{"id":375053,"date":"2025-12-18T01:00:01","date_gmt":"2025-12-18T04:00:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375053"},"modified":"2025-12-16T09:04:19","modified_gmt":"2025-12-16T12:04:19","slug":"e-dois-corpos-lambuzando-se-enrolados-e-desprendidos-na-areia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/e-dois-corpos-lambuzando-se-enrolados-e-desprendidos-na-areia\/","title":{"rendered":"E dois corpos lambuzando-se enrolados e desprendidos na areia"},"content":{"rendered":"<p>No crep\u00fasculo da vida, seremos julgados pelo amor. \u2013 S. Jo\u00e3o da Cruz<\/p>\n<p>Viu a noite aproximar-se naquele crep\u00fasculo p\u00farpura e long\u00ednquo alongando-se como um eco. Pensou nela, na sua figura alva por entre as sedas da imagina\u00e7\u00e3o. Decidiu ir. Ela morava numa outra cidade n\u00e3o muito longe dali.<\/p>\n<p>Para ele tudo era um atuar, improviso. Desde a forma como vestia \u00e0 forma como sentia at\u00e9 \u00e0 forma como pensava, tudo obedecia a uma l\u00f3gica simples de equil\u00edbrio entre opostos irreconcili\u00e1veis, ser e n\u00e3o ser, estar e desaparecer. O seu inconsciente desenhava aquela mulher como um anjo andando por sobre as \u00e1guas, leve e doce levada numa brisa fria suspirando.<\/p>\n<p>Ele sai \u00e1 rua como uma sombra silenciosa voando pelo escuro claro da noite n\u00e9voa. Ao seu redor uma neblina conspirava suaves candeeiros acesos em tons amarelos. Toda a cidade era um p\u00e2ntano espiritual maldito de onde emergiam suaves murm\u00farios correndo entre as correntes de ar frias e murmurantes.<\/p>\n<p>Entrou no seu autom\u00f3vel escuro. Por milhares de milhas de esquecimento negro, levemente iluminado pelas luzes acesas do autom\u00f3vel, ele via a estrada aparecer subitamente em tra\u00e7os brancos r\u00e1pidos.<\/p>\n<p>Risca um f\u00f3sforo na pequena caixa que, em estilo noir, apresenta as letras \u201cS\u00e9timo C\u00e9u\u201d escritas a cores de fogo. Acende um cigarro. Apaga o f\u00f3sforo.<\/p>\n<p>A necessidade extempor\u00e2nea de fumar o fumo azul, que o enche numa suave nuvem, \u00e9 satisfeita com uma agrad\u00e1vel chicotada de nicotina. No r\u00e1dio do autom\u00f3vel soa um violoncelo fremindo em cujas cordas deslizam imagens diferentes que parecem reverberar luminosos futuros, pequenos nadas, vislumbres m\u00ednimos do porvir.<\/p>\n<p>Ela estaria l\u00e1? Avan\u00e7a pela estrada tragando quil\u00f3metros e quil\u00f3metros e instantes e mais instantes que parecem entrar pelo vidro \u00e0 sua frente como pequenos monstros rindo-se delirantes num cen\u00e1rio mental subliminar.<\/p>\n<p>Ela estaria l\u00e1? E o r\u00e1dio vibra sons de estremecer as emo\u00e7\u00f5es. Um violoncelo vai fazendo as cordas e os nervos dele vibrar.<\/p>\n<p>L\u00e1 no alto, no cimo da noite, a lua parece queimar-se distante entre os v\u00e9us di\u00e1fanos das nuvens silenciosas. Ele sente no seu estar ansioso uma esp\u00e9cie de necessidade urgente de ter de ficar com ela pelos anos vindouros.<\/p>\n<p>Sente-se t\u00e3o feliz por antecipa\u00e7\u00e3o que parece querer gritar, queria gritar muito, por sobre os bosques, por toda a sua imagina\u00e7\u00e3o com os bosques dentro, por sobre todo o mundo com ele e os bosques dentro.<\/p>\n<p>Sensa\u00e7\u00f5es mornas e vermelhas v\u00e3o fazendo crescer nele pequenas l\u00e1grimas de \u00eaxtase que se amontoam no olhar v\u00edtreo. Quando, \u00f3 Deus, quando? E na sua mem\u00f3ria a imagem dela movimenta-se dentro da noite como se tivesse vida pr\u00f3pria. \u00c9 como se ela fosse uma apari\u00e7\u00e3o de luz boiando no meio da estrada escura que o autom\u00f3vel vai tragando iluminando no asfalto uma incerteza insegura de chegar salvo.<\/p>\n<p>O inconsciente dele \u00e9 uma orquestra ca\u00f3tica como quando afinam os instrumentos todos os m\u00fasicos antes de come\u00e7ar um concerto numa esp\u00e9cie de atmosfera amni\u00f3tica. Furtivo, o seu olhar fino entra no escuro da noite. Ele e ela parecem subir de um sonho que se evola da estrada dan\u00e7ando uma valsa et\u00e9rea na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>De olhar fito na estrada ele pensa em tudo, ele pensa em nada. No r\u00e1dio, um violoncelo continua a gemer pequenos gritos de gozo que se introduzem na noite como faunos selvagens errando nos bosques perto de fontes claras num jardim puro desvanecendo-se suave em long\u00ednquo futuro.<\/p>\n<p>Metamorfoseando-se na estrada escura, dentro do autom\u00f3vel transido no embalo do violoncelo crom\u00e1tico, lentamente ele transforma-se num lobo, num puro lobo de cinzento pelo, espesso e cru cinzento pelo. Tem brilhos e uivos o seu olhar.<\/p>\n<p>As rodas do autom\u00f3vel s\u00e3o quatro patas que correm numa procura selvagem entre os montes e os rios frios que junto \u00e0 estrada longe parecem desfilar e correr. Na sua mente de lobo caem cascatas onde ela se banha nua por entre as pedras silenciosas. Nua em cascatas de cristal\u2026<\/p>\n<p>Ele atravessa a noite como quem atravessa um sonho sem som. O autom\u00f3vel tem um odor a pelo de lobo. Os far\u00f3is s\u00e3o dois olhos intensos encadeando primitivos instintos perdidos.<\/p>\n<p>Ele procura-a longe na noite m\u00edstica entre violoncelos e uivos, entre os mortos e os feridos que na batalha dos sonhos se movem, dan\u00e7am e cambaleiam. Est\u00e1 pouca gente na estrada.<\/p>\n<p>Outros autom\u00f3veis com mais lobos dentro t\u00eam planos similares e rondam e uivam em alcateia pela escurid\u00e3o procurando prazeres convincentes e casuais nas cidades acesas. S\u00e3o semelhantes todos, exalam dos seus pelos cios animais que procuram satisfazer sob a lua cheia que saliva.<\/p>\n<p>Uma placa indicava um nome. Viu-a de relance. A cidade agora era diferente, era um breve rumor de luzes e transe. Casas como tendas mal iluminadas bordejavam a estrada emanando um et\u00e9reo fogo misterioso, meia-noite e tudo aquilo seria perigoso. Toda a arquitetura daquela cidade, vista ao olhar r\u00e1pido e lancinante do lobo, era uma vibra\u00e7\u00e3o pura de algo nunca visto na velocidade estonteante das quatro patas correndo \u00e0 velocidade do autom\u00f3vel escuro.<\/p>\n<p>Um esquecimento infantil e diletante o levou, algo de surpresa instant\u00e2nea por acontecer ali ao seu redor se formou. Junto a um bar mal iluminado estacionou o seu ve\u00edculo. Sobe as escadas de cimento e tudo isto \u00e9 rid\u00edculo.<\/p>\n<p>L\u00e1 em cima um letreiro a letras de fogo soletra \u201cS\u00e9timo C\u00e9u\u201d num lento n\u00e9on azul de modorra abstrata afastando-se. Entra no bar e h\u00e1 um ar pesado emanando-se.<\/p>\n<p>Luzes escondidas reverberam pequenos cantos e recantos com mesas e cadeiras minimais, sente os gestos insignificantes das pessoas num claro escuro sem futuro. Aproxima-se do balc\u00e3o. O seu faro distingue distintamente os personagens sem hist\u00f3ria e os vencedores com as mulheres perfumadas a seu lado. Exibem-nas loiras, como trof\u00e9us de vit\u00f3ria. Pelo perfume que elas emanam tenta distinguir nas formas musicais a silhueta dela, a sua vibra\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica de vermelho que grita e sorri de beleza. E lembra:<\/p>\n<p>\u2026 Os l\u00e1bios delas eram como rosas mordidas&#8230;<\/p>\n<p>As mulheres em redor pareciam encenar uma sensual cena secreta feita de impaci\u00eancias e rubores que sa\u00edam dos seus corpos fr\u00e1geis semivestidos. Ele entrava nos seus olhares expectantes e procurava dentro delas a lua, a janela que se fecha, as roupas no ch\u00e3o, a lareira que arde, a cama por onde a pele desliza suave e os uivos. Nada. S\u00f3 m\u00e1goas&#8230; Vagos fluidos.<\/p>\n<p>Pediu whisky num gesto brusco, &#8220;com duas pedras de gelo por favor\u2026&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Obrigado&#8221;, disse, &#8230; e n\u00e3o sou obrigado a isto, pensou, o \u00e1lcool \u00e9 um torpor que em mim \u00e9 mortal risco.<\/p>\n<p>Havia ainda uma escada que subia at\u00e9 ao primeiro andar. Dela desciam algumas mulheres lentamente, insinuando-se devagar. Um tipo qualquer subia pela escada com um casaco de couro procurando noutra mulher mais fortuna que o ouro.<\/p>\n<p>Ele olha o seu rel\u00f3gio su\u00ed\u00e7o. Os segundos sucediam-se certos como as fortes batidas do seu cora\u00e7\u00e3o, entre o sangue e as veias no seu interior pulsando, pulsando, olhando desertos no seu olhar de lobo procurando-a ansioso para sua consola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do seu olhar saem duas estrelas long\u00ednquas que parecem se aproximar enquanto o universo gira e gira e tudo s\u00e3o cores e cambiantes sempre e sempre a mudar. Procura-a no meio dos corpos casuais. Esta gente movimenta-se como sombras silentes num claro-escuro sem futuro. Bebe em pequenos goles o whisky sem hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Sons l\u00edquidos de pequenos toques no vidro das duas pedras de gelo no copo fazem-no ansiar ainda mais fortemente a distinta vibra\u00e7\u00e3o dela. Pudesse ela tir\u00e1-lo deste pesadelo.<\/p>\n<p>De s\u00fabito, v\u00ea-a destacando-se da turba an\u00f3nima, caminhando descal\u00e7a sobre cinzas acesas. Nada. N\u00e3o era ela.<\/p>\n<p>Mulheres presas. Saliva um pouco enquanto olha a imagem da lua devoradora que atravessa os vidros da janela mal iluminada l\u00e1 em cima no primeiro andar. De um trago engole o \u00f3leo l\u00edquido daquele whisky marado. Pousa o copo no balc\u00e3o, subitamente determinado. Sacode freneticamente o seu pelo de lobo solit\u00e1rio levemente ferido mas subitamente regenerado.<\/p>\n<p>Sobe as escadas. L\u00e1 em cima havia sof\u00e1s vermelhos e pequenas mesas minimalistas. As cores que sa\u00edam daquelas luzes eram suaves desmaios de damas e riscos mentais verdes de muitas gamas.<\/p>\n<p>Haviam azuis esquecidos nas luzes e verdes fantasmas boiando em copos de absintos simb\u00f3licos. Olhou em redor. Os seus olhos como duas chamas consumindo-se, tragando o vapor e o temor. Viu corpos d\u00f3ceis sem gl\u00f3ria preenchendo o espa\u00e7o apinhado.<\/p>\n<p>&#8220;Gente sem hist\u00f3ria&#8230;&#8221;, voltou a pensar ironizando calado dentro do seu pelo de lobo eri\u00e7ado.<\/p>\n<p>Encostou-se ao balc\u00e3o do primeiro andar. Pediu whisky novamente, &#8220;com duas pedras de gelo por favor&#8221;, entrando num fervor melanc\u00f3lico de \u00f3leo met\u00e1lico vol\u00e1til correndo-lhe no interior.<\/p>\n<p>&#8220;Com certeza&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Obrigado.&#8221;<\/p>\n<p>E pensou, como tudo \u00e9 t\u00e1ctil&#8230;<\/p>\n<p>Aquela empregada tem um decote ousado, olhou-a demorado. Os seus peitos salientes segredam imposs\u00edveis prazeres por realizar.<\/p>\n<p>Ele olha-a e sorve-a visualmente rapidamente desejando-a como uma incontrol\u00e1vel torrente el\u00e9trica zoando, como um rel\u00e2mpago azul mental que em si mesmo se ilumina e tudo \u00e9 t\u00e3o irreal, estonteante e superficial, que ela isso mesmo nota e nada, nada, nada acontece. Nem sinal dela.<\/p>\n<p>Vai bebendo devagar o l\u00edquido endemoninhado enquanto lentamente entra numa esp\u00e9cie de floresta com palavras vivas revoando em volta escondendo-se nas copas das \u00e1rvores sob a lua.<\/p>\n<p>Aquele primeiro andar desaparece silenciosamente numa n\u00e9voa sem forma. Ao seu redor um novo bosque abre-se misteriosamente. E sente o odor da terra quente nas suas narinas. E sente o odor dela que parece embalar-se numa brisa noturna acompanhada de can\u00e7\u00f5es e clamores rudes de \u00e9brios amargurados que loucos rondam.<\/p>\n<p>Subitamente, ela entra no seu sonho silencioso com um vestido vermelho e os ombros nus partindo o espelho do olhar que isto reluz. E sorri como um brilho.<\/p>\n<p>A lua mant\u00e9m-se em chamas l\u00e1 do outro lado do vidro naquela janela ao fundo. As pessoas \u00e1 sua volta derretem-se como um caramelo sem forma emanando fumos lentos e sonos de est\u00e1tuas de corpos d\u00f3ceis.<\/p>\n<p>Ele olha fixamente aqueles lindos olhos dela como duas distintas p\u00e9rolas negras rolando. Fica encadeado no seu sorriso que rebrilha.<\/p>\n<p>\u201cOl\u00e1\u201d, diz ela.<\/p>\n<p>E o seu corpo exala um perfume feito de vivas labaredas, de espelhos escritos com batom, de ursos de peluche felpudos deitados na cama e de mornas conversas ao telefone com a \u00e1gua do banho a correr.<\/p>\n<p>\u201cComo est\u00e1s Mariana?<\/p>\n<p>Nestes \u00faltimos dias tenho pensado em ti\u2026\u201d<\/p>\n<p>E ela sorri com um sorriso igualzinho ao do sonho, daquele sonho de ter\u00e7a-feira de madrugada onde a noite parecia gemer em contor\u00e7\u00f5es frias, onde os ramos da \u00e1rvores que se assustam batiam na vidra\u00e7a enquanto a noite escura l\u00e1 fora era o caos e a desgra\u00e7a e havia uivos e toques de dedos frios na sua mente sonolenta virando-se de gozo sozinho por entre os len\u00e7\u00f3is da cama.<\/p>\n<p>Pensou nela toda a noite entre labaredas\u2026<\/p>\n<p>\u201cPor onde tens andado?\u201d<\/p>\n<p>Ela mexe os l\u00e1bios soletrando palavras invis\u00edveis com chocolate doce dentro. Fala-lhe de cousas que soam a humidade no espelho durante o duche, a m\u00e1quinas de lavar que rodam e que rodam noite dentro, ao miar de um gato branco felpudo passando fofo por entre a roupa em cima da cama.<\/p>\n<p>Ele sorri. Sabe-lhe bem aquelas palavras, a um ligeiro sabor a requinte e a caf\u00e9s majestosos com violinistas dentro e menus caros dizendo coisas em estrangeiro nas mesas.<\/p>\n<p>Subitamente ele penetra naquele olhar vivo dela. E v\u00ea o seu autom\u00f3vel a partir. E uma estrada que serpenteia. E uma praia na noite deserta. E dois corpos lambuzando-se enrolados e desprendidos na areia. E h\u00e1 um grito espasmo de prazer e a lua \u00e9 lenda lenta tudo a ver&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto bebe mais um gole no seu copo de cristal ela fala-lhe de coisas longas e lentas, uma conversa emocional como violinos riscando-se inofensivos. E parece m\u00fasica de embalar as palavras dela, como algod\u00e3o doce, mel e nuvens, um ver\u00e3o de dias claros abrindo-se em cenas de luz por praias.<\/p>\n<p>Pequenas caixas de m\u00fasica tocam num quarto estranho camuflado entre almofadas vermelhas e sof\u00e1s pregui\u00e7osos. Ele toma a palavra. Fala-lhe de coisas como pequenos tra\u00e7os, poucas cores, um violoncelo riscando-se mon\u00f3tono e um brinde no fim. Ela sorri e confia nele.<\/p>\n<p>Na sua mente do lobo h\u00e1 milhares de pianos estendendo-se sem fim numa galeria de espelhos. Naquele momento, algures, Beethoven toca a serenata ao luar num s\u00e9culo dezanove igual a todos os s\u00e9culos envolvendo tudo numa s\u00fabita solid\u00e3o saudosa. E havia l\u00e1grimas invis\u00edveis que caiam frias vindas algures da ab\u00f3bada escura da noite que era aquele estar sem a sua m\u00e3o quente na sua m\u00e3o, subitamente corando ela parecia&#8230;<\/p>\n<p>Uma linda vis\u00e3o de menina&#8230; Ele sorri e confia. O tempo passa e ele v\u00ea nela um leve rubor na face.<\/p>\n<p>&#8220;Sabes\u2026&#8221;<\/p>\n<p>E a conversa ficou mais alegre quando ele a convida para sair daquele s\u00edtio sem forma, daquele casebre de lobos sem alma.<\/p>\n<p>\u201cEste lugar n\u00e3o tem o m\u00ednimo de dec\u00eancia para com a tua beleza, mereces melhor&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ela sorri e emana da sua pele um l\u00e2nguido gozo de s\u00fabito amor quente. E o seu perfume inebria-o. Ferve-lhe o sangue de lobo por dentro.<\/p>\n<p>Pequenas fervuras brancas sobem como as bolhas no copo que ela deixa no balc\u00e3o. Os dias anteriores, cheios de cortes e de dores, pareceram sarar, e aquela cena de sair dali com ela era como um novo rumorejar, um desejar de coisas poss\u00edveis no meio deste deserto do incerto. Mas agora, um sol interior animava-o.<\/p>\n<p>As estrelas no firmamento tinham um novo brilho. A lua m\u00e1 fora-se embora com as suas carruagens de nuvens escuras correndo e assustando algu\u00e9m que ainda n\u00e3o tivesse em si mesmo crendo.<\/p>\n<p>S\u00f3 ele e ela dentro do autom\u00f3vel, um ao outro o sil\u00eancio lendo. Foram pela estrada conversando como um desejo bom que se partilha e aquece, que se estende por milhares e milhares de milhas em viagem. Sa\u00eda dele o odor a pelo de lobo. Salivava. A lua cheia l\u00e1 em cima salivava.<\/p>\n<p>Instintos vermelhos dentro dele anteviam um prazer profundo. Os seus olhos eram duas candeias de fogo. Ultrapassava rapidamente os outros autom\u00f3veis com lobos dentro.<\/p>\n<p>Ouvia o rumor da alcateia reunida em novos estabelecimentos de divers\u00e3o noturna. Era um rumor breve e superficial cheio de pequenos uivos de muitos lobos que brincam e rosnam por entre os n\u00e9ons e as bebidas brancas. Deixou a insanidade para tr\u00e1s e a paisagem tornou-se mais calma e amena.<\/p>\n<p>Levou-a at\u00e9 \u00e1 praia. Entre risos e perfumes e bot\u00f5es na roupa que se abriram ela pergunta-lhe sorrindo:<\/p>\n<p>\u201cPorque me levas \u00e1 loucura desta maneira?\u201d<\/p>\n<p>Sob uma lua maliciosamente quente, ouvindo o respirar do mar que se estende at\u00e9 ao fim da constelada escurid\u00e3o, os dois fazem amor conscientemente inconscientes indo-se no calor da pele, no toque da \u00e1gua fria e das m\u00e3os, no deslizar da pele pelas areias ferventes e j\u00e1 n\u00e3o na plat\u00f3nica imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E davam as m\u00e3os evanescentes. Sob a lua quente. Os corpos nus rastejam lentos em suaves contor\u00e7\u00f5es de puro toque e magia silenciosa. A lua incendeia-se outra vez no doce gozo da alegria. O sabor da pele dela era salgado, molha-lhe os l\u00e1bios um travo a mar e a maresia.<\/p>\n<p>\u201cPara, para por favor, estamos a ir muito depressa, estamos a ir muito depressa!\u201d<\/p>\n<p>E todo o cen\u00e1rio em redor implode dentro dele. E todo o cen\u00e1rio no seu interior explode dentro dele. Os seus dentes caninos sorvem de gozo aquela pele branca sens\u00edvel. E escuta o bater do seu cora\u00e7\u00e3o de passarinho.<\/p>\n<p>Os seus olhos brilham como duas almas acesas num t\u00e1rtaro escuro. Como num sonho r\u00e1pido, devorados pelas chamas que cobriam os corpos, os dois acabam por dormir abra\u00e7ados e enla\u00e7ados em poses insanas nas areias da praia enlevados por leves olores selvagens indo-se ao vento silencioso.<\/p>\n<p>A lua azul ilumina um caminho de luz no mar sonolento. E o tempo passa devagar com as ondas do mar movendo-se devagar.<\/p>\n<p>As suas mentes j\u00e1 n\u00e3o pensam, j\u00e1 n\u00e3o sentem, tudo se passa como um violino virtuoso que gira, que risca e se alonga na chama pura do novo sol que agora lento vai nascendo. A nova manh\u00e3 ergue-se com pequenas cicatrizes vermelhas e mordidas na pele. Viu a aurora aproximar-se naquele raiar p\u00farpura e long\u00ednquo alongando-se como um eco\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No crep\u00fasculo da vida, seremos julgados pelo amor. \u2013 S. Jo\u00e3o da Cruz Viu a noite aproximar-se naquele crep\u00fasculo p\u00farpura e long\u00ednquo alongando-se como um eco. Pensou nela, na sua figura alva por entre as sedas da imagina\u00e7\u00e3o. Decidiu ir. Ela morava numa outra cidade n\u00e3o muito longe dali. Para ele tudo era um atuar, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":375054,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-375053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=375053"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":375057,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375053\/revisions\/375057"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/375054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=375053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=375053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=375053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}