vulc\u00e3o naquela manh\u00e3 pachorrenta.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista e professor\/pesquisador que ainda hoje chora ao se lembrar do cavalo do cowboy do Marlboro. Vive na Guarda do Emba\u00fa SC, vilazinha de pescadores e turistas no litoral de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Amizade n\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria. Amigo n\u00e3o precisa estar. Amiga precisa ser. Fogo de vulc\u00e3o. Fuma\u00e7a de sonhos, cinzas de ilus\u00e3o&#8221; (Fil\u00f3 da Guarda, marcadora de ponto do Maracatu Meninas G) Percebeu que n\u00e3o fumava h\u00e1 anos. O c\u00e2ncer do pai e a falta de ar da m\u00e3e lhe deram alguma refer\u00eancia. 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