{"id":375099,"date":"2025-12-20T00:45:50","date_gmt":"2025-12-20T03:45:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375099"},"modified":"2025-12-16T12:53:33","modified_gmt":"2025-12-16T15:53:33","slug":"ele-voltou-pra-seus-soldadinhos-de-chumbo-imaginarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ele-voltou-pra-seus-soldadinhos-de-chumbo-imaginarios\/","title":{"rendered":"Ele voltou pra seus soldadinhos de chumbo imagin\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o estava crian\u00e7ando. E n\u00e3o era sem tempo. Tinha 80 anos, morava sozinho, estava meio surdo, ficando cego, mas restavam mem\u00f3rias felizes do tempo de inf\u00e2ncia. N\u00e3o teve de fazer muito esfor\u00e7o, foi preciso apenas dar f\u00e9rias ao superego e recuperar o senso de maravilhamento que tinha quando garoto.<\/p>\n<p>Dan\u00e7ar na chuva, por exemplo. N\u00e3o uma coreografia rebuscada, tipo a de Singing in the rain, mas uns passinhos e, em especial, umas voltas com os bra\u00e7os abertos. E estampar no rosto um enorme sorriso, de orelha a orelha. E, acima de tudo, ignorar os coment\u00e1rios de \u201cVelho gag\u00e1\u201d vindos dos que testemunhavam sua performance e zombavam dela.<\/p>\n<p>Ou bater bola com a molecada. A bola era de meia, o gol, dos dois lados, de camisetas empilhadas no solo. Ele, claro, n\u00e3o foi escolhido pra jogar, mas a bola veio em sua dire\u00e7\u00e3o e enfiou o p\u00e9. Fazia mais de 40 anos que n\u00e3o dava um chute t\u00e3o preciso. Pegou de primeira, a bola passou raspando uma das camisetas, n\u00e3o entrou por pouco, os meninos aplaudiram, \u201cBelo chute, vov\u00f4\u201d, ele agradeceu com um sorriso e foi embora, feliz da vida.<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o brincar com soldadinhos de chumbo. Eles n\u00e3o existiam mais, perdidos no buraco negro para onde v\u00e3o quase todos os brinquedos da inf\u00e2ncia, mas lembrava deles como se os estivesse vendo \u2013 hussardos e granadeiros com os coloridos uniformes dos ex\u00e9rcitos napole\u00f4nicos, em contraponto aos casacos vermelhos mais s\u00f3brios da infantaria inglesa. Fora um presente do pai e, segundo Jo\u00e3o, o melhor de todos, e olha que ele ganhara um DKW aos 17 anos de idade! Ele soube, de algum modo (devia ter uns 9 anos quando recebeu os soldadinhos), que os ingleses haviam derrotado os franceses, e passou a aplicar surras hom\u00e9ricas nas tropas de Napole\u00e3o. Os soldados com que Jo\u00e3o brincava agora eram imagin\u00e1rios, n\u00e3o comprou outros para substituir os originais, mas passava horas fazendo as tropas da Fran\u00e7a morderem o p\u00f3.<\/p>\n<p>Certa tarde, depois de conduzir os casacos vermelhos a mais uma vit\u00f3ria contra os franceses, Jo\u00e3o saiu para dar uma volta. Seguiu para o parque onde quase havia feito o gol de placa, na pelada com os moleques. De repente, viu uma mo\u00e7a sentada num banco. Era baixinha e n\u00e3o muito bonita, mas olhava para os p\u00e1ssaros e \u00e1rvores com um enlevo que o encantou.<\/p>\n<p>Aproximou-se devagar e percebeu, pelos olhos amendoados e orelhas pequeninas, que ela era portadora da S\u00edndrome de Down \u2013 em tempos mais grosseiros e menos politicamente corretos, seria chamada de mongoloide. Ela dirigiu-lhe um sorriso encantador, ing\u00eanuo e franco, e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Pode sentar, mo\u00e7o. Eu n\u00e3o mordo \u2013 e deu uma risada cristalina.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o estava voltando a ser crian\u00e7a, mas n\u00e3o perdera (ainda?), seu acervo intelectual. Sabia n\u00e3o se tratar de uma doen\u00e7a e sim de uma condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, resultante da presen\u00e7a de um cromossomo extra nas c\u00e9lulas: 47 em vez de 46. Sabia tamb\u00e9m que, em cada 700 nascimentos, um beb\u00ea \u00e9 portador da S\u00edndrome de Down.<\/p>\n<p>O que ele nem podia imaginar era a extrema delicadeza e amorosidade dos indiv\u00edduos down. A mo\u00e7a, de 22 anos, chamava-se Maria, estava apaixonada pela vida, pelos bichos e plantas, pelas pessoas que a cercavam, e logo arranjou um lugar em seu cora\u00e7\u00e3ozinho para Jo\u00e3o. Conversaram at\u00e9 anoitecer. Depois ela foi pra casa, morava perto, e ele voltou pra seus soldadinhos de chumbo imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Passaram a encontrar-se regularmente, e a crian\u00e7a que renascia nele ficou encantada por encontrar algu\u00e9m que descobria o mundo com olhos infantis, mirando cada coisa como se a visse pela primeira vez. \u201cNenhuma agressividade, nenhuma viol\u00eancia, nenhuma mal\u00edcia em Maria\u201d, pensou embevecido. \u201cO atraso no desenvolvimento intelectual \u00e9 mais que compensado pela capacidade ampliada de amar\u201d. Por fim, admitiu que amava Maria \u2013 platonicamente, \u00e9 claro, mas amava.<\/p>\n<p>Maria tinha outra opini\u00e3o. Se os fogos de seu amigo de 80 anos estavam quase apagados, os horm\u00f4nios da jovem mulher de 22 anos estavam bem acesos. E a proximidade de Jo\u00e3o intensificava as chamas.<\/p>\n<p>Certa tarde, quando come\u00e7ava a anoitecer, ela beijou o rosto do amigo, perto da boca, e suplicou:<\/p>\n<p>&#8211; Me ensina a beijar!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o d\u00e1, querida. Sou muito mais velho que voc\u00ea!<\/p>\n<p>&#8211; Ensina, vai&#8230; Dei meu \u00fanico beijo com um garoto igual a mim, nenhum de n\u00f3s sabia o que fazer&#8230; \u2013 e riu, mas n\u00e3o o som cristalino emitido por uma crian\u00e7a, havia um tom mais sensual, carregado de desejo, de uma mulher que quer aprender tudo.<\/p>\n<p>O corpo dela exigia. Ele cedeu e a beijou bem de leve nos l\u00e1bios, num toque di\u00e1fano como as asas de uma borboleta.<\/p>\n<p>Ela queria mais, ele come\u00e7ou a querer tamb\u00e9m. O segundo beijo foi mais forte, no terceiro as l\u00ednguas se tocaram, nos seguintes se entrela\u00e7aram. Maria gemeu de prazer.<\/p>\n<p>Nesse momento apareceram os caras. Eram quatro, bombados, ratos de academia, de idades vari\u00e1veis entre 25 e 30 anos. Viram o casal e come\u00e7aram a zoar:<\/p>\n<p>&#8211; Isso, vov\u00f4! Manda vara que tu ainda aguenta!<\/p>\n<p>Um deles percebeu a condi\u00e7\u00e3o de Maria e gritou:<\/p>\n<p>&#8211; O velho tarado t\u00e1 abusando da mongoloide!<\/p>\n<p>Outro, mais grosseiro, entrou em cena:<\/p>\n<p>&#8211; Tu quer comer a retardada, n\u00e9, v\u00e9io tarado? Vai levar muita porrada pra aprender!<\/p>\n<p>Assustada ao escutar a palavra \u201cretardada\u201d, que a feria desde a inf\u00e2ncia, Maria aninhou-se junto ao peito de Jo\u00e3o, como uma avezinha sob a asa da m\u00e3e. Os caras, que queriam posar de her\u00f3is \u2013 e, quem sabe, dar uma trepadinha com a jovem agradecida \u2013 ficaram furiosos.<\/p>\n<p>&#8211; Tava gostando, n\u00e9 vadia? Vai ver o que acontece com teu macho!<\/p>\n<p>Jo\u00e3o empurrou Maria para longe de si, levantou-a do banco e ordenou, r\u00edspido:<\/p>\n<p>&#8211; Corre pra casa!<\/p>\n<p>Enquanto a amiga fugia, Jo\u00e3o levantou-se, com um sorriso de desafio no rosto. Sentia-se prestes a reviver um dos momentos mais gloriosos de sua inf\u00e2ncia, a briga que teve, aos 9 anos, com tr\u00eas garotos de 11-12. Ele apanhou muito, chegou em casa todo machucado, mas por algum tempo castigou os tr\u00eas com uma saraivada de socos.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, aos 82 anos, n\u00e3o deu pra sa\u00edda. Faltavam-lhe m\u00fasculos para bater forte, agilidade para se esquivar. Foi derrubado e barbaramente chutado, repetidas vezes, no peito e na cabe\u00e7a. Depois os carinhas foram embora, deixando-o no ch\u00e3o, \u00e0 beira da morte.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o foi levado para um hospital, mas n\u00e3o resistiu. Quanto a Maria, levou tempo para se encantar outra vez com os bichos e plantas, e mais ainda para olhar as pessoas com um sorriso c\u00e2ndido. E nunca, nunca mais frequentou a pra\u00e7a onde tentara descobrir o amor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o estava crian\u00e7ando. E n\u00e3o era sem tempo. Tinha 80 anos, morava sozinho, estava meio surdo, ficando cego, mas restavam mem\u00f3rias felizes do tempo de inf\u00e2ncia. N\u00e3o teve de fazer muito esfor\u00e7o, foi preciso apenas dar f\u00e9rias ao superego e recuperar o senso de maravilhamento que tinha quando garoto. Dan\u00e7ar na chuva, por exemplo. 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