{"id":375109,"date":"2025-12-21T01:00:10","date_gmt":"2025-12-21T04:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375109"},"modified":"2025-12-16T15:15:48","modified_gmt":"2025-12-16T18:15:48","slug":"fatima-estava-em-paris-ha-dois-meses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fatima-estava-em-paris-ha-dois-meses\/","title":{"rendered":"F\u00e1tima estava em Paris h\u00e1 dois meses"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; A senhorita \u00e9 muito bonita.<\/p>\n<p>Sentada num caf\u00e9 parisiense, absorta na leitura de um romance, F\u00e1tima custou a perceber que algu\u00e9m falava com ela. Tirou os olhos do livro e viu um atraente jovem moreno, de tra\u00e7os \u00e1rabes. E o franc\u00eas dele n\u00e3o deixava d\u00favidas sobre sua origem.<\/p>\n<p>\u201cHum, s\u00edrio ou liban\u00eas. Que nem meus pais. Vai ver, somos primos\u201d, pensou divertida.<\/p>\n<p>F\u00e1tima estava em Paris h\u00e1 dois meses. Ganhara uma bolsa para fazer mestrado em filosofia e partira com tudo. Esperava a chegada do namorado, mas, na verdade, n\u00e3o sentia um pingo de falta dele. Paris continuava a ser uma festa m\u00f3vel, e a mo\u00e7a queria entrar na dan\u00e7a. Estava apaixonada pela cidade e pelos parisienses. Mesmo que tivessem ra\u00edzes no Oriente M\u00e9dio. Que nem ela.<\/p>\n<p>Diante do sil\u00eancio da jovem brasileira, o mo\u00e7o voltou \u00e0 carga.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, muito bonita. Gostaria muito de dormir com a senhorita. Gostaria de dormir comigo?<\/p>\n<p>F\u00e1tima levou um susto com a pergunta direta. Pensou em cham\u00e1-lo de mal educado com seu franc\u00eas impec\u00e1vel \u2013 ou, em bom portugu\u00eas, de mand\u00e1-lo \u00e0 merda \u2013, mas desistiu. Afinal, estudara num col\u00e9gio franc\u00eas, destinado a transformar brasileirinhas em jeunes filles rang\u00e9es, mo\u00e7as bem comportadas. Mo\u00e7as rang\u00e9es n\u00e3o xingam. Em especial aquelas morrendo de vontade de se desarranjar um pouquinho. De ser um tantinho menos comportadas. Era o caso dela.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigada \u2013 respondeu. De s\u00fabito, teve vontade de estabelecer uma cumplicidade cultural com o \u00e1rabe, talvez com isso ele abandonasse as propostas de cunho sexual, perguntasse pelas origens da fam\u00edlia dela, falasse da fam\u00edlia dele, em resumo, estabelecesse uma conversa\u00e7\u00e3o mutuamente enriquecedora. Ent\u00e3o repetiu o agradecimento, primeiro em franc\u00eas e depois em \u00e1rabe, complementando as palavras com um sorriso radiante.<\/p>\n<p>&#8211; Merci beaucoup. Chukra.<\/p>\n<p>Ao ouvir isso, o homem se animou, e desandou a falar em sua l\u00edngua:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea fala \u00e1rabe? Achava que era francesa, mas \u00e9 melhor assim. Sei lidar com f\u00eameas \u00e1rabes. Obedi\u00eancia aos preceitos do Isl\u00e3 e ao homem, \u00e9 tudo o que se espera delas. E, claro, que deem \u00e0 luz muitas crian\u00e7as!<\/p>\n<p>E prosseguiu, dizendo coisas que n\u00e3o combinavam com sua imagem de universit\u00e1rio: era como se incont\u00e1veis gera\u00e7\u00f5es de \u00e1rabes dominadores de suas mulheres, presentes em seus genes, tivessem tomado conta dele. Contou que lhe daria muito prazer na cama, desde que ela se mostrasse uma esposa devota, respeitadora das tradi\u00e7\u00f5es. Porque n\u00e3o a queria apenas como amante, para isso serviam as francesas depravadas. Ela era bonita, de origem \u00e1rabe, seria uma excelente m\u00e3e para seus filhos.<\/p>\n<p>F\u00e1tima escutou tudo aquilo sem entender uma s\u00f3 palavra. Mas, estranhamente, compreendia o que ele estava dizendo. E dentro dela, inumer\u00e1veis gera\u00e7\u00f5es de mulheres submissas que compunham sua heran\u00e7a gen\u00e9tica a pressionavam. \u201cAceite, filha, \u00e9 assim que deve ser, ele \u00e9 o homem, voc\u00ea \u00e9 apenas uma mulher\u201d.<\/p>\n<p>A jovem decidiu-se. Baixou os olhos, pegou a m\u00e3o do homem, beijou-a e levou-a \u00e0 testa. Era a mostra perfeita de submiss\u00e3o. Dentro de seus genes, milhares e milhares de mulheres dominadas pelos maridos rugiram em aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi assim que F\u00e1tima tornou-se uma das esposas de Ahmed (ele tinha mais uma). \u00c9 m\u00e3e de quatro filhos \u2013 o quinto vai nascer em quatro meses \u2013 e vive numa aldeia do L\u00edbano. Trabalha como uma besta de carga, nas planta\u00e7\u00f5es ou cuidando das crian\u00e7as. Livros de filosofia? Nunca mais. Romances franceses? Nunca mais. Beirute \u00e9 chamada de \u201cParis do Oriente M\u00e9dio\u201d, tem sua pr\u00f3pria festa m\u00f3vel, mas F\u00e1tima n\u00e3o est\u00e1 convidada, n\u00e3o passa nem na porta.<\/p>\n<p>A \u00fanica vantagem \u00e9 que Ahmed n\u00e3o a espanca, como acontece a tantas esposas jovens da regi\u00e3o; no m\u00e1ximo, uns tabefes quando ela mostra um comportamento europeizado (na verdade, abrasileirado), alheio \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es locais. S\u00f3 levou uma surra de criar bicho uma vez, na primeira noite, quando ele descobriu que ela n\u00e3o era mais virgem. Hoje, ela considera o castigo merecido. \u201cHomens bons e devotos, que fazem de uma quase meretriz ocidental a m\u00e3e de seus filhos, precisam impor disciplina\u201d, diz sempre para si mesma. Amor? N\u00e3o tem certeza, mas acha que n\u00e3o ama o marido, se \u00e9 que um dia o amou. Em contrapartida, daria a vida pelos filhos.<\/p>\n<p>A outra vantagem \u00e9 que n\u00e3o tem de usar burka, mu\u00e7ulmanas do L\u00edbano n\u00e3o se vestem assim. O pior \u00e9 que sua fam\u00edlia nem era mu\u00e7ulmana, e sim crist\u00e3 ortodoxa, ela teve de se converter, deu uma trabalheira. Ter o rosto descoberto facilita as coisas, ajuda a enxugar as l\u00e1grimas. F\u00e1tima chora todos os dias, nem sabe por qu\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; A senhorita \u00e9 muito bonita. Sentada num caf\u00e9 parisiense, absorta na leitura de um romance, F\u00e1tima custou a perceber que algu\u00e9m falava com ela. Tirou os olhos do livro e viu um atraente jovem moreno, de tra\u00e7os \u00e1rabes. E o franc\u00eas dele n\u00e3o deixava d\u00favidas sobre sua origem. \u201cHum, s\u00edrio ou liban\u00eas. 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