{"id":375998,"date":"2025-12-24T00:00:42","date_gmt":"2025-12-24T03:00:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=375998"},"modified":"2025-12-23T16:40:33","modified_gmt":"2025-12-23T19:40:33","slug":"cenas-perfeitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cenas-perfeitas\/","title":{"rendered":"CENAS PERFEITAS"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;[&#8230;] a pr\u00f3xima? Qual \u00e9 a pr\u00f3xima? \u2013 pergunta a jovem Niko ao tio Hirayama.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 a pr\u00f3xima, Niko. O que importa \u00e9 AGORA, AGORA!&#8221; \u2013 responde o tio e os dois seguem singrando suas bicicletas pelo final de tarde sobre um viaduto de T\u00f3quio.<\/p>\n<p>CENA 1<\/p>\n<p>Na noite anterior Z\u00e9ca chorou assistindo a Netflix.<\/p>\n<p>Viu e reviu um filme capaz de transformar a sua vida para sempre.<\/p>\n<p>O Filme tocou fundo a sua restante alma: &#8220;Dias Perfeitos&#8221;, do diretor alem\u00e3o Win Wenders.<\/p>\n<p>Na fita, um homem limpa banheiros p\u00fablicos nas ruas de T\u00f3quio e repete a sua rotina todos os dias.<\/p>\n<p>A narrativa \u00e9 lenta, planos sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>E tira fotos anal\u00f3gicas do balan\u00e7ar das folhas das \u00e1rvores em contraste com a luz do Sol.<\/p>\n<p>Observa as pessoas em seus ritmos cotidianos.<\/p>\n<p>E tudo parece ordin\u00e1rio, meio banal.<\/p>\n<p>Nos finais de semana leva a roupa para lavar.<\/p>\n<p>Anda de bicicleta e tira fotos.<\/p>\n<p>Depois, na pequena casa em que vive, escolhe umas e rasga outras.<\/p>\n<p>Tempos e cenas perfeitas.<\/p>\n<p>Instantes que marcam a vida do homem \u2013 e as nossas.<\/p>\n<p>T\u00f3quio \u00e9 uma cidade h\u00edbrida.<\/p>\n<p>O passado e o futuro habitam ali.<\/p>\n<p>Para o sr. Hirayama o que h\u00e1 \u00e9 o habita o presente, o agora.<\/p>\n<p>CENA 2<\/p>\n<p>A trilha sonora do filme \u00e9 especial. Can\u00e7\u00f5es dos 70, 80 ouvidas na Van todas as manh\u00e3s enquanto segue para a limpeza detalhada dos banheiros p\u00fablicos de T\u00f3quio.<\/p>\n<p>Pat Smith, Lou Red, can\u00e7\u00f5es quase despercebidas l\u00e1 dos anos 70 e 80, mas que marcam um tempo exato no aqui e agora.<\/p>\n<p>Todos os dias, o acordar ap\u00f3s os sonhos com o mesmo tema de luz e sombra no balan\u00e7ar das folhas das \u00e1rvores. Escovar os dentes e aparar o pequeno bigode mecanicamente. Olhar as \u00e1rvores; pegar um caf\u00e9 na m\u00e1quina na garagem e encarar os banheiros.<\/p>\n<p>CENA 3<\/p>\n<p>O filme segue e a vida pessoal do sr. Hirayama vai surgindo.<\/p>\n<p>De fato, ao cabo e profundo: o filme termina sem nenhuma conclus\u00e3o aparente. Apenas a m\u00fasica de Pat Smith e um plano m\u00e9dia atrav\u00e9s do para-brisa que vai fechando no rosto do sr. Hirayama sorrindo enquanto dirige o seu furg\u00e3o de volta para a pequena ap\u00f3s mais um dia.<\/p>\n<p>CENA 4<\/p>\n<p>Zeca agora caminha pela praia entre o mar e o rio da Madre. Entra num Boteca nativo de pescadores. Bebe o mesmo drink de sempre, gin t\u00f4nica. A cena marcante do filme de Wender n\u00e3o lhe sai da cabe\u00e7a: a gar\u00e7onete amiga \u2013 vestindo um quimono tradicional \u2013 atende ao pedido de um an\u00f4nimo fregu\u00eas na mesa ao fundo j\u00e1 meio cheio de saqu\u00ea e canta triste e solenemente &#8220;A Casa do Sol Nascente&#8221;, em japon\u00eas. O sr. Hirayama apenas observa e sorri levemente.<\/p>\n<p>Zeca bebe o &#8220;rabo de galo e a cerveja gordinha&#8221; como se fosse o mesmo ritual.<\/p>\n<p>J\u00e1 noite, Zeca segue \u00e0 p\u00e9 pela velha estrada d Guarda do Emba\u00fa e dorme o sono dos deuses.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte ele acordou, escovou os dentes, aparou o pequeno bigode e seguiu para outra dia de andan\u00e7as e observa\u00e7\u00f5es. Lembrou-se do momento do filme em que o &#8220;tio&#8221; com a sobrinha adolescente, Niko, seguem brincando e cantando sobre suas bicicletas:<\/p>\n<p>&#8220;A pr\u00f3xima&#8230; A pr\u00f3xima&#8230; Agora&#8230; Agora&#8221;<\/p>\n<p>E foi ent\u00e3o que Zeca entendeu:<\/p>\n<p>&#8220;Somos todos o sr. Hirayama&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>*Foto de Tasso Scherer &#8211; Florian\u00f3polis SC.<\/strong><br \/>\n<strong>**Ver resenha cr\u00edtica do filme: Dias perfeitos \u2013 o peso do ordin\u00e1rio e a po\u00e9tica do banal.<\/strong><br \/>\n<strong><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/dias-perfeitos-o-peso-do-ordinario\/\">Dias perfeitos \u2013 o peso do ordin\u00e1rio.<\/a><\/strong><br \/>\n<strong>*** Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista, professor\/pesquisador que ama o cinema de cenas perfeitas, sons infinitos, mas n\u00e3o fala nada de japon\u00eas. Vive na Guarda do Emba\u00fa, pequena vila de pescadores e turistas no litoral Sul de SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;[&#8230;] a pr\u00f3xima? Qual \u00e9 a pr\u00f3xima? \u2013 pergunta a jovem Niko ao tio Hirayama. &#8220;\u00c9 a pr\u00f3xima, Niko. 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