{"id":374796,"date":"2025-12-14T10:29:56","date_gmt":"2025-12-14T13:29:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=374796"},"modified":"2025-12-14T10:29:56","modified_gmt":"2025-12-14T13:29:56","slug":"paraguai-acerta-no-que-o-brasil-insiste-em-ignorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/paraguai-acerta-no-que-o-brasil-insiste-em-ignorar\/","title":{"rendered":"Paraguai acerta no que o Brasil insiste em ignorar"},"content":{"rendered":"<p>Viver em Foz do Igua\u00e7u muda o jeito de olhar o Paraguai. A fronteira deixa de ser uma linha no mapa e passa a fazer parte da rotina. O pa\u00eds vizinho deixa de ser observado \u00e0 dist\u00e2ncia, por estere\u00f3tipos antigos, e passa a ser percebido no dia a dia, no com\u00e9rcio, no trabalho, nas conversas e na circula\u00e7\u00e3o constante de pessoas e mercadorias.<\/p>\n<p>Depois de pouco mais de um ano vivendo na cidade, tornou-se imposs\u00edvel n\u00e3o perceber algo que contraria o senso comum brasileiro: o Paraguai funciona melhor do que a imagem que constru\u00edmos dele.<\/p>\n<p>N\u00e3o falo de riqueza. Falo de funcionamento, e sobre o Paraguai real, visto sob a \u00f3tica do Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Do lado paraguaio da fronteira, o que se v\u00ea \u00e9 um com\u00e9rcio intenso, organizado e permanente. N\u00e3o \u00e9 improviso nem exce\u00e7\u00e3o de feriado. \u00c9 rotina. Ciudad del Este pulsa todos os dias, sustentada por log\u00edstica, servi\u00e7os e giro constante de mercadorias.<\/p>\n<p>No campo, o agro \u00e9 moderno, mecanizado e eficiente. A ideia de um Paraguai agr\u00edcola atrasado j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. H\u00e1 tecnologia, investimento e integra\u00e7\u00e3o com cadeias produtivas internacionais.<\/p>\n<p>E h\u00e1 emprego. Emprego para paraguaios e para brasileiros. A circula\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra acontece nos dois sentidos. Brasileiros trabalham em empresas paraguaias, paraguaios encontram oportunidades do lado brasileiro. Esse fluxo s\u00f3 existe onde h\u00e1 atividade econ\u00f4mica consistente.<\/p>\n<p>Foi esse cotidiano que me levou a olhar o Paraguai com mais aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por curiosidade te\u00f3rica, mas por viv\u00eancia concreta.<\/p>\n<p>Como um pa\u00eds que promete pouco, talvez o maior acerto do Paraguai tenha sido entender seus pr\u00f3prios limites.<\/p>\n<p>O Estado paraguaio n\u00e3o promete tudo \u00e0 sua popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o promete resolver todos os problemas. N\u00e3o promete ser grande, protetor ou onipresente.<\/p>\n<p>Promete algo mais simples e, por isso mesmo, mais f\u00e1cil de cumprir: regras claras, estabilidade e previsibilidade.<\/p>\n<p>O paraguaio m\u00e9dio vive com menos servi\u00e7os p\u00fablicos do que o brasileiro, \u00e9 verdade. Mas tamb\u00e9m vive com menos sobressaltos econ\u00f4micos. Menos mudan\u00e7as repentinas de regra. Menos sensa\u00e7\u00e3o de que o amanh\u00e3 ser\u00e1 sempre mais caro e mais incerto.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um modelo idealizado, mas coerente. At\u00e9 porque, h\u00e1 um sistema tribut\u00e1rio que n\u00e3o confunde a vida.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica aparece de forma muito clara na maneira como o Paraguai cobra impostos.<\/p>\n<p>O sistema \u00e9 simples o suficiente para ser entendido por quem trabalha, empreende e consome no dia a dia. As al\u00edquotas s\u00e3o poucas, conhecidas e est\u00e1veis.<\/p>\n<p>As empresas pagam imposto sobre o lucro \u00e0 al\u00edquota de 10%. N\u00e3o h\u00e1 uma cole\u00e7\u00e3o de adicionais, contribui\u00e7\u00f5es paralelas ou taxas escondidas no caminho. Calcula-se o lucro, aplica-se o percentual e a conta fecha.<\/p>\n<p>A pessoa f\u00edsica tamb\u00e9m est\u00e1 sujeita ao imposto de renda, com al\u00edquota m\u00e1xima de 10%, aplicada apenas a quem ultrapassa determinado patamar anual. N\u00e3o existe aquela sensa\u00e7\u00e3o de que, quanto mais se trabalha, mais o Estado leva.<\/p>\n<p>No consumo, o pa\u00eds adota um IVA de 10%, com al\u00edquota reduzida de 5% para alguns produtos e servi\u00e7os. N\u00e3o h\u00e1 imposto em cascata nem sobreposi\u00e7\u00e3o de tributos. O pre\u00e7o que aparece na prateleira \u00e9, em grande medida, o pre\u00e7o real.<\/p>\n<p>Lucros e dividendos distribu\u00eddos aos s\u00f3cios s\u00e3o tributados \u00e0 parte, em geral na faixa de 8%, o que refor\u00e7a que o Paraguai n\u00e3o \u00e9 um para\u00edso fiscal, mas um sistema transparente e previs\u00edvel.<\/p>\n<p>Essa simplicidade n\u00e3o \u00e9 detalhe t\u00e9cnico. Ela se reflete diretamente no com\u00e9rcio ativo, na facilidade de empreender e na capacidade de planejar o futuro sem medo de surpresas.<\/p>\n<p>O Paran\u00e1 e o Paraguai t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o que amadureceu. E esse debate n\u00e3o \u00e9 distante para o Paran\u00e1. Muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>O Paraguai se consolidou, nos \u00faltimos anos, como parceiro comercial relevante do estado. A rela\u00e7\u00e3o deixou de ser apenas fronteiri\u00e7a e passou a envolver exporta\u00e7\u00f5es, importa\u00e7\u00f5es, log\u00edstica, energia, insumos industriais e agropecu\u00e1rios.<\/p>\n<p>Empresas paranaenses encontraram no Paraguai um ambiente mais previs\u00edvel para investir e produzir. O Paran\u00e1, por sua vez, segue sendo porta de entrada, rota log\u00edstica e parceiro estrat\u00e9gico nessa integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foz do Igua\u00e7u, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 periferia. \u00c9 laborat\u00f3rio. \u00c9 onde se observa, na pr\u00e1tica, como dois modelos econ\u00f4micos convivem lado a lado, dialogam e se complementam.<\/p>\n<p>Construiu um Estado que promete muito. Promete sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o social ampla, benef\u00edcios e solu\u00e7\u00f5es para quase tudo. O problema n\u00e3o est\u00e1 na inten\u00e7\u00e3o, mas na conta e na forma de cobr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Para sustentar esse modelo, criou-se um sistema tribut\u00e1rio pesado, complexo e dif\u00edcil de explicar. Quem produz paga muito. Quem consome paga sem perceber. E, mesmo assim, a sensa\u00e7\u00e3o geral \u00e9 de frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto o Paraguai optou por simplicidade e limite, o Brasil optou por complexidade e exce\u00e7\u00f5es. Um sistema que poucos entendem, muitos criticam e quase ningu\u00e9m confia.<\/p>\n<p>Mas, o que deu certo no Paraguai e pode ser aplicado no Brasil? O Paraguai n\u00e3o \u00e9 um modelo a ser copiado integralmente. Mas \u00e9 um exemplo que merece ser observado com menos preconceito e mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele mostra que prometer menos ajuda a cumprir mais. Que regras claras atraem investimento. Que simplicidade tribut\u00e1ria gera atividade econ\u00f4mica real. E que previsibilidade beneficia, sobretudo, quem tem menos margem para errar.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o precisa virar o Paraguai. Mas precisa aprender que nenhum pa\u00eds funciona bem quando promete demais, muda regras o tempo todo e transforma o imposto em um labirinto.<\/p>\n<p>Talvez o maior erro seja continuar olhando o Paraguai com desd\u00e9m. O maior acerto seria olhar com maturidade.<\/p>\n<p>Porque, no fim, pa\u00edses que prometem pouco costumam frustrar menos. E isso, nos tempos atuais, j\u00e1 \u00e9 uma grande virtude.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Jo\u00e3o Zisman, jornalista, economista, com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Pol\u00edticas e Gest\u00e3o P\u00fablica<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viver em Foz do Igua\u00e7u muda o jeito de olhar o Paraguai. A fronteira deixa de ser uma linha no mapa e passa a fazer parte da rotina. 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