{"id":375829,"date":"2025-12-23T00:00:33","date_gmt":"2025-12-23T03:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375829"},"modified":"2025-12-22T02:25:41","modified_gmt":"2025-12-22T05:25:41","slug":"miles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/miles\/","title":{"rendered":"Miles"},"content":{"rendered":"<p>Miles acordou fren\u00e9tico. Tinha vindo de outro mundo onde s\u00f3 se suspirava e ouvia jazz em cantos obscurecidos de bares nocturnos esclarecidos.<\/p>\n<p>Foi como se tudo fosse\u2026 Uma cont\u00ednua espiral de criatividade que n\u00e3o tinha fim no seu pensamento, cores, sons, misturados com doces, mulheres bonitas e um sol de Ver\u00e3o esplendoroso bem l\u00e1 em cima do profundo c\u00e9u azul.<\/p>\n<p>Olhou da janela do seu apartamento, em High Tower 51, num nono andar em Flashing Street na cidade de Babel junto \u00e0 parte pobre.\u00a0Olhou da janela e viu subitamente nas ruas um espect\u00e1culo inomin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Teria sido talvez de sonhar demais ou do ch\u00e1 estranho que bebera mas vira, literalmente, vira, milhares de formigas correndo nas ruas apressadas indo bem depressa para todo o lado em busca de alimento.\u00a0Algumas eram de uma for\u00e7a desmedida, levavam carros enormes e luxuosos nas suas mand\u00edbulas e subiam sobre as formigas mais pequenas que andavam em pequenos c\u00edrculos fugindo delas.\u00a0Outras agarravam em grandes quantidades de ouro e corriam para os montes construindo novos formigueiros enxameados de fi\u00e9is formigas vermelhas, robustas, que guardavam o local com olhar amea\u00e7ador mexendo as suas pequenas antenas em busca de intrusos.<\/p>\n<p>Miles, esfregou os olhos, um odor a sonho transido como um fogo quente interior fizera o seu cora\u00e7\u00e3o palpitar mais, mais, mais como se fosse explodir fervendo subitamente de insatisfa\u00e7\u00e3o.\u00a0E entrou numa doce como\u00e7\u00e3o.\u00a0Pegou no telefone e telefonou a Marta, sua companheira de quarto que andara fugida em Espanha em busca de paz e isolamento num retiro em Buitre, na Andaluzia des\u00e9rtica.<\/p>\n<p>Sim, Marta? Ol\u00e1, como est\u00e1s? Sim, sim, est\u00e1 tudo bem por aqui. Tive um estranho sonho. Sim. Contigo e as festas do costume. Mas, mas, houve algo que n\u00e3o sei definir, uma esp\u00e9cie de\u2026 Sim, vi formigas na rua, alvoro\u00e7adas, a correr, algumas desempregadas, a correr, despeda\u00e7ando-se umas \u00e0s outras em busca de alimento. Sim, sim, foi real. N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o estou no centro comercial, estou em casa, sim, parei de beber ch\u00e1 desde que foste embora para esse retiro. Buitre \u00e9 um nome significativo. Achas que \u00e9 um sinal? Talvez o governo. N\u00e3o sei. Est\u00e1s a ser bem tratada pelas chicas? No muchachos si? Tenho saudades tuas. De corrermos nus nas ruas \u00e0 noite. De\u2026 Hei, que v\u00eas por a\u00ed? Aves de rapina circulando em redor bem no alto junto \u00e0 estrada\u2026 Po\u00e9tico. Andas a sonhar com o governo outra vez? Est\u00e1 tranquila, Buitre vai-te fazer bem, alguma paz e isolamento \u00e9 o que precisas, tamb\u00e9m eu, mesmo aqui imerso neste apartamento penso em ti Marta, a toda a hora, olha, o rel\u00f3gio da sala, o rel\u00f3gio da sala parou\u2026 Estou, estou? Desligou\u2026<\/p>\n<p>Miles sentia-se estranho como que vivendo num enorme cubo de vidro que o impedia de sentir o mundo, de tocar o mundo, de sorver o mundo.\u00a0Estava s\u00f3.\u00a0S\u00f3, ouvindo o jazz melanc\u00f3lico que um amigo lhe emprestou em vinil.<\/p>\n<p>O disco rodava e rodava e os sons eram sucessivas explos\u00f5es de ondas de mar, de ventos selvagens gritando, de hordas de homens e mulheres fazendo amor algures numa ilha em Zanzibar ou a\u00e7afr\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o!<\/p>\n<p>Colocou a m\u00e3o na cara para ver se ainda ali estava.\u00a0Voltou \u00e0 janela para ver atrav\u00e9s do vidro.<\/p>\n<p>Milhares de formigas, em \u00eaxtase fren\u00e9tico de sobreviver, correndo e subindo umas pelas outras, subindo pelos pr\u00e9dios alt\u00edssimos onde formigas gigantes usavam telefones e davam ordens em berros alt\u00edssimos, outras nervosas e em c\u00edrculos estavam gritando e protestando nas ruas de antenas vermelhas remexendo-se obsessivas e raivosas junto a um jardim onde morava a rainha, gorda e doce, uma velhinha de ar calmo, abanando levemente o abd\u00f3men e depositando ovos brancos que formigas zelosas pegavam nas suas pequenas antenas e distribu\u00edam em s\u00edtios estrat\u00e9gicos pelo formigueiro inteiro, para que pudessem ajudar a miss\u00e3o da rainha de reinar em tranquilidade, paz e prosperidade.<\/p>\n<p>Miles virou a cara da janela horrorizado e olhou o interior do seu apartamento.<\/p>\n<p>Livros colocados nas estantes, alguns t\u00edtulos de autores sonantes, viajantes no tempo como ele registando as suas viagens em pequenas letras para ler e enriquecer, em voragens sucessivas nas tardes quentes onde n\u00e3o havia mais nada a fazer a n\u00e3o ser\u2026 tudo ler.<\/p>\n<p>Miles fez ent\u00e3o uma nova analogia, ler um livro e ler o mundo ao mesmo tempo, sem pensar em nada, que estranho seria\u2026<\/p>\n<p>Quando acabava de ler um livro, o \u00faltimo fora sobre Jean Luc-Godard e a desconstru\u00e7\u00e3o da imagem, teve a sensa\u00e7\u00e3o de que ele tamb\u00e9m era uma imagem dentro de uma imagem maior que era o mundo inteiro no seu interior num sol imenso sempre a viver.<\/p>\n<p>Confuso n\u00e3o era?<\/p>\n<p>Estranho talvez.<\/p>\n<p>Ler o mundo era viver tudo, ler os livros todos seria conhecer apenas uma parte da biblioteca infinita que \u00e9 a mente correndo aflita em busca de conhecimento que a console num vasto universo que lentamente, como uma cobra enroscada em si mesma, lentamente o engole e assim continua indefinidamente como um sonho que se arrasta livremente.<\/p>\n<p>Miles pensou noutra coisa diferente, ligar a televis\u00e3o, ser como toda a gente.\u00a0Num zapping indiferente atravessou os cinco continentes e bocejou.<\/p>\n<p>Quem me sou, quem me sou?<\/p>\n<p>O telefone toca de repente e acorda-o de um sono esfoliante.<\/p>\n<p>Marta? Sim. Sim. Como foi? Viste o qu\u00ea? O teu pr\u00f3prio fim? Sem mim Marta? Sem mim? Como foste capaz? Como foste capaz?&#8230;<\/p>\n<p>Miles deixa o telefone ligado, parado como um insecto de pl\u00e1stico, gritava Marta do outro lado, Miles, Miles, Miles\u2026<\/p>\n<p>Away\u2026<\/p>\n<p>Miles saiu do apartamento.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 uma formiga normal, um burocrata numa c\u00e2mara municipal, pontual, dedicado, zeloso do seu posto no formigueiro, tem o retracto da rainha no seu quarto, ouve mal dizem, talvez do excesso de televis\u00e3o e das discuss\u00f5es com a sua terceira mulher e os seus nove filhos, todos formigas zelosas e laboriosas, vive num apartamento maior em Herd Street, \u00e9 feliz, esqueceu de viver.<\/p>\n<p>Miles acordou fren\u00e9tico um dia.<\/p>\n<p>Que sonho mau fora aquele que o trouxera para ali, para aquela vida dentro do formigueiro?<\/p>\n<p>E uma suave m\u00fasica o conduziu, num transe que o suave sol o induziu, para dentro de um novo sonho onde subitamente a realidade partiu.\u00a0E ficou o disco de vinil a girar e a girar, a girar indefinidamente\u2026<\/p>\n<p>E Miles subiu ficando s\u00f3 em corpo presente.\u00a0Vive agora atr\u00e1s do sol no para\u00edso da universal mente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miles acordou fren\u00e9tico. 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