{"id":375512,"date":"2025-12-25T01:00:20","date_gmt":"2025-12-25T04:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375512"},"modified":"2025-12-24T14:21:06","modified_gmt":"2025-12-24T17:21:06","slug":"nada-como-uma-confraternizacao-natalina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nada-como-uma-confraternizacao-natalina\/","title":{"rendered":"Nada como uma confraterniza\u00e7\u00e3o natalina"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o costumo escrever sobre o Natal, talvez porque, quando crian\u00e7a, ficasse trist\u00edssimo ao ouvir o verso \u201ceu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel\u201d, e tudo o que vem depois.<\/p>\n<p>Mas escrevi, sim, um conto natalino. Mando pra voc\u00eas. Boas festas.<\/p>\n<p>O peru do Natal passado<\/p>\n<p>Fui convidado para a ceia de Natal na casa de Marta. Ou melhor, fui intimado a ir e a confraternizar com os presentes, pois, segundo minha filha, ela j\u00e1 estava cansada de me ver ir l\u00e1 s\u00f3 pra comer e ir embora em seguida. Eu deveria chegar \u00e0s 8, mas tenho muitos anos de praia, fiquei vendo <em>Dois papas<\/em> na Neflix e cheguei \u00e0s 9.<\/p>\n<p>Cheguei, vi e quase voltei. Marta estava de bermuda e camiseta, suada, choferando o fog\u00e3o, com um brilho perigoso no olhar. Perguntei timidamente:<\/p>\n<p>&#8211; A ceia n\u00e3o come\u00e7ava \u00e0s 8?<\/p>\n<p>&#8211; T\u00f4 atrasada, a comida n\u00e3o est\u00e1 pronta, ningu\u00e9m me ajuda! \u2013 lastimou-se Marta, com alguma raz\u00e3o. Minha neta adolescente olhou muito interessada para as unhas e o celular, fingindo que n\u00e3o era com ela. Achei mais prudente sair da cozinha e juntar-me aos outros, cada um com sua latinha de cerveja, enchendo os cornos. Era pouca gente: o marido de minha filha, o pai de Leonor, uma amiga de Marta com quem simpatizo, e uma veia. N\u00e3o sou nenhum jovenzinho, mas ela era um tipo ideal weberiano de VPC, veia pra cacete. E, pelo ritmo com que mamava sua latinha de cerveja, logo desabrocharia numa vpcbe, veia pra cacete b\u00eabada esporrenta. Era demais para meu fr\u00e1gil corpinho, dei um tchau r\u00e1pido para a turba, fui \u00e0 cozinha e falei a Marta que voltaria l\u00e1 pelas 10. Ela me olhou feio, mas concordou.<\/p>\n<p>Moro a uns tr\u00eas quarteir\u00f5es de minha filha e logo retomei os Dois papas. As 10 horas chegaram e se foram, mas tenho muitos anos de praia e s\u00f3 voltei chez Marta l\u00e1 pelas 10h20.<\/p>\n<p>A coisa havia melhorado um pouco. Marta continuava de bermudas e suada, mas visivelmente mais calma, pois a ceia estava quase pronta. Leonor havia chegado e estava sendo monopolizada por minha filha. As duas estavam \u00e0s voltas com um peru que Leonor trouxera e que ocupava o forno. Sentei-me num canto estrat\u00e9gico e fiquei vendo a bancada da cerveja encher o caneco, enquanto bebericava minha Coca-Cola.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, o pai da Leonor falou que a filha havia assinado a Netflix, que a seu ver n\u00e3o passava de um \u201cinstrumento do imperialismo ianque\u201d.<\/p>\n<p>Ora, eu havia interrompido <em>Dois papas<\/em> para ir naquela bosta de ceia. Subi nos tamancos e falei que discordava, que voc\u00ea encontrava praticamente tudo na Netflix, dos cl\u00e1ssicos do cinema aos \u00faltimos lan\u00e7amentos em filmes e s\u00e9ries. Louvei <em>Dois papas, Orange is the New Black, Breaking Bad<\/em> e por a\u00ed fui, com o freio nos dentes.<\/p>\n<p>O marido de minha filha concordou comigo (ou falou que concordava, pra me puxar o saco). O pai da Leonor ficou meio desconcertado, pois esperava aplausos por sua profiss\u00e3o de f\u00e9 anti-imperialista. A conversa, at\u00e9 ent\u00e3o inexistente, se generalizou, explorando at\u00e9 a exaust\u00e3o o tema s\u00e9ries de TV. E a veia continuou a encher os chifres de cerveja, em sil\u00eancio, dedicada a seu processo de embebedamento amplo, geral e irrestrito.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas 11h40, depois de Marta ter tomado banho e posto uma roup\u00edcia de festa, perguntei quando ela pretendia abrir o vinho. Afinal, havia sobre a mesa duas garrafas de <em>cabernet<\/em> chileno, que pelo cheiro da brilhantina (deixei de ser conhecedor h\u00e1 mais de 20 anos) me pareciam de uma qualidade razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Minha filha sorriu \u2013 o primeiro sorriso que me dirigiu naquela noite \u2013 e abriu uma garrafa. Coloquei um pouquinho no copo, provei e comentei:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 mau.<\/p>\n<p>P\u00e9ssima escolha de palavras! <em>C\u2019est pas mal<\/em> \u00e9 o que se diz na Fran\u00e7a, quando se saboreia um vinho \u201chonesto\u201d, bom, mas sem pretens\u00f5es a uma safra de primeira linha. Marta explodiu:<\/p>\n<p>&#8211; Porra, pai! Pedi indica\u00e7\u00e3o ao sommelier da se\u00e7\u00e3o de importados sobre o melhor vinho chileno nessa faixa de pre\u00e7os, e voc\u00ea diz simplesmente que n\u00e3o \u00e9 mau? \u2013 E engatou a lam\u00faria habitual \u2013 O senhor nunca me d\u00e1 for\u00e7a, nada do que fa\u00e7o est\u00e1 bom para o senhor&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei parada\u00e7o e me sentindo culpado sem haver motivo algum para isso; afinal, tudo o que ela fizera fora entrar na se\u00e7\u00e3o de vinhos importados do supermercado, consultar o soi disant especialista, pegar as duas garrafas e pagar. De repente me deu um arrepio de preocupa\u00e7\u00e3o, enquanto pensava: \u201cSe a comida da ceia n\u00e3o estiver maravilhosa, vai dar bosta&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>E deu mesmo. Marta havia feito um de meus pratos favoritos, um belo camar\u00e3o na moranga. Mas o peru ocupava o forno, e a moranga n\u00e3o podia ficar muito tempo no micro-ondas porque perigava derreter, ent\u00e3o meu prato estava morno. Fui, mais uma vez timidamente, pedir a minha filha que o esquentasse. Ela me fulminou com os olhos, mas esquentou. Comi, c\u2019\u00e9tait pas mal, mas n\u00e3o falei nada, havia aprendido a li\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o veio o peru, obra-prima de Leonor, com a participa\u00e7\u00e3o especial de Marta e do forno do fog\u00e3o. Estava uma del\u00edcia, o vinho tinto o acompanhava bem. A nobre miss\u00e3o de esvaziar a garrafa coube a Marta, Leonor e a mim, pois a bancada da cerveja j\u00e1 estava encornada demais para mudar de veneno. Eu j\u00e1 havia entornado quase meio litro de cabernet, quando cometi a imprud\u00eancia de me dirigir a Leonor:<\/p>\n<p>&#8211; Parab\u00e9ns, mo\u00e7a, o peru est\u00e1 uma del\u00edcia!<\/p>\n<p>P\u00e9ssima escolha de interlocutora! Eu n\u00e3o havia elogiado o camar\u00e3o na moranga, prato estrelado por Marta, e sim o peru de Leonor (no bom sentido da palavra), no qual minha filha fora coadjuvante. Eu havia cometido o crime de lesa-majestade do talento culin\u00e1rio de minha filhota.<\/p>\n<p>Um dos \u00faltimos incidentes da ceia foi a troca de cumprimentos e de votos de Feliz Natal entre os participantes. Apertei as m\u00e3os de marido da Marta e do pai da Leonor, troquei beijinhos com Marta, Leonor e minha neta&#8230; e ent\u00e3o a veia veio cambaleando na minha dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cSe essa desgra\u00e7a tentar me beijar vai levar uma porrada\u201d, pensei, mas o tribufu me estendeu a m\u00e3o direita enquanto segurava forte com a esquerda sua en\u00e9sima latinha de cerveja, quem sabe temerosa que eu a roubasse.<\/p>\n<p>Finalmente, l\u00e1 pela 1h15 da madrugada, me despedi de minha filha. Ela me beijou \u2013 e aproveitou para rosnar baixinho no meu ouvido:<\/p>\n<p>&#8211; Gosta de peru, n\u00e9, pai? Pois enfia ele onde o sol n\u00e3o bate!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o costumo escrever sobre o Natal, talvez porque, quando crian\u00e7a, ficasse trist\u00edssimo ao ouvir o verso \u201ceu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel\u201d, e tudo o que vem depois. Mas escrevi, sim, um conto natalino. Mando pra voc\u00eas. 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