{"id":374879,"date":"2025-12-19T01:15:42","date_gmt":"2025-12-19T04:15:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=374879"},"modified":"2025-12-15T01:34:22","modified_gmt":"2025-12-15T04:34:22","slug":"amor-tardio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/amor-tardio\/","title":{"rendered":"Amor tardio"},"content":{"rendered":"<p>Uma carta. Por pouco n\u00e3o a descartou, julgando tratar-se de mais uma a\u00e7\u00e3o de marketing indesejada, afinal, quem mandaria uma missiva em plena era de aplicativos de conversas? Mas notou algo diferente: o envelope exalava um perfume, n\u00e3o uma fragr\u00e2ncia qualquer, o aroma indicava que a pessoa que a enviara tinha bom gosto e requinte.<\/p>\n<p>Mais intrigante que o inv\u00f3lucro, por\u00e9m, era o conte\u00fado. N\u00e3o reconheceu o nome da remetente, ainda assim, a mensagem curta \u2014 escrita \u00e0 m\u00e3o, com uma bela caligrafia, embora marcada por tra\u00e7os vacilantes\u2014 carregava um tom de urg\u00eancia. Solicitava sua presen\u00e7a, uma visita para ser mais preciso, em um quarto de hospital, tornando a situa\u00e7\u00e3o ainda mais desconcertante.<\/p>\n<p>Movido mais pela curiosidade e um pouco de apreens\u00e3o, decidiu atender ao chamado e dirigiu-se ao hospital. Transpostas as etapas burocr\u00e1ticas, vagou lentamente pelos corredores da ala de interna\u00e7\u00e3o. A longa dist\u00e2ncia at\u00e9 o quarto indicado na carta n\u00e3o ajudou a dissipar a ansiedade, pelo contr\u00e1rio, cada passo intensificava o frio na barriga. Chegou mesmo a desejar ser barrado, mas ningu\u00e9m o deteve e logo estava em frente ao quarto e enfim descobriria quem o convocara.<\/p>\n<p>Abriu a porta devagar, permitindo-se focar sua vis\u00e3o nos objetos triviais que compunham a cena \u2014 uma cadeira encostada, uma mesa com flores murchas, o sussurro distante das m\u00e1quinas \u2014 deixando por \u00faltimo a tarefa de pousar o olhar sobre a figura que jazia im\u00f3vel na cama.<\/p>\n<p>Mesmo na penumbra do ambiente, percebeu tratar-se de uma mulher de porte delicado, magra, pequena. Suas fei\u00e7\u00f5es, outrora suaves, agora revelavam marcas profundas, prov\u00e1veis vest\u00edgios de uma longa batalha contra a doen\u00e7a que a trouxera at\u00e9 ali. A aus\u00eancia total de cabelos sugeria que enfrentava um tratamento agressivo, provavelmente contra o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Permaneceu im\u00f3vel junto \u00e0 porta, absorvido em sua an\u00e1lise. N\u00e3o ousava entrar, temendo despertar a paciente. N\u00e3o teve d\u00favidas: tratava-se de algum engano, lembraria se alguma conhecida estivesse t\u00e3o enferma. Decidiu recuar, j\u00e1 se virava para partir, quando uma voz fr\u00e1gil, mas firme, rompeu o sil\u00eancio e o deteve:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea veio!<\/p>\n<p>Se a figura fragilizada n\u00e3o trouxe \u00e0 tona nenhuma lembran\u00e7a, t\u00e3o pouco a voz doce e fraca foi capaz de desperta-lhe alguma mem\u00f3ria. Virou-se e come\u00e7ou a dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe-me, n\u00e3o queria acord\u00e1-la. Acho que houve&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o houve engano. Eu convidei voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Sinto muito, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me conhece, eu sei.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o o deixou sem fala. O sil\u00eancio entre ambos durou mais alguns instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o desculpas, interrompi voc\u00ea duas vezes. Tentarei n\u00e3o repetir isso. Nunca tive o h\u00e1bito de cortar a fala das pessoas, mas na condi\u00e7\u00e3o em que me encontro, \u00e0s vezes me afobo\u2026 preciso dizer tudo o que ainda resta ser dito\u2026 antes do fim.<\/p>\n<p>A men\u00e7\u00e3o \u00e0 morte dita com tanta naturalidade o deixou desconfort\u00e1vel, n\u00e3o sabia o que dizer sem parecer indelicado, devia perguntar detalhes de sua condi\u00e7\u00e3o? Sentiu que essa seria a pior op\u00e7\u00e3o. Ficou em sil\u00eancio por alguns instantes, at\u00e9 que, por fim, murmurou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se preocupe, eu entendo.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m pe\u00e7o desculpas por te colocar nessa situa\u00e7\u00e3o, sei que deve estar confuso. Ainda assim, agrade\u00e7o por ter vindo. Minha fam\u00edlia tem estado ao meu lado, mas hoje pedi que me deixassem sozinha, pois queria receb\u00ea-lo. Entenda: restando t\u00e3o pouco tempo para mim, se voc\u00ea n\u00e3o viesse, eu teria desperdi\u00e7ado os \u00faltimos momentos que me restam com aqueles que amo.<\/p>\n<p>Sentiu seu corpo come\u00e7ar a desfalecer ante o fardo inesperado de saber o custo em tempo daquela sua visita \u00e0 desconhecida a sua frente.<\/p>\n<p>Percebendo o embara\u00e7o do visitante, ela ergueu levemente a m\u00e3o e pediu:<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, sente-se. Quero, enfim, explicar por que o chamei.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o se lembra de mim, mas j\u00e1 nos conhecemos, n\u00e3o fomos \u00edntimos, cursamos algumas mat\u00e9rias em comum na faculdade.<\/p>\n<p>Diante daquela primeira revela\u00e7\u00e3o palp\u00e1vel, tentou resgatar alguma lembran\u00e7a daquele rosto, mas em v\u00e3o. Ela percebeu sua tentativa e, com um tom de humor em sua voz cansada, continuou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tente me reconhecer usando como par\u00e2metro o que v\u00ea agora, n\u00e3o estou nos meus melhores dias \u2013 Enquanto falava, procurou no celular uma foto de 12 anos atr\u00e1s e mostrou a ele. Na imagem, uma jovem de beleza serena, sorriso aberto e olhar cheio de vida. Ele contemplou por alguns instantes, tentando for\u00e7ar a mem\u00f3ria, mas nada emergiu.<\/p>\n<p>\u2014 Sinto muito. N\u00e3o consigo me lembrar \u2014 disse, devolvendo o aparelho com delicadeza. \u2014 Naquela \u00e9poca eu era um tanto avoado.<\/p>\n<p>\u2014 Eu me lembro \u2014 disse ela, sorrindo \u2014 Voc\u00ea passava muito tempo cercado das garotas mais bonitas da faculdade.<\/p>\n<p>Pela primeira vez desde que chegara, ele conseguiu sorrir, ainda que envergonhado, ao recordar como vivia sempre se engra\u00e7ando com suas colegas.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto a mim, lembro-me bem de ti. Na verdade\u2026 apaixonei-me por voc\u00ea. Eu sempre fui t\u00edmida e, em vez de disputar sua aten\u00e7\u00e3o com nossas colegas, guardei esse amor s\u00f3 para mim. Sofri em sil\u00eancio diante da sua indiferen\u00e7a, ao mesmo tempo em que fantasiava com a possibilidade de ser correspondida.<\/p>\n<p>As palavras, ditas com serenidade e sem rancor, ca\u00edram sobre ele como um peso inesperado. N\u00e3o sabia se deveria sentir culpa, compaix\u00e3o ou apenas surpresa. O contraste entre a fragilidade da mulher e a for\u00e7a de sua confiss\u00e3o tornava o momento ainda mais desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ela falava com calma, sob o olhar perplexo do convidado, que a tudo ouvia sem se pronunciar. Explicou como, por diversas vezes, pensara em se aproximar, mas sempre fora vencida pela timidez e pela constata\u00e7\u00e3o de que o objeto de sua admira\u00e7\u00e3o j\u00e1 se encontrava em algum relacionamento. Assim, preferiu cultivar em sil\u00eancio aquela paix\u00e3o, guardando-a como um segredo \u00edntimo.<\/p>\n<p>Ele, por sua vez, lembrou-se de que raramente ficava sozinho naqueles tempos. N\u00e3o era adepto do amor duradouro e, se fosse honesto consigo mesmo, n\u00e3o saberia dizer ao certo se j\u00e1 havia amado de verdade algu\u00e9m.<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a com que aquela desconhecida se abria, expondo sentimentos guardados por tantos anos, fez com que aos poucos ele relaxasse. Sem perceber, a tens\u00e3o inicial que o dominava se dissolveu em descontra\u00e7\u00e3o. Passou a interagir mais, e o di\u00e1logo fluiu com naturalidade. Conversaram por quase duas horas, sobre lembran\u00e7as, sonhos, medos e at\u00e9 banalidades, como se fossem velhos conhecidos que apenas retomavam uma conversa interrompida h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>\u2014 O momento da formatura, que deveria ser alegre, tornou-se um tormento para mim. Eu sabia que dificilmente o veria de novo e que as minhas j\u00e1 poucas chances de ser teu amor se reduziriam a quase nada, e assim aconteceu. Nunca mais te vi, mas acompanhei sua vida de longe, pelas redes sociais, escrevi-lhe poesias que nunca mostrei a ningu\u00e9m, fantasiei mil hist\u00f3rias ao seu lado, chorei suas perdas e comemorei suas vit\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, eu&#8230;<\/p>\n<p>Agora n\u00e3o era ela quem o interrompia, seus pr\u00f3prios pensamentos o abandonavam.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me entenda mal \u2014prosseguiu ela, com voz firme apesar da fragilidade \u2014 n\u00e3o te chamei aqui para responsabiliz\u00e1-lo pelas minhas dores ou tristezas. Vivi uma boa vida at\u00e9 aqui. Tive alguns namorados, a maioria foram relacionamentos saud\u00e1veis e repletos de carinho, mas o fato \u00e9 que nunca deixei de te amar, e agora, que meu fim se aproxima, queria pelo menos uma vez, essa \u00faltima vez, ser honesta comigo mesma e contar a voc\u00ea meu segredo.<\/p>\n<p>Ela respirou fundo, como quem liberta um peso guardado por anos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o espero nada de voc\u00ea, n\u00e3o me deve nada. Compreendo que pode parecer cruel da minha parte te dizer essas palavras, e por isso compreenderei se for embora agora. N\u00e3o sei se alguma vez se sentiu amado e n\u00e3o queria partir desse mundo sem te dizer que ao menos eu te amei com toda a intensidade que se podia amar.<\/p>\n<p>Pareceu-lhe que, ao pronunciar aquelas \u00faltimas palavras, todas as for\u00e7as dela se esgotaram. At\u00e9 ent\u00e3o, seus olhos eram como uma ilha de resist\u00eancia naquele corpo fr\u00e1gil, mas agora tamb\u00e9m se rendiam, baixos, cansados.<\/p>\n<p>De sua parte, tamanha demonstra\u00e7\u00e3o de afeto, sem que nada houvesse feito para merec\u00ea-la, o abalava profundamente. Sentia-se pequeno diante da intensidade daquele amor silencioso, guardado por tantos anos e revelado apenas no limiar da vida.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea parece cansada \u2014 disse, pegando em sua m\u00e3o. Era a primeira vez que tocava sua pele, e surpreendeu-se ao sentir o calor que contrastava com o aspecto de morte que imaginara em sua nova amiga. \u2014 Posso voltar amanh\u00e3 para conversarmos mais. Hoje tenho muita coisa para pensar sobre tudo o que me disse.<\/p>\n<p>As palavras dele pareceram revigorar suas for\u00e7as, pois ela abriu um sorriso e levantou um pouco a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea faria isso? Realmente n\u00e3o precisa se incomodar, eu &#8230;<\/p>\n<p>Dessa vez foi ele quem a interrompeu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ser\u00e1 incomodo, gostei da conversa, quero saber mais sobre sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u2014 Eu ficarei muito feliz se vier.<\/p>\n<p>\u2014 Conte comigo \u2014 disse, levantando-se. Por um instante, hesitou: n\u00e3o sabia como agir, era um completo ignorante quanto aos protocolos m\u00e9dicos em situa\u00e7\u00f5es assim. Mas, reunindo coragem, inclinou-se e beijou-lhe a testa. Foi um beijo demorado, carregado de ternura, n\u00e3o de piedade. E, de algum modo, teve a certeza de que ela tamb\u00e9m percebeu isso.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado por ter vindo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu agrade\u00e7o o convite.<\/p>\n<p>Seu estado de esp\u00edrito ao deixar o hospital n\u00e3o lembrava em nada o da chegada. Sentia-se leve, como se aquelas \u00faltimas horas tivessem sido exatamente o que precisava para escapar da rotina exaustiva \u2014 n\u00e3o apenas do trabalho, mas tamb\u00e9m das noitadas com amigos que, precisava admitir, tornavam-se cada vez mais frequentes. Estar com ela havia sido, sem d\u00favida, a experi\u00eancia mais significativa dos \u00faltimos tempos em sua vida de solteiro convicto.<\/p>\n<p>Embora tivesse dito que havia muito a refletir, n\u00e3o o fez. O sono veio r\u00e1pido naquela noite, vencendo o cansa\u00e7o acumulado. Na manh\u00e3 seguinte, levantou-se cedo e mergulhou no trabalho, determinado a liberar a tarde para reencontr\u00e1-la. Assim, pouco espa\u00e7o restou para ponderar sobre as revela\u00e7\u00f5es de sua admiradora.<\/p>\n<p>Quando a hora chegou, partiu ansioso para o hospital. Desta vez, seus passos eram mais firmes, quase confiantes. Na recep\u00e7\u00e3o, uma mo\u00e7a simp\u00e1tica digitava seus dados no computador. Diferente do dia anterior, o procedimento demorava mais do que o esperado. Chegou a pensar que a atendente estivesse em treinamento, com dificuldades para operar o sistema, j\u00e1 que discretamente pediu aux\u00edlio a um colega. Mas, ao que tudo indicava, nem ele conseguira resolver o que quer que estivesse acontecendo.<\/p>\n<p>\u2014 Senhor, pe\u00e7o a gentileza de aguardar ao lado. Logo algu\u00e9m falar\u00e1 com o senhor \u2014 disse o atendente, virando-se imediatamente, sem lhe dar chance de perguntar o motivo da demora.<\/p>\n<p>Ele percebeu que algo mais s\u00e9rio estava acontecendo: os outros visitantes eram liberados rapidamente ap\u00f3s a identifica\u00e7\u00e3o, mas com ele o processo se arrastava. A apreens\u00e3o cresceu.<\/p>\n<p>Pouco depois, viu o atendente retornar acompanhado de uma enfermeira.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, meu colega disse que o senhor veio visitar algu\u00e9m, o senhor n\u00e3o \u00e9 da fam\u00edlia, certo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, sou apenas um amigo, estive aqui ontem e n\u00f3s combinamos&#8230;.<\/p>\n<p>\u2014 &#8230;Eu sinto muito, ela faleceu nesta madrugada.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, ele n\u00e3o reagiu. Fitava um ponto qualquer no vazio, como se tivesse perdido, por alguns instantes, a no\u00e7\u00e3o de onde estava \u2014 ou mesmo de quem era. Mais tarde, ao recordar aquele instante, concluiria que vivera uma esp\u00e9cie de priva\u00e7\u00e3o completa dos sentidos, que s\u00f3 retornaram na forma de um arrepio e de um calor intenso percorrendo todo o corpo.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor est\u00e1 bem? Quer se sentar? \u2014 perguntou a enfermeira, preocupada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas\u2026 n\u00f3s marcamos\u2026 eu disse que viria\u2026 eu\u2026 \u2014 as palavras sa\u00edam desconexas, sem sentido.<\/p>\n<p>Percebendo o absurdo do que dizia, apenas agradeceu a informa\u00e7\u00e3o e, em sil\u00eancio, retirou-se do hospital. Caminhou at\u00e9 uma pra\u00e7a pr\u00f3xima e sentou-se em um banco.<\/p>\n<p>Quem o visse ali talvez imaginasse um homem perdido em pensamentos. Mas a verdade \u00e9 que sua mente estava t\u00e3o vazia quanto seu olhar. Nunca se sentira t\u00e3o impotente diante de uma situa\u00e7\u00e3o. Como podia estar t\u00e3o desamparado pela partida de algu\u00e9m que mal conhecia?<\/p>\n<p>J\u00e1 em casa, descobriu pelas redes sociais dos antigos colegas da faculdade a enorme como\u00e7\u00e3o que a morte de sua admiradora havia causado. Foi assim que soube tamb\u00e9m o local e o hor\u00e1rio do vel\u00f3rio, decidindo comparecer.<\/p>\n<p>No sal\u00e3o silencioso, n\u00e3o falou com ningu\u00e9m da fam\u00edlia \u2014 n\u00e3o saberia o que dizer. Limitou-se a observar as in\u00fameras manifesta\u00e7\u00f5es de tristeza que aquela despedida provocava. Reconheceu alguns rostos, colegas que n\u00e3o via desde a formatura, mas n\u00e3o se aproximou. N\u00e3o era o momento para reencontros, e a sensa\u00e7\u00e3o de deslocamento que o acompanhava desde a not\u00edcia apenas refor\u00e7ava sua dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Tinha consci\u00eancia de n\u00e3o ter feito nada errado, ainda assim carregava uma estranha forma de culpa: a aus\u00eancia ao lado dela nos \u00faltimos anos, mesmo sem saber que era alvo de um amor silencioso e persistente. A ideia de ter sido amado por tanto tempo sem jamais perceber pesava sobre ele como um fardo inesperado.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, seus amigos come\u00e7aram a estranhar seu comportamento. N\u00e3o era comum que faltasse a tantas farras como vinha acontecendo, mas, apesar da sua aus\u00eancia, eles continuavam a se divertir sem ele.<\/p>\n<p>Sozinho em casa, buscava uma forma de dar vaz\u00e3o aos sentimentos confusos que aquele encontro lhe despertara. Por puro pragmatismo \u2014 e talvez tamb\u00e9m por necessidade de se reencontrar consigo mesmo \u2014 decidiu iniciar um projeto pessoal. N\u00e3o sabia ainda a dimens\u00e3o que teria, mas esse gesto simples acabaria por transformar de maneira perene sua vida.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando voltou para casa ap\u00f3s o sepultamento. Ligou o computador, movido pela esperan\u00e7a de n\u00e3o estar atrasado tamb\u00e9m nisso, e inspirado pelo que ela lhe dissera sobre t\u00ea-lo acompanhado ao longo dos anos pelas redes sociais, acessou, ent\u00e3o, o perfil de sua agora inalcan\u00e7\u00e1vel amiga. Temia que a p\u00e1gina fosse privada ou, pior, que a fam\u00edlia j\u00e1 houvesse desativado a conta.<\/p>\n<p>Para sua grata surpresa, encontrou-a aberta, repleta de fotos, v\u00eddeos e textos. Se no mundo f\u00edsico aquela mo\u00e7a se mostrava t\u00edmida ao extremo \u2014 capaz de viver um amor silencioso sem jamais admiti-lo at\u00e9 os \u00faltimos instantes \u2014 no mundo virtual revelava-se expansiva, corajosa e, sobretudo, disposta a compartilhar aspectos profundos de sua personalidade.<\/p>\n<p>Disposto a conhec\u00ea-la melhor, passou a acessar aquele perfil todas as noites, ao retornar do trabalho para casa. Decidiu que a cronologia era importante: come\u00e7aria pelo conte\u00fado mais antigo, avan\u00e7ando pouco a pouco at\u00e9 chegar aos \u00faltimos dias. Empolgava-o a ideia de ter, assim, um vislumbre de como aquela jovem acanhada havia se transformado ao longo dos anos.<\/p>\n<p>A cada noite, descobria novos motivos para admir\u00e1-la. Revelava-se uma alma carregada de virtudes: gentil, sens\u00edvel, apaixonada por literatura e pela m\u00fasica brasileira, militante de causas ambientais e humanit\u00e1rias. Gostava de escrever, e seus textos eram belos, cheios de sentimentos e positividade.<\/p>\n<p>Mas o que mais o encantava eram as poesias. Ali, nas palavras que ela deixara registradas, havia uma intensidade que ultrapassava o sil\u00eancio de sua vida real. Versos que falavam de amor, de esperan\u00e7a, de dor e de beleza, e que agora, para ele, tornavam-se uma ponte tardia entre dois mundos que quase n\u00e3o se tocaram.<\/p>\n<p>Deu-se conta de que at\u00e9 aquele momento nunca havia apreciado poesia. Lembrava-se vagamente de aulas de portugu\u00eas muito distantes no tempo, em que era obrigado a contar s\u00edlabas po\u00e9ticas, sem, contudo, despertar nele qualquer interesse nos anos seguintes. Agora, por\u00e9m, percebia a primeira mudan\u00e7a concreta em sua vida proveniente daquele encontro: descobrira-se um amante dessa arte de esculpir sentimentos com palavras. Passou a intercalar entre a leitura dos poemas de sua amiga com obras de autores cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>J\u00e1 seus amigos, muito antes notaram algo diferente, o rompimento com as velhas pr\u00e1ticas de excessos noturnos ocorreu de forma abrupta e aos poucos deixaram de insistir em cham\u00e1-lo para as farras, diante das recusas do amigo agora quase recluso.<\/p>\n<p>Um dia, ap\u00f3s a leitura de mais um poema, deu-se conta de que muitos daqueles versos lindos e carregados de sentimento provavelmente haviam sido escritos para ele. A revela\u00e7\u00e3o o atingiu como um raio: o aperto no cora\u00e7\u00e3o era t\u00e3o intenso que quase se confundia com dor f\u00edsica.<\/p>\n<p>Movido por essa descoberta, releu os textos que j\u00e1 conhecia e percebeu algo novo: uma mesma poesia pode ganhar diferentes sentidos quando apreciada em estados de esp\u00edrito distintos. Essa percep\u00e7\u00e3o ampliou sua experi\u00eancia, tornando cada leitura uma revela\u00e7\u00e3o in\u00e9dita.<\/p>\n<p>Ao se imaginar, ainda que presun\u00e7osamente, como inspira\u00e7\u00e3o de t\u00e3o talentosa poetisa, deixou de se sentir apenas um espectador. Passou a enxergar-se como parte daquela hist\u00f3ria, como se os versos fossem um di\u00e1logo secreto entre eles, finalmente revelado.<\/p>\n<p>Dias viraram semanas, e outras mudan\u00e7as come\u00e7aram a se revelar nele. Sempre fora ateu, impaciente diante de qualquer abordagem espiritual, mas pela primeira vez se permitiu pensar no assunto. Acompanhava, atrav\u00e9s das lembran\u00e7as e escritos dela, a forma leve e despretensiosa com que demonstrava sua f\u00e9 enquanto esteve neste plano. Envergonhou-se ao recordar as vezes em que fora r\u00edspido com a pr\u00f3pria m\u00e3e, quando esta, com gentileza, o convidava para ir \u00e0 igreja.<\/p>\n<p>Numa noite, de maneira desajeitada pela falta de pr\u00e1tica, juntou as m\u00e3os e ousou proferir sua primeira prece. N\u00e3o pediu milagres, n\u00e3o buscou respostas. Apenas murmurou, com sinceridade: se existisse um c\u00e9u, ou qualquer outra dimens\u00e3o al\u00e9m da vida, queria estar l\u00e1, para ter outra chance de conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>Sua n\u00e3o planejada jornada de crescimento pessoal at\u00e9 ali fora agrad\u00e1vel, inspiradora e transbordante, \u00e0 medida que todos ao seu redor percebiam um novo homem que se tornara mais am\u00e1vel, gentil, sens\u00edvel \u00e0s necessidades dos outros e menos egoc\u00eantrico do que em outros tempos. Mas, ent\u00e3o, algo mudou.<\/p>\n<p>Atento \u00e0s datas das postagens, percebeu que, repentinamente, elas haviam diminu\u00eddo h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos. Por v\u00e1rias semanas, a atividade virtual da jovem tornara-se quase inexistente, exceto por textos curtos, carregados de uma melancolia que destoava de tudo o que observara at\u00e9 ent\u00e3o. O motivo era \u00f3bvio: naquele instante, contemplava com um atraso de tr\u00eas anos o momento em que ela descobrira sua doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Interrompeu a pesquisa. O que at\u00e9 ent\u00e3o fora uma jornada de autoconhecimento e descobertas empolgantes transformara-se em dor. Sentia que havia dedicado muito tempo a construir, em sua mente, aquela personalidade que s\u00f3 pudera conhecer por breves vislumbres. E agora, se continuasse, corria o risco de destruir a hist\u00f3ria que passara a vivenciar como se fosse sua pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Demorou tr\u00eas dias at\u00e9 reunir coragem para continuar sua pesquisa. Quando finalmente o fez, leu emocionado o primeiro relato p\u00fablico da mo\u00e7a sobre a doen\u00e7a que havia interrompido de forma abrupta a possibilidade daquela amizade florescer.<\/p>\n<p>Surpreendeu-se ao perceber a dignidade com que ela conduziu sua luta final. Viu a dedica\u00e7\u00e3o com que ela engajara-se em programas de apoio \u00e0s v\u00edtimas do mesmo mal que a consumia. Em cada postagem, havia for\u00e7a, esperan\u00e7a e uma energia que parecia inesgot\u00e1vel: participava de eventos, visitava hospitais, gravava v\u00eddeos educativos.<\/p>\n<p>Nada em suas palavras ou atitudes revelava fraqueza. Pelo contr\u00e1rio, transmitia coragem e serenidade. Mas, aos poucos, sua apar\u00eancia come\u00e7ava a denunciar o que as postagens escondiam: sinais discretos, mas inconfund\u00edveis, de que algo n\u00e3o estava bem.<\/p>\n<p>Desde que ele iniciou sua busca, encantou-se com a beleza daquela mulher a quem dera nenhuma aten\u00e7\u00e3o quando eram mais jovens. Em especial sentia-se atra\u00eddo pelo riso f\u00e1cil e sincero, que o faziam lembrar dos sorrisos ensaiados para c\u00e2meras de atrizes famosas, mas que em seu rosto angelical se encaixavam de forma t\u00e3o natural. Mas ap\u00f3s a revela\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o, a cada nova foto, postadas com intervalo m\u00e9dio de 5 dias entre uma e outra, conseguia perceber que aos poucos a enfermidade roubava parte daquela formosura. Notava a constante perda de peso, o afundamento dos olhos, a palidez da pele e o mais perturbador: aquele sorriso encantador, ainda presente, mas j\u00e1 distante da espontaneidade de outrora, emanava agora uma aura de esfor\u00e7o, como se fosse sustentado pela vontade de n\u00e3o deixar a esperan\u00e7a se apagar.<\/p>\n<p>Nem por isso o encanto diminuiu, se at\u00e9 aquele ponto de sua vida ele valorizara os atributos f\u00edsicos das v\u00e1rias mulheres com quem se envolveu, agora havia aprendido de forma dolorosa o valor de uma personalidade forte, intelig\u00eancia, carisma, determina\u00e7\u00e3o, empatia, eleg\u00e2ncia e tantas outras qualidades que descobrira nela. Sua admira\u00e7\u00e3o por aquela mulher crescia na mesma medida em que crescia tamb\u00e9m sua vergonha pela exist\u00eancia f\u00fatil e ego\u00edsta que empreendera at\u00e9 ent\u00e3o. N\u00e3o conseguia encaixar a ideia de ter sido o objeto do amor de uma alma t\u00e3o nobre.<\/p>\n<p>Percebeu, ent\u00e3o, uma nova mudan\u00e7a em si pr\u00f3prio: a intensidade do desejo de ter estado ao lado dela nos anos dif\u00edceis, oferecendo suporte, carinho e renunciando aos pr\u00f3prios prazeres. Esse pensamento surgia em contrassenso aos h\u00e1bitos hedonistas que cultivara por tanto tempo, revelando que, enfim, come\u00e7ava a se transformar em algu\u00e9m diferente.<\/p>\n<p>Foi se tornando cada vez mais melanc\u00f3lico \u00e0 medida que se aproximava o fim daquela jornada solit\u00e1ria de aprendizado. Por vezes, sentia-se como uma crian\u00e7a diante de emo\u00e7\u00f5es desconhecidas, ou que, quando muito, havia experimentado apenas de forma superficial.<\/p>\n<p>O fim, inicialmente impercept\u00edvel, tornava-se pouco a pouco palp\u00e1vel. E, junto dele, um novo sentimento se estabelecia em seu peito. Se lhe perguntassem, n\u00e3o saberia explicar: era uma sensa\u00e7\u00e3o inesperada de que, de alguma forma, as pe\u00e7as estavam se encaixando. Como se at\u00e9 mesmo a tirania da morte n\u00e3o tivesse conseguido apagar uma vida que fora carregada de prop\u00f3sitos.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas fotos \u2014 agora mais raras, possivelmente pelo agravamento da doen\u00e7a \u2014 percebia-se um rosto sereno. Um semblante de quem tinha consci\u00eancia de ter vivido uma vida plena at\u00e9 onde foi poss\u00edvel, ainda que n\u00e3o tivesse encontrado o amor que tanto a inspirara.<\/p>\n<p>Sem aviso, as postagens cessaram. Ele terminou de l\u00ea-las numa noite fria e chuvosa. Sentiu uma agulhada no peito, semelhante \u00e0quela que o atingira no instante em que soube, de forma repentina, da morte dela.<\/p>\n<p>Enquanto observava a \u00e1gua escorrer pela vidra\u00e7a, imaginou que o c\u00e9u chorava a sua dor. E, num gesto quase involunt\u00e1rio, sorriu ao se lembrar de j\u00e1 ter lido algo parecido no in\u00edcio do romance <em>A Sombra do Vento<\/em>, de Carlos Ruiz Zaf\u00f3n \u2014 livro favorito dela, que, inevitavelmente, tornara-se tamb\u00e9m o seu.<\/p>\n<p>O que sentia naquele momento era dif\u00edcil de descrever. N\u00e3o era raiva \u2014 tudo o que aprendera nessa jornada o conduzia \u00e0 conclus\u00e3o de que esse sentimento n\u00e3o combinava com a pessoa que se tornara objeto de seu estudo. N\u00e3o era tristeza \u2014 havia descoberto fontes de alegria que sabia poder explorar, ainda que n\u00e3o ao lado daquela que o ensinara a acess\u00e1-las. N\u00e3o era saudosismo \u2014 compreendeu que n\u00e3o faz sentido sentir saudades do que nunca se teve.<\/p>\n<p>Deu-se conta, ent\u00e3o, de que o turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es que se agitava em seu peito era algo que jamais se permitira sentir. Algo que a vida, ou algum Deus que a guiava, decidira que era hora de lhe apresentar de forma t\u00e3o dram\u00e1tica. Era amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma carta. Por pouco n\u00e3o a descartou, julgando tratar-se de mais uma a\u00e7\u00e3o de marketing indesejada, afinal, quem mandaria uma missiva em plena era de aplicativos de conversas? Mas notou algo diferente: o envelope exalava um perfume, n\u00e3o uma fragr\u00e2ncia qualquer, o aroma indicava que a pessoa que a enviara tinha bom gosto e requinte. 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