{"id":375113,"date":"2025-12-22T00:30:46","date_gmt":"2025-12-22T03:30:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375113"},"modified":"2025-12-16T15:27:52","modified_gmt":"2025-12-16T18:27:52","slug":"ha-males-que-vem-para-o-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ha-males-que-vem-para-o-mal\/","title":{"rendered":"H\u00e1 males que v\u00eam para o mal"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 males que v\u00eam para o mal. O relatado nesta hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um deles.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1968, aos 21 anos, Lucas integrava uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clandestina que havia optado pela luta armada. Nada de guerrilha urbana; o grupo era mais ortodoxo que freudiano fumando charuto, a ideia era montar um foco no interior do Brasil, segundo o modelo guevarista.<\/p>\n<p>O \u201cintegrava\u201d, no caso de Lucas, talvez fosse excessivo. N\u00e3o que ele tivesse diverg\u00eancias te\u00f3ricas com a organiza\u00e7\u00e3o, da qual era formalmente um dos dirigentes; e tampouco tinha medo de morrer: aos 21 anos, todos se consideram imortais. \u00c9 que estava na maior fossa, em plena sofr\u00eancia por um amor fracassado. Em tais circunst\u00e2ncias, voc\u00ea n\u00e3o quer ir pra serra empunhando um fuzil, voc\u00ea quer ir a um botequim pra ouvir Lupic\u00ednio e tomar um porre.<\/p>\n<p>Seja como for, o ainda militante Lucas foi procurado por um companheiro, um metal\u00fargico chamado Keize (um dos nomes de guerra mais estapaf\u00fardios que o rapaz jamais ouvira):<\/p>\n<p>&#8211; Companheiro Marcelo (era este o codinome de Lucas, bem mais prosaico do que o Keize), estamos organizando um grupo para treinar t\u00e1ticas de guerrilha em Bom Jardim. Voc\u00ea tem carro, se integre ao grupo e ajude no transporte. E \u00e9 bom voc\u00ea dar uma treinadinha, pois come\u00e7aremos a montar o foco em poucos meses!<\/p>\n<p>Lucas\/Marcelo achou estranho que se pensasse num foco na serra fluminense, mas, como seria apenas um treinamento \u2013 e a alternativa seria comparecer \u00e0 faculdade de Direito, que ele detestava \u2013, acabou topando.<\/p>\n<p>No final, subiram a serra apenas tr\u00eas pessoas: Keize, Lucas e um militante que ele n\u00e3o conhecia, um mulato de codinome Chico.<\/p>\n<p>-Vamos ficar na minha m\u00e3e \u2013 informou Chico. Ela trabalha numa fazenda em Bom Jardim.<\/p>\n<p>Logo que chegaram, as vis\u00f5es de Lucas sobre o universo rural come\u00e7aram a ser abaladas. Ele imaginava que seria necess\u00e1rio esconder o seu fusquinha e avan\u00e7ar cautelosamente, \u00e0 noite, para o grupo n\u00e3o ser visto, mas acabou chegando pouco depois do meio-dia e parando bem perto da casa. E o seu n\u00e3o era o \u00fanico carro junto \u00e0s resid\u00eancias dos colonos; ele imaginava um n\u00edvel de pobreza muito maior.<\/p>\n<p>Foram calorosamente recebidos pela m\u00e3e do Chico, uma senhora negra muito simp\u00e1tica. E logo se embrenharam na mata para o treinamento. Portavam um fuzil calibre 22 e duas espingardas calibre 12 de press\u00e3o para ca\u00e7a, que disparavam proj\u00e9teis de chumbo.<\/p>\n<p>Em uma clareira, improvisaram um alvo e come\u00e7aram a atirar. Lucas saiu-se bem.<\/p>\n<p>&#8211; Companheiro, voc\u00ea atira bem pra cacete! Vai conosco para o foco! \u2013 exclamou Chico.<\/p>\n<p>Lucas olhou-o como se o cara tivesse enlouquecido. Escolher um militante pela pontaria?<\/p>\n<p>Keize e Chico tamb\u00e9m tentaram ca\u00e7ar (Lucas ficou s\u00f3 no tiro ao alvo), e um deles acabou derrubando uma ave pouco maior que um pombo, que ficou destro\u00e7ada pelos proj\u00e9teis de chumbo.<\/p>\n<p>Ao regressarem, no cair da noite, levavam apenas os remanescentes da ave. A m\u00e3e do Chico limpou-a da melhor maneira poss\u00edvel, tentou descartar (sem muito sucesso) o chumbo e usou a pouca carne para improvisar um ensopado. Lucas descobriu, ent\u00e3o, outro dado da realidade do campo: sal era artigo de luxo, usado em pouqu\u00edssima quantidade. Ele deu umas tr\u00eas garfadas, para n\u00e3o parecer grosseiro, por\u00e9m mal conseguiu engolir a comida sem sabor. \u201cPreconceito pequeno-burgu\u00eas meu\u201d, pensou. \u201cMas, preconceito ou n\u00e3o, est\u00e1 horr\u00edvel!\u201d<\/p>\n<p>Os tr\u00eas dormiram cedo e, t\u00e3o logo acordaram, tomaram um caf\u00e9 bem ralo e foram para a mata. Desapareceram quaisquer refer\u00eancias a treinamento para a guerrilha. Chico confessou que estava com saudades da m\u00e3e e por isso sugerira a visita \u00e0 fazenda. Lucas o admirou por abrir o jogo, e quase admitiu que n\u00e3o ia para a luta armada nem que a vaca tivesse acessos de tosse. E Keize&#8230;bem, ele estava se divertindo, gastando p\u00f3lvora e muni\u00e7\u00e3o com uma p\u00e9ssima pontaria.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas voltaram mais cedo, de m\u00e3os vazias (azar de Lucas, teria de encarar o ensopado outra vez). Antes do jantar, por\u00e9m, Chico insistiu em mostrar-lhes o alambique da fazenda.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui \u00e9 preparada a melhor cacha\u00e7a de Bom Jardim \u2013 declarou com uma pitada de orgulho.<\/p>\n<p>Se aquela era a melhor cacha\u00e7a da regi\u00e3o, pobres dos consumidores! O l\u00edquido menos destilado, destinado aos colonos, parecia um veneno \u00e0 base de metanol e outros compostos t\u00f3xicos. Lucas, apreciador de aguardentes, virou o seu copo e quase explodiu. L\u00e1grimas cobriram seus olhos, e talvez por isso tenha escapado de ficar cego. Keize n\u00e3o bebeu, pois era um marxista de fam\u00edlia evang\u00e9lica; apenas Chico sobreviveu, aparentemente sem sequelas, \u00e0 dose arrasa-quarteir\u00e3o.<\/p>\n<p>Abalado pela cacha\u00e7a e pela perspectiva de mais ensopado, Lucas sugeriu que fossem para Friburgo, onde seus pais possu\u00edam uma casa. Jantariam num restaurante que ele conhecia e dormiriam na casa de veraneio, para regressarem a Niter\u00f3i no dia seguinte. Conseguiram, com alguma dificuldade, convencer o Chico, despediram-se da m\u00e3e dele, recusaram delicadamente a oferta de um pouco de ensopado \u201cpara a janta\u201d, entraram no carro e, bar\u00f5es assinalados, mas sem armas, foram para Friburgo. \u00c0s 9h15 estavam no restaurante, famintos e tra\u00e7ando tr\u00eas PFs, quando ELA entrou.<\/p>\n<p>Ela era uma das musas da trajet\u00f3ria amorosa de Lucas. Era uma lourinha de olhos azuis, com quem ele flertava descaradamente nos bailes de carnaval em Friburgo. T\u00edmido, ele a seguia com os olhos desde os 14 anos, sem se aproximar. Aos 16 anos (dele) e presum\u00edveis 15 anos (dela), superada a timidez, olhavam-se famintos, como quem olha um prato de comida, mas, por algum motivo, continuaram sem conversar; tudo parecia mais excitante assim. Ele s\u00f3 a via nos bailes de carnaval, nem sabia se a musa foli\u00e3 morava em Friburgo ou no Rio de Janeiro (de Niter\u00f3i ela n\u00e3o era, tinha certeza). Depois descartara os bailinhos em clube, tivera outras namoradas, vivera o grande amor de sua vida, mas jamais esquecera a lourinha misteriosa.<\/p>\n<p>A jovem sem nome entrou no restaurante com uma amiga, reconheceu Lucas, ensaiou um sorriso radiante \u2013 mas, no meio do caminho, mudou de ideia. Os m\u00fasculos da boca primeiro congelaram, depois crisparam-se em um esgar de desgosto. Talvez por Lucas e seus dois companheiros estarem imundos e fedendo devido a dois dias de treinamento guerrilheiro sem banho. Ela comprou um ma\u00e7o de cigarros e saiu sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>E assim terminou o ensaio guerrilheiro de Lucas. Recebera um convite de ir para a guerrilha por sua boa pontaria \u2013 um convite que jamais aceitaria \u2013, n\u00e3o conseguira comer a carne da ave assassinada por seu grupo e quase morrera devido a uma talagada de cacha\u00e7a raiz. E perdera mais um amor: sua segunda desilus\u00e3o sentimental em poucos meses.<\/p>\n<p>Mas, como foi dito no in\u00edcio desta hist\u00f3ria, nem todos os males v\u00eam para mal. T\u00e3o logo chegou a Niter\u00f3i, Lucas mergulhou nos botequins da vida, tratando sua dor de corno com generosas doses de boa cacha\u00e7a e muito Lupic\u00ednio, como devia ter feito desde o in\u00edcio; e tratou de desligar-se da organiza\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as a isso, provavelmente escapou da pris\u00e3o, pois seus companheiros foram todos entregues por um espi\u00e3o infiltrado. E nunca mais viu Keize, Chico ou a musa desdenhosa de lindos olhos azuis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 males que v\u00eam para o mal. O relatado nesta hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um deles. No in\u00edcio de 1968, aos 21 anos, Lucas integrava uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica clandestina que havia optado pela luta armada. 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