{"id":375425,"date":"2025-12-21T00:00:24","date_gmt":"2025-12-21T03:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375425"},"modified":"2025-12-19T00:14:36","modified_gmt":"2025-12-19T03:14:36","slug":"muitas-flores-para-dona-rosita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/muitas-flores-para-dona-rosita\/","title":{"rendered":"Muitas flores para Dona Rosita"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Procuro sol, porque sou bicho de corpo.<br \/>\nSombra terei depois, a mais fria.\u201d<br \/>\nAd\u00e9lia Prado<\/p>\n<p>Dona Rosita, ali\u00e1s, Rosa Maria Menezes Albuquerque Fel\u00edcio ficara vi\u00fava ap\u00f3s os intensos e inesquec\u00edveis anos vividos miudinho com seu marido numa pequena cidade do interior desse mundo de Deus. Anos t\u00e3o bem vividos \u2013 pelas regras de Deus e dos homens &#8211; que lhe garantiram a alegria perene de ter ali plantada uma fam\u00edlia. Como poema desabrochado em gentes. Tinha guardadas na mem\u00f3ria as honrosas benesses desse casamento feliz que s\u00f3. No cotidiano da vidinha que agora imperava seguir, a de mandar as tristezas embora, contava com riqueza maior: as sete filhas frutificadas de tanto amor reunido. Uma escadinha de mulheres queridas a impulsionar o viver com maiores gra\u00e7as e de onde brotariam os netos mais que almejados: meninos e meninas a cirandar alegrias no valsear dos tempos. Contava com esse afeto merecido para prosseguir.<\/p>\n<p>O que Dona Rosita talvez n\u00e3o soubesse de pura raz\u00e3o revelada, a menos que pud\u00e9ssemos averiguar o \u00edntimo da sua intui\u00e7\u00e3o feminina dos seus quase setenta e sete anos de desvelamentos \u00e9 que fora sempre admirada em olhares silenciosos, em palavras esparsas de amizades conterr\u00e2neas ou em rodeios e floreados pelo Seu Oleg\u00e1rio Paranhos da Silveira Munhoz, amigo fiel de seu falecido marido. Desde os bancos escolares at\u00e9 os neg\u00f3cios financeiros que bem correram.<\/p>\n<p>Pois \u00e9. Desde a viuvez instalada, Seu Oleg\u00e1rio, num rasgo de liberdade e sonho, resolvera deixar aflorar seus interesses rec\u00f4nditos, enraizados de amorosidades agora justificados em liberdade e direito. Inquieta, entristecida pela aus\u00eancia do companheiro de tantas esta\u00e7\u00f5es e ventos, ela n\u00e3o aprendera a decifrar o que havia nas entrelinhas daqueles paparicos e galanteios que agora se intensificavam feito ondas procurando praia, se ramificavam feito primaveras por sobre os muros. Escancaravam-se feito cora\u00e7\u00e3o exposto.<\/p>\n<p>Nesses anos de desprendimentos e solid\u00e3o desgarrada, Dona Rosita n\u00e3o tivera a aprendizagem em lidar com a ventura de novo afeto.<\/p>\n<p>Numa dessas tardes em que a conversa ondeava entre ela e o compadre Oleg\u00e1rio, uma perguntinha desprendeu-se do fio costumeiro e vislumbrou-se o que estaria escondidinho feito caro\u00e7o de fruta:<\/p>\n<p>-\u00c9, Rosita, voc\u00ea est\u00e1 sem namorado? Esta hist\u00f3ria de viuvez j\u00e1 est\u00e1 durando muito, voc\u00ea n\u00e3o acha n\u00e3o?<\/p>\n<p>Dona Rosa Maria saiu do prumo. Avermelhou-se com ira divina. Botou sua indigna\u00e7\u00e3o para fora feito roj\u00e3o de quermesse de padroeiro dizendo aos quatro ventos que aquilo n\u00e3o era coisa de se falar&#8230; Ainda mais ele, amigo de tantos tempos! Que ela merecia respeito, que era uma mulher vi\u00fava, que n\u00e3o era dessas coisas&#8230;<\/p>\n<p>Pode-se imaginar as tantas outras frases emboladas e emaranhadas que foi dizendo com veem\u00eancia e firmeza a ponto de ficarem clar\u00edssimas as inten\u00e7\u00f5es do compadre, agora pretendente a noivo. Bem como da n\u00e3o disposi\u00e7\u00e3o da ent\u00e3o pretendente de fazer do antigo sonho a boa realidade.<\/p>\n<p>Fora tudo por \u00e1gua abaixo. Nem namoro, nem amizade. Nem paparicos, nem lisonjerias. N\u00e3o mais. O fato \u00e9 que o Seu Oleg\u00e1rio, como diz o outro, \u201cenfiou sua viola no saco\u201d, deu o maior \u201cch\u00e1 de sumi\u00e7o\u201d, escafedeu-se. S\u00f3 ficara Dona Rosa Maria e sua extremada solid\u00e3o.<\/p>\n<p>E os dias foram assim em correntezas. Nuvens passeavam no azul. O varrer a casa, o molhar as plantas e aquele deserto do\u00eddo ficando mais que a tristeza maior. Em dezembro, o armar \u00e1rvore e pres\u00e9pio com delicadezas fora chocho. Nem a televis\u00e3o, tagarela e profusa de imagens e cores, trazia alguma cor de alma ou algum pulsar de vida como ela queria. Num desses \u00faltimos dias do ver\u00e3o chegando, desliga a tev\u00ea, olha o rel\u00f3gio e a folhinha na parede: s\u00e1bado, seis horas da tarde. Um vestido mais alegre, florido, sai do arm\u00e1rio devagar a ocupar sua fun\u00e7\u00e3o. Mais os sapatos escuros, um colarzinho de contas, um borrifo generoso de col\u00f4nia leve nos pulsos e atr\u00e1s das orelhas. O espelho parecia gostar daquela boa arruma\u00e7\u00e3o. Afinal uma mulher com tanta exist\u00eancia esmerada, dona de seu nariz e mais alguma coisa poderia saborear um bom quitute com o seu compadre fugido em algum lugar de bons servi\u00e7os. Que mal havia?<\/p>\n<p>Foi o que tramou, contrariando aquela solid\u00e3ozinha que teimava morar em seu quarto. Em poucos tempos, seus passos certeiros estavam \u00e0 porta do Seu Oleg\u00e1rio, o escorra\u00e7ado pela dignidade monumental de Dona Rosa Maria, ela mesma. Nem entrou de firmeza. Ficou \u00e0 espera do convidado aparecer com olhos mesclados de j\u00fabilo e orgulho ferido. Mal ele se p\u00f4s \u00e0 frente foi dizendo em voz mansa e s\u00e9ria se o compadre n\u00e3o queria ir com ela no Bar da Pra\u00e7a saborear algum petisco e conversar um pouco. A resposta veio como rel\u00e2mpago que rasga a tempestade dos cora\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 jantei!<\/p>\n<p>Na certa era um viril \u2018n\u00e3o\u2019 disfar\u00e7ando promessas de \u2018sins\u2019. Feito boneca de pano abandonada no melhor da brincadeira, virou-lhe as costas mansamente e foi direto ao bar. O lanche de pernil saboroso e a longa Coca-Cola esvaziavam solid\u00f5es e lembran\u00e7as. E borbulhavam promessas de amanh\u00e3s. Ele ficara com as florinhas mi\u00fadas latejando na retina arrependida.<\/p>\n<p>Quase uma hora depois, jantada e ainda solit\u00e1ria, Dona Rosita assiste da mesa polvilhada de migalhas \u00e0 camionete parada por um instante na pra\u00e7a em frente ao bar. Recebe em r\u00e1pido aceno do seu renegado convidado e mais alguma satisfa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00f4 indo para a igreja!<\/p>\n<p>A missa das sete ficara sem a presen\u00e7a de Dona Rosita naquele s\u00e1bado. Voltara para casa olhando pausado os jardinzinhos das frentes das casas a doarem suas cores aos olhos interessados. E um pouco mais conformada com aquela inquieta solitude.<\/p>\n<p>Numa tarde mais encalorada, quando menos se esperava entregam \u00e0 porta de Dona Rosita a mando de Seu Oleg\u00e1rio, sem bilhete e, sem recado, um saco de milho verde, uma gorda ab\u00f3bora e ainda uma galinha sadia amarrada aos p\u00e9s. Que falavam estes presentes? Arrependimento? Desculpas? Quer\u00eancias?<\/p>\n<p>Em poucos dias e como bem sabia Dona Rosita, do milho fez deliciosas pamonhas envolvidas na palha, mais curau e bolo. E doce de ab\u00f3bora com coco. Mais a galinhada de fazer babar qualquer um.<\/p>\n<p>Todas as suas filhas, s\u00f3 elas foram as convidadas para aquele banquetinho especial. Talvez resposta silenciosas para aquele estranho di\u00e1logo amoroso. Elas, as sete filhas, vieram. Trouxeram muitas flores, das muitas cores para enfeitar aquela nova festa quase natalina. Sentiram os sabores dos preparados e tiveram boas conversas de mem\u00f3rias novinhas em folha.<\/p>\n<p>Enquanto isso era a vez do destino se encarregar de alimentar seus personagens vivos para continuar a linda hist\u00f3ria de amor que mal estava a alinhavar-se.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>O conto MUITAS FLORES PARA DONA ROSITA, de Antonio Gil Neto, \u00e9 um dos oito contos selecionados na V edi\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Arte e Literatura 2025, realizado pelo Programa USP60+ da Pr\u00f3 -Reitoria de Cultura e Extens\u00e3o Universit\u00e1ria da USP. <\/strong><br \/>\n<strong>Al\u00e9m dos contos, foram selecionados outras obras de diferentes categorias de Arte. Todos os selecionados no referido concurso fazem parte de uma exposi\u00e7\u00e3o no Centro Maria Antonia, na rua Maria Antonia, 294, 2\u00ba. andar , Sala1, Vila Buarque, em S\u00e3o Paulo\/ SP. A exposi\u00e7\u00e3o estar\u00e1 aberta ao p\u00fablico at\u00e9 o dia 08\/fevereiro de 2026.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Procuro sol, porque sou bicho de corpo. Sombra terei depois, a mais fria.\u201d Ad\u00e9lia Prado Dona Rosita, ali\u00e1s, Rosa Maria Menezes Albuquerque Fel\u00edcio ficara vi\u00fava ap\u00f3s os intensos e inesquec\u00edveis anos vividos miudinho com seu marido numa pequena cidade do interior desse mundo de Deus. 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