{"id":376282,"date":"2025-12-26T00:15:18","date_gmt":"2025-12-26T03:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376282"},"modified":"2025-12-25T09:55:47","modified_gmt":"2025-12-25T12:55:47","slug":"a-mario-quintana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mario-quintana\/","title":{"rendered":"A M\u00e1rio Quintana"},"content":{"rendered":"<p>Gente, tenho medo de estar cometendo um pl\u00e1gio involunt\u00e1rio. Acho imposs\u00edvel que algum fio de uma \u00e9gua j\u00e1 n\u00e3o tenha explorado o tema. Seja como for, vamos em frente.<\/p>\n<p>Porto Alegre, final de 1973. O poeta caminhava absorto, enquanto a noite ca\u00eda. Sua mente vagueava a esmo, em ziguezagues \u2013 era uma especialidade sua \u2013, at\u00e9 se fixar no seu pobre Gr\u00eamio, coitadinho.<\/p>\n<p>\u201cBah. Desde 1969 os colorados ganham um gauch\u00e3o ap\u00f3s o outro. J\u00e1 s\u00e3o cinco campeonatos seguidos&#8230; Espero que, em 1974, seja a nossa vez!\u201d<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o podia saber, mas o Internacional seria octacampe\u00e3o ga\u00facho; somente em 1977 a metade azul do estado conseguiu estampar um sorriso no rosto.<\/p>\n<p>Pensou em procurar seu amigo Lupic\u00ednio Rodrigues para, juntos, lastimarem mais uma derrota gremista, mas desistiu. Era cedo para fazer a ronda dos botequins at\u00e9 encontr\u00e1-lo e, al\u00e9m do mais, soubera que Lupi n\u00e3o estava muito bem de sa\u00fade. Mas isso o fez recordar amigos e marcos de sua vida em Porto Alegre, onde chegara em 1918, aos 13 anos, vindo de sua Alegrete natal.<\/p>\n<p>\u201cUm absurdo me colocarem no Col\u00e9gio Militar. Mas foi no jornal do estabelecimento que, adolescente cheio de espinhas, publiquei minhas primeiras produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias.\u201d<\/p>\n<p>O ziguezague seguinte o fez pensar na Porto Alegre da d\u00e9cada de 1940, ano em que publicou seu primeiro livro, A rua dos cataventos. Era uma cidadezinha provinciana, mas, por isso mesmo, ideal para garimpar, sem pressa, amizades para a vida toda. Amizades como a de Erico Verissimo, o grande nome das letras ga\u00fachas; e a de Henrique Bertazo, respons\u00e1vel pela pol\u00edtica editorial da Editora do Globo, que publicava todos os seus livros.<\/p>\n<p>\u201cE que me deu a oportunidade de traduzir Marcel Proust e outros luminares da literatura mundial\u201d, complementou.<\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o o fez refletir sobre sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria enquanto poeta.<\/p>\n<p>\u201cMeus textos est\u00e3o cada vez mais simples, mais concisos\u201d, admitiu. \u201cAcho que tamb\u00e9m me tornei uma pessoa mais simples, mais direta que o autor de A rua dos cataventos\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, evocou a magn\u00edfica estrofe inicial do soneto que deu nome a seu livro de estreia:<\/p>\n<p>\u201cDa vez primeira em que me assassinaram,\/Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.\/Depois, a cada vez que me mataram,\/Foram levando qualquer coisa minha.\u201d<\/p>\n<p>Disse para si mesmo, em voz alta:<\/p>\n<p>&#8211; Gosto desses versos. Hoje, os publicaria como um poemeto de quatro linhas. Mas bah, o in\u00edcio da \u00faltima estrofe&#8230;<\/p>\n<p>E recitou: \u201cAves da noite! Asas do horror! Voejai!\u201d<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isso a\u00ed \u2013 reconheceu, com um ensaio de sorriso. \u2013 Aves da noite voejam, avezinhas voam, t\u00e3o graciosas, e passarinhos&#8230; bem, passarinhos passarinham.<\/p>\n<p>O sorriso abriu-se e o poeta declamou seu Poeminho do contra, que estava nas p\u00e1ginas do Caderno H, rec\u00e9m-publicado pela Editora do Globo:<\/p>\n<p>\u201cTodos esses que a\u00ed est\u00e3o\/Atravancando meu caminho,\/<\/p>\n<p>Eles passar\u00e3o&#8230;\/Eu passarinho!\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Hora de passarinhar! \u2013 exclamou.<\/p>\n<p>E, transformando-se at\u00e9 sentir o cora\u00e7\u00e3ozinho bater em um peito emplumado, voou at\u00e9 as nuvens que cobriam sua cidade querida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gente, tenho medo de estar cometendo um pl\u00e1gio involunt\u00e1rio. Acho imposs\u00edvel que algum fio de uma \u00e9gua j\u00e1 n\u00e3o tenha explorado o tema. Seja como for, vamos em frente. Porto Alegre, final de 1973. 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