{"id":375094,"date":"2025-12-19T00:15:10","date_gmt":"2025-12-19T03:15:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375094"},"modified":"2025-12-16T12:36:17","modified_gmt":"2025-12-16T15:36:17","slug":"perambulava-pelas-ruas-de-paris-em-busca-de-um-efluvio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/perambulava-pelas-ruas-de-paris-em-busca-de-um-efluvio\/","title":{"rendered":"Perambulava pelas ruas de Paris em busca de um efl\u00favio"},"content":{"rendered":"<p>Em 1938, enquanto o alem\u00e3o Walter Benjamin dava os \u00faltimos retoques na obra Charles Baudelaire: um l\u00edrico no auge do capitalismo, uma de suas cria\u00e7\u00f5es, o fl\u00e2neur benjaminiano, perambulava pelas ruas de Paris em busca de um efl\u00favio, um leve aroma, um resqu\u00edcio da aura de seu \u00eddolo e inspirador, o fl\u00e2neur baudelairiano. (A rigor, n\u00e3o eram personagens liter\u00e1rios, n\u00e3o havia um fl\u00e2neur chamado Jean nos textos de Baudelaire, nem um outro chamado Karl nos ensaios de Benjamin, mas ambos, inesquec\u00edveis, ganhavam vida e saltavam das p\u00e1ginas magn\u00edficas dos dois autores.)<\/p>\n<p>Para o bate-pernas alem\u00e3o, tiete do parisiense, este representava a quintess\u00eancia da modernidade e do esp\u00edrito urbano. Claro, n\u00e3o encontrou nada, Baudelaire havia morrido muito tempo antes, em 1867. Decepcionado, o benjaminiano ia flanar de volta para casa, quando os deuses tiveram piedade dele e o levaram pelo tempo e pelo espa\u00e7o, colocando-o num banco do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, no ano de gra\u00e7a de 2017.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, o andarilho ficou assustado, sem saber onde estava. Aos poucos, por\u00e9m, recuperou a calma caracter\u00edstica dos d\u00e2ndis europeus, levantou-se e olhou em volta. E viu, n\u00e3o muito distante, um homem vestido com trajes elegantes do s\u00e9culo XIX. Aproximou-se do janota e indagou polidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Excusez-moi, parlez-vous fran\u00e7ais? [Desculpe, o senhor fala franc\u00eas?]<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 minha l\u00edngua natal \u2013 respondeu o estranho, no idioma de Baudelaire.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 curioso, algo no senhor me parece familiar. Por acaso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou o fl\u00e2neur baudelairiano \u2013 cortou o elegante. E prosseguiu com a explica\u00e7\u00e3o. \u2013 Estava perambulando pelas deliciosas vielas de Paris, as que sobreviveram \u00e0s reformas urban\u00edsticas de minha \u00e9poca, quando, n\u00e3o sei como, vim parar nesta cidade desconhecida. Achei-a pavorosa, todo esse espa\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>\u201cEle n\u00e3o gosta das grandes avenidas e bulevares parisienses abertos na segunda metade do s\u00e9culo XIX, no reinado de Napole\u00e3o III\u201d \u2013 percebeu o benjaminiano. \u201cSente falta das ruas estreitas, terreno ideal para um fl\u00e2neur que se embriaga do contato com a multid\u00e3o\u201d. Em seguida declarou ser tamb\u00e9m um andarilho urbano, admirador do pioneiro esbo\u00e7ado por Baudelaire, com quem no atual momento tinha a honra de conversar (fez uma rever\u00eancia, polidamente retribu\u00edda), e que perambulava pela capital francesa na segunda metade dos anos 1930. Superado o espanto inicial por terem vindo de \u00e9pocas diferentes, trazidos sabe-se l\u00e1 por quem, como, ou por qu\u00ea, decidiram caminhar juntos, sem destino, pelas ruas da cidade desconhecida, absorvendo sua modernidade. Afinal, era o m\u00ednimo que Baudelaire e Benjamin esperariam de suas respectivas criaturas.<\/p>\n<p>Nesse momento, materializou-se diante deles um homem que empunhava um rev\u00f3lver.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um assalto \u2013 rosnou em franc\u00eas. \u2013 Entreguem tudo!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o atire \u2013 respondeu o benjaminiano. \u2013 Quem \u00e9 o senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Ah, os bonitinhos falam a minha l\u00edngua? Melhor, gosto de conversar. Sou um personagem genetiano, uma cria\u00e7\u00e3o do imortal Jean Genet, viado, ladr\u00e3o e escritor, nessa ordem de import\u00e2ncia \u2013 declarou com orgulho. \u2013 Estava com um macho num hotel barato em Paris quando, n\u00e3o sei como, vim parar aqui. Por sorte trouxe minha arma, vou fazer muitos assaltos no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Rio de Janeiro? A capital do Brasil?<\/p>\n<p>&#8211; As duas belezinhas nem sabem onde est\u00e3o! E nem que a cidade deixou de ser capital do Brasil h\u00e1 muito tempo! Esse \u00e9 o Aterro do Flamengo, sei disso porque meu criador, Jean Genet, esteve no Brasil em 1970.<\/p>\n<p>&#8211; Mais de 30 anos depois de meu tempo&#8230; \u2013 observou o benjaminiano.<\/p>\n<p>&#8211; Mais de um s\u00e9culo depois de meu tempo \u2013 acrescentou o baudelairiano.<\/p>\n<p>Quem ficou espantado dessa vez foi o genetiano. Indagou quem eram, o que tinha acontecido, reconheceu que eram uma esp\u00e9cie de avatares liter\u00e1rios e no caso, meros joguetes dos deuses, mas continuou a apontar a arma para os dois andarilhos. Afinal, \u00e0 semelhan\u00e7a do autor da pe\u00e7a O balc\u00e3o, era um assaltante dedicado e homossexual assumido; quanto aos escritos, deixava-os por conta de Jean Genet.<\/p>\n<p>&#8211; Compreendam, assaltar algu\u00e9m ou dar pra algu\u00e9m \u00e9 um exerc\u00edcio de liberdade. Sou um predador, livre como um leopardo das savanas da \u00c1frica, escolho minhas v\u00edtimas e meus machos&#8230;<\/p>\n<p>Nesse momento olhou meio diferente, de um jeito que se pretendia sedutor, para os dois e observou:<\/p>\n<p>&#8211; Ali\u00e1s, um de voc\u00eas pode deixar de ser v\u00edtima e se tornar um amigo querido. Qual de voc\u00eas vai fazer comigo? Aqui mesmo. \u00c9 um espa\u00e7o aberto, algu\u00e9m pode ver, mas o risco aumenta o prazer&#8230;<\/p>\n<p>Os fl\u00e2neurs entreolharam-se, meio em jeito, e continuaram em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, decidam-se, n\u00e3o tenho o dia inteiro! \u2013 rosnou o genetiano, gesticulando com o rev\u00f3lver na dire\u00e7\u00e3o dos dois.<\/p>\n<p>Do outro lado da avenida, Ant\u00f4nio, nascido e criado no Rio de Janeiro, viu o reluzir da arma \u00e0 luz do Sol, percebeu que era um assalto e decidiu intervir. Pegou um cano de metal que estava no ch\u00e3o e correu para o Aterro do Flamengo.<\/p>\n<p>Horas depois, numa delegacia carioca, o delegado conversava com o policial envolvido no caso.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o esquenta, n\u00e3o deve sobrar pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, doutor \u2013 e perguntou. \u2013 O que houve com os gringos?<\/p>\n<p>&#8211; Quanto \u00e0s duas v\u00edtimas do suposto assalto, mandei dar uma surra leve, s\u00f3 umas porradas, e liberei. Pra aprenderem a n\u00e3o usar roupas esquisitas e andar sem documentos pelas ruas do Rio. Quanto ao terceiro gringo, o viadinho, mandei aplicar um corretivo mais forte, pela tentativa de assalto. Depois ia soltar, mas ele implorou pra ficar na cela, queria conhecer seus irm\u00e3os criminosos. \u2013 Parou um segundo, sorriu e continuou. \u2013 Ent\u00e3o as pancadas foram s\u00f3 pra amaciar a carne. A surra vai ser esta noite. De pau!<\/p>\n<p>Ainda rindo, falou ao policial:<\/p>\n<p>&#8211; Me conta de novo, bem detalhado, o que voc\u00ea fez.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, doutor, eu ia atravessar a avenida e passear no Aterro do Flamengo quando vi um cara correr na dire\u00e7\u00e3o de tr\u00eas homens, segurando um cano de ferro. Os tr\u00eas eram gringos, turistas, percebi de cara. Achei que ele ia assaltar os turistas. Gritei, \u201cPare, pol\u00edcia\u201d, mas o elemento continuou correndo. Ent\u00e3o mandei chumbo. Pretendia s\u00f3 ferir, mas dei azar, o proj\u00e9til atingiu um ponto vital e ele caiu morto. Trouxe os gringos pra esta delegacia, pra prestar esclarecimentos, o resto o senhor sabe.<\/p>\n<p>O delegado ficou uns minutos em sil\u00eancio, pensando, depois falou.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 n\u00e3o vai dar nada pra voc\u00ea. A culpa foi dele mesmo. O indiv\u00edduo empunhava uma arma improvisada, estava disposto a machucar algu\u00e9m. Talvez fosse c\u00famplice do assaltante, o cafet\u00e3o dele, vai saber. Afinal, por que um preto favelado, de short e sem camisa, iria se envolver num lance entre europeus?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1938, enquanto o alem\u00e3o Walter Benjamin dava os \u00faltimos retoques na obra Charles Baudelaire: um l\u00edrico no auge do capitalismo, uma de suas cria\u00e7\u00f5es, o fl\u00e2neur benjaminiano, perambulava pelas ruas de Paris em busca de um efl\u00favio, um leve aroma, um resqu\u00edcio da aura de seu \u00eddolo e inspirador, o fl\u00e2neur baudelairiano. 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