{"id":375986,"date":"2025-12-24T01:15:44","date_gmt":"2025-12-24T04:15:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375986"},"modified":"2025-12-23T14:47:36","modified_gmt":"2025-12-23T17:47:36","slug":"sobre-afeto-cobrancas-familiares-e-a-coragem-silenciosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sobre-afeto-cobrancas-familiares-e-a-coragem-silenciosa\/","title":{"rendered":"Sobre afeto, cobran\u00e7as familiares e a coragem silenciosa"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 era dezembro quando Paula percebeu que o Natal se aproximava. Para as \u00e9pocas festivas, tinha duas op\u00e7\u00f5es de escolha: comemorava junto de seus familiares, ou assumiria uma guerra com eles. Pensar na segunda op\u00e7\u00e3o a deixava sem energia.<\/p>\n<p>Ela amava sua fam\u00edlia, eram unidos e gostavam de estar juntos sempre que podiam.\u00a0 Por\u00e9m, havia muitas cobran\u00e7as de ser mais presente. Por estar na meia idade, ser solteira e n\u00e3o ter constitu\u00eddo fam\u00edlia, constantemente Paula percebia ser vista como se fosse uma coitada solteirona que precisava, em todas as ocasi\u00f5es, estar junto dos pais, dos irm\u00e3os e sobrinhos.<\/p>\n<p>Nos anivers\u00e1rios, \u00e9pocas festivas e at\u00e9 finais de semana, era lembrada de suas obriga\u00e7\u00f5es. \u201cVoc\u00ea tem que vir!\u201d, \u201cAh, vai ficar sozinha em casa, por qu\u00ea?\u201d, \u201cVem pra c\u00e1!\u201d Paula dava muito valor ao carinho de sua fam\u00edlia, mas sentia-se sufocada com tanto controle e, muitas vezes, cr\u00edticas disfar\u00e7adas de preocupa\u00e7\u00e3o. \u201cMorar sozinha \u00e9 desperd\u00edcio, olha a casa enorme dos nossos pais\u201d. \u201cVoc\u00ea est\u00e1 h\u00e1 meses se encontrando com esse rapaz e diz que n\u00e3o \u00e9 namorado? Isso n\u00e3o entra na minha cabe\u00e7a, cuidado com esse rapaz, est\u00e1 usando voc\u00ea\u201d.<\/p>\n<p>Por mais que explicasse \u00e0 fam\u00edlia que todo adulto precisa de espa\u00e7o pr\u00f3prio, e que com ela n\u00e3o era diferente, era dif\u00edcil para eles n\u00e3o ultrapassarem seus limites e entenderem que Paula era realizada com a vida que escolhera viver.<\/p>\n<p>No \u00faltimo encontro com sua fam\u00edlia, um almo\u00e7o de anivers\u00e1rio, os risos, conversas e comilan\u00e7as eram de preencher o ambiente de alegria. T\u00e3o dif\u00edcil reunir todo mundo, tanta conversa boa para ter e tanto o que nos atualizarmos uns dos outros: projetos futuros, conquistas, um filme que assistimos&#8230;, mas a conversa preferida, sempre puxada pelos mesmos personagens transvestidas de brincadeira, era o inocente \u201cE a\u00ed Paulinha, quando vai trazer o novo namorado pra gente conhecer?\u201d N\u00e3o era a pergunta em si que a abalava, mas vir na frente de todos, sem ningu\u00e9m cortar a situa\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, ainda estimulavam com risadas. Situa\u00e7\u00f5es assim faziam-na ter vontade de ir embora.\u00a0 N\u00e3o gostaria de precisar justificar sua vida, tampouco ficar autoafirmando que est\u00e1 bem, se est\u00e1 saindo com algu\u00e9m ou n\u00e3o, se namorava ou n\u00e3o, pois eram situa\u00e7\u00f5es que s\u00f3 diziam respeito a ela.<\/p>\n<p>Para sua fam\u00edlia, infelizmente, seu valor e sua felicidade est\u00e3o atrelados a ter companhia. N\u00e3o basta ter independ\u00eancia, seguir minha vida da maneira que quero, tenho que ouvir minha m\u00e3e dizendo que reza para que eu encontre \u201cum bom homem\u201d.<\/p>\n<p>Paula flerta com a possibilidade de, em algum Natal, comprar uma passagem e viajar para um lugar qualquer. Longe das press\u00f5es, conversinhas e cr\u00edticas disfar\u00e7adas de preocupa\u00e7\u00e3o. Sabe que precisa lidar com essas situa\u00e7\u00f5es, toda fam\u00edlia tem suas pe\u00e7as e precisamos saber ceder, mas quando a paci\u00eancia e jogo de cintura v\u00eam sempre do mesmo lado, a balan\u00e7a desequilibra.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria nada ruim visitar um destino bonito, tomar um bom caf\u00e9 da manh\u00e3 em um local desconhecido, tomar vinho vendo TV at\u00e9 tarde, paquerar em alguma praia, enfim, escolher um Natal diferente, fora de seus costumes habituais, mas iluminado, leve e feliz \u00e0 sua maneira.<\/p>\n<p>Para Paula, essas belas fantasias n\u00e3o cabiam em sua vida real, n\u00e3o teria coragem de desagradar sua fam\u00edlia dessa forma, afinal s\u00e3o t\u00e3o presentes e preocupados. Os encontros familiares eram responsabilidades que pareciam um acordo silencioso. N\u00e3o via sa\u00edda, engolir sapos e lidar com coment\u00e1rios sem no\u00e7\u00e3o eram pequenas desilus\u00f5es, mas era um fardo que precisava carregar, afinal tinha tamb\u00e9m seus bons momentos.<\/p>\n<p>Chegando o Natal, a fam\u00edlia, como sempre, unida e alegre por estarem juntos. Durante o delicioso jantar e a troca de presentes, come\u00e7aram os costumeiros coment\u00e1rios da fam\u00edlia. Dessa vez, por\u00e9m, as conversas sobre o \u201cpeguete\u201d de Paula sa\u00edram dos holofotes. O estranho no ninho da vez foi seu sobrinho, rapaz de 23 anos que n\u00e3o passou esse Natal com eles. Juntou com a namorada e uns amigos e alugaram uma casa no Nordeste para passarem as festas, fizeram as malas e pegaram a estrada. Os pais, chateados com a decis\u00e3o do garoto que n\u00e3o pediu para ir e apenas comunicou, n\u00e3o puderam fazer nada al\u00e9m de espernear. Segundo contaram, o rapaz jogara na cara: \u201csou adulto, trabalho e estou me preparando para ter minha vida em breve. Posso passar o final de ano da maneira que eu quiser, se voc\u00eas acham que amo menos voc\u00eas por isso, sinto muito, mas n\u00e3o vou cair nessa chantagem\u201d. \u201cEle sabia que n\u00e3o concordar\u00edamos e s\u00f3 avisou perto da viagem, para n\u00e3o termos chance de reverter, planejou tudo sem nos perguntar\u201d.<\/p>\n<p>Naquela noite, Paula sentiu-se iluminada pela coragem de seu sobrinho. Enquanto seu irm\u00e3o e esposa, consternados, continuavam a relatar o ocorrido, Paula pensava: \u201cMeu sobrinho, voc\u00ea cresceu! Que orgulho! Voc\u00ea fez o que a vida inteira sua tia, covarde, para n\u00e3o desagradar ningu\u00e9m, n\u00e3o teve coragem de fazer.\u00a0 Seu ensinamento foi meu presente de Natal!\u201d<\/p>\n<p>Ali, celebrando em fam\u00edlia, Paula decidiu que no pr\u00f3ximo Natal, faria diferente, criando coragem para tirar seus sonhos do fundo da gaveta. Seu sobrinho j\u00e1 abriu o caminho e, inspirada nele, faria o mesmo. Sentada no sof\u00e1, apreciava as luzes de Natal e as sombras de seu cora\u00e7\u00e3o se dissipavam. O amor n\u00e3o floresce somente dentro da fam\u00edlia, e o Natal tamb\u00e9m pode ser um tempo para celebrar quem somos e desenvolver a coragem para o que desejamos ser.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fabiana Saka (@fabianasaka), escritora e psic\u00f3loga cl\u00ednica no Rio de Janeiro, \u00e9 autora de \u201cAs Aventuras de Daniel \u2013 n\u00e3o tenha medo de si mesmo\u201d (Ed. Ases da Literatura, 2024).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 era dezembro quando Paula percebeu que o Natal se aproximava. Para as \u00e9pocas festivas, tinha duas op\u00e7\u00f5es de escolha: comemorava junto de seus familiares, ou assumiria uma guerra com eles. Pensar na segunda op\u00e7\u00e3o a deixava sem energia. 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