{"id":376288,"date":"2025-12-26T00:45:17","date_gmt":"2025-12-26T03:45:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376288"},"modified":"2025-12-25T11:44:08","modified_gmt":"2025-12-25T14:44:08","slug":"hamster","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/hamster\/","title":{"rendered":"Hamster"},"content":{"rendered":"<p>Acordou cedo. Acordou cedo e tinha-se deitado tarde na v\u00e9spera. Era uma roda viva a sua vida na roda correndo como um hamster desesperadamente a girar a roda de pl\u00e1stico para fugir de estar parado no t\u00e9dio da gaiola da cidade engaiolada.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria saber.<\/p>\n<p>Vestiu-se e desceu as escadas como se tivesse pressa de n\u00e3o ter pressa. Assim era a vida, um sucessivo filme sem sa\u00edda e ele, um actor principal, era s\u00f3 mais um figurante aos olhos do grande realizador que por agora era aquele sol matinal, radioso e pleno, nunca igual sendo sempre o mesmo, raiando no fulgor do Agosto como um le\u00e3o mudo observando tudo.<\/p>\n<p>Atravessou v\u00e1rias ruas at\u00e9 chegar ao gin\u00e1sio. \u00c0quela hora as pessoas ainda dormiam presas nas suas camas de mat\u00e9ria f\u00edsica e viviam brincando livres nos seus sonhos atirando almofadas umas \u00e0s outras e rindo-se \u00e0s gargalhadas com as penas soltas que voavam das suas pueris lutas.<\/p>\n<p>Ele ria-se sozinho como quem entra numa n\u00e9voa de sonho bem acordado dando passos seguros inseguro no pavimento de cimento. Ningu\u00e9m se cruzou com ele. Em redor um sil\u00eancio de aurora imaculada sem autom\u00f3veis ainda nas estradas. Ainda bem, pensou ele, daqui a pouco viriam todos enxamear de stress, alcatr\u00e3o e fumo aquele doce sossego de orvalho ainda a brilhar e afugentar o que restava da calada da madrugada e da sua n\u00e9voa de sil\u00eancio restaurador. Toda a gente ainda dormia naquela cidade do sono anestesiados num doce torpor de ainda haver alguns minutos antes de os despertadores soarem.<\/p>\n<p>Entrou no gin\u00e1sio. A porta de entrada era alta e verde e haviam heras a descerem como cascatas de clorofila. Havia uma sensa\u00e7\u00e3o a n\u00e9on ol\u00edmpico e a plantas artificiais ali, como se o cliente fosse acima de tudo um suador pagador orgulhoso do seu esbelto f\u00edsico visto atrav\u00e9s dos sucessivos espelhos que percorriam todo o interior do gin\u00e1sio.<\/p>\n<p>Entrou feliz porque tinha de o ser e sorriu \u00e0 recepcionista que madrugara por detr\u00e1s dos seus \u00f3culos envidra\u00e7ados embaciados pelo suor laboral e pelas horas em frente ao ecr\u00e3 do computador. Ol\u00e1, bom dia! Ol\u00e1, bom dia!<\/p>\n<p>Era o primeiro cliente a entrar.<\/p>\n<p>Entrou no balne\u00e1rio masculino por entre os espelhos, as plantas artificiais e a m\u00fasica espartana que rodava e rodava nos dias e nos temas sempre iguais daquele gin\u00e1sio situado numa enorme cave algures na cidade, oculta do sol, envolta em cimento e a gritar por todos os poros por alguma liberdade, liberdade, liberdade, repetia o refr\u00e3o da m\u00fasica espartana que rodava e rodava por entre as plantas artificiais, os espelhos iguais e o odor a lixivia.<\/p>\n<p>Vestiu-se a rigor como um verdadeiro sportsman do s\u00e9culo trinta, olhou-se como um \u00eddolo ao espelho do lavat\u00f3rio, estaria irreconhec\u00edvel dali a alguns anos nas fotos das reuni\u00f5es de fam\u00edlia, nas fotos das festas com os colegas de trabalho, nas fotos que tirava a si mesmo para enviar a si mesmo no telem\u00f3vel, na internet, no espa\u00e7o c\u00f3smico. Estaria irreconhec\u00edvel dali a alguns anos quando olhasse verdadeiramente para si.<\/p>\n<p>E pensou se algum dia, com o r\u00e1pido rodar dos dias e das noites na roda girat\u00f3ria de hamster citadino que era, se algum dia l\u00e1 para diante ainda teria a mem\u00f3ria de ter passado aquela manh\u00e3, aquela juventude radiante de verdadeiro sportsman do s\u00e9culo trinta, como um verdadeiro momento de gl\u00f3ria triunfante onde sozinho, de madrugada ainda, viera correr na passadeira rolante para ficar igual a um semideus na terra dos demasiado humanos.<\/p>\n<p>Ligou a m\u00e1quina colocando o dedo no bot\u00e3o vermelho e a passadeira rolante come\u00e7ou a deslizar pesadamente entrando numa cantilena mon\u00f3tona. Com passos apressados acompanhou o ritmo da m\u00e1quina e iniciou a sua corrida para lado nenhum.<\/p>\n<p>O tempo passava escorrendo bagos de suor. Bebia por uma garrafa de \u00e1gua mineral engarrafada com \u00e1gua da torneira com uma sede de v\u00edcio, correr, correr, pensava, \u00e9 o del\u00edrio de quem n\u00e3o tem paran\u00e7a nesta dan\u00e7a entre a in\u00e9rcia e o esfor\u00e7o. A \u00e1gua era o refor\u00e7o positivo do seu trabalho impar\u00e1vel de se mexer para correr indo a lugar nenhum, ficando no mesmo s\u00edtio equilibrando-se na passadeira, vendo a vida e a morte a passarem nas televis\u00f5es distraidamente misturando an\u00fancios publicit\u00e1rios e cultos de personalidade.<\/p>\n<p>Continuou a correr.<\/p>\n<p>Uma cliente desce as escadas e passa perto dele emanando um odor a f\u00e1brica e a \u00e1gua de rosas. Chamar-se-ia Nivea, pela fisionomia e olhos azuis, loir\u00edssima, passa perto dele e dirige-se ao balne\u00e1rio feminino envolta numa aura de frescura matinal com o saco e o sexo \u00e0s costas.<\/p>\n<p>Continuou a correr.<\/p>\n<p>Olhou-se vagamente ao espelho. Estava como estava. Como se via a si mesmo por dentro assim o era no reflexo daquela imagem de si, correndo sempre no mesmo s\u00edtio, suando para alcan\u00e7ar o seu objectivo que seria estar no mesmo s\u00edtio mas mais cansado, satisfeito porque suara e desgastara o stress mau e o colesterol mau sentindo-se um semideus, um sportsman do s\u00e9culo trinta.<\/p>\n<p>Sete e meia e tinha cinco euros no bolso, em que gastaria o resto do dia? Havia que correr e fazer coisas, tarefas, facturas, impressoras e m\u00e1quinas silenciosas a trabalhar. O patr\u00e3o era uma impersonalidade em pessoa, sol\u00edcito e an\u00f3nimo entre o enxame do escrit\u00f3rio na hora de ponta, papeis a voar, suores frios, apaguem a luz que est\u00e1 a gastar, dizia antes de se ir embora, exactamente \u00e0s nove da noite, muitas vezes sem jantar. Coitado. A responsabilidade era tanta que \u00e0s vezes tinha de despedir estagi\u00e1rios, exactamente \u00e0s nove da noite, muitas vezes eles ficavam sem jantar, muitos dias. Isso n\u00e3o h\u00e1-de acontecer a mim.<\/p>\n<p>Continuou a correr.<\/p>\n<p>Um cliente desce as escadas, gordo e desajeitado por si mesmo e pelos crit\u00e9rios est\u00e9ticos com que a sociedade marca um gordo e um desajeitado por si mesmo colocando-o a correr e a libertar-se pelo trabalho f\u00e9rreo em se regenerar tornando-se magro. Magro. Magro. Parecia ouvi-lo pensar enquanto corria exorbitantemente suado na passadeira rolante. Bebe um pouco de \u00e1gua e deixa-a correr na cara um pouco para se regenerar do contacto desagrad\u00e1vel que teve com um ser gordo e desajeitado por si mesmo. Magro. Magro. Eu sou\u2026 Imbat\u00edvel! E passa a m\u00e3o no cabelo.<\/p>\n<p>Continuou a correr.<\/p>\n<p>Enquanto corre vai olhando de soslaio a televis\u00e3o que permanece muda emitindo apenas brilhos e imagens choque para deleitar. Sete e quarenta e cinco. Que seca! Isto nunca mais acaba. Ainda tenho de\u2026 E de\u2026 N\u00e3o me posso esquecer de\u2026 Ah, e amanh\u00e3\u2026 A m\u00fasica que rolava e rolava agora estava ext\u00e1tica, futurista, xam\u00e2nica at\u00e9. N\u00e3o sabia o que era aquilo. Estava tonto. Cansado, tonto, confuso, correndo no mesmo s\u00edtio, com o objectivo de chegar ao fim, quando chegasse ao fim, para ficar ainda mais cansado, tonto, confuso, correndo para o autom\u00f3vel, correndo para o escrit\u00f3rio, correndo para acabar o trabalho com objectivos, correndo com o objectivo de chegar ao fim, cansado, tonto, confuso, para correr para dormir e j\u00e1 n\u00e3o sonhar rindo e atirando almofadas \u00e0s amigas nos sonhos rindo-se \u00e0s gargalhadas com as penas soltas que voavam das suas pueris lutas como fazia antes de trabalhar quando namorava N\u00edvea, ou seria a loira daquele concerto dos Bezerros de Oiro l\u00e1 no est\u00e1dio da loucura enxameante onde j\u00e1 n\u00e3o via nada, ape<br \/>\nnas rodava e rodava a cabe\u00e7a ao som da m\u00fasica que rodava e rodava e j\u00e1 n\u00e3o sabia nada\u2026<\/p>\n<p>Oito horas. Na televis\u00e3o silenciosa um hamster corre e corre desesperado na roda de pl\u00e1stico. Continuou a correr. Oito horas. O s\u00edmbolo do n\u00famero oito como que duas serpentes enroscando-se em fogo. Estou em febre. Sinto-me a ferver. Estou estranho. Quem me sou? O olhar? Apenas o que vejo? Apenas o que sinto? Continuou a correr. Oito e cinco.<\/p>\n<p>Uma cliente desce as escadas e passa por ele imersa num vapor de tudo arrumado na cozinha, o puto a dormir, o gajo a trocar-me por aquela, e se fosse s\u00f3 aquela, porque \u00e9 que tatuei o nome dele no bra\u00e7o, logo o direito\u2026 E passa por ele imersa num vapor, r\u00e1pida e desembara\u00e7ada na lou\u00e7a e na m\u00e1quina de cortar a relva, a patroa era boa pessoa, paga bem, e l\u00e1 vai dirigindo-se para o balne\u00e1rio feminino envolta em parfum.<\/p>\n<p>A empregada da limpeza do balne\u00e1rio desce as escadas de balde na m\u00e3o e espanador ao alto com uma mensagem de paz e de liberta\u00e7\u00e3o: Bom dia! Bom dia, disse ele correndo tanto que j\u00e1 mal ouvia a sua pr\u00f3pria voz abafada na m\u00fasica trance \u00e0s voltas e \u00e0s voltas com o refr\u00e3o repetitivamente repetitivo: Work hard, Work hard, Work hard\u2026 At\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o orgi\u00e1stica de\u2026 Oito e dez e tinha cinco euros no bolso. Exactamente para gastar. Exactamente para gastar quando sa\u00edsse dali e fosse ao caf\u00e9 da esquina. J\u00e1 imaginava. Um caf\u00e9 por favor, curto. Ah e o sabor da cafe\u00edna a entrar-lhe em todos os poros do seu ser\u2026 Ah, para sempre sorver o prazer, morrer de gozo\u2026 E a m\u00fasica trance \u00e0s voltas e \u00e0s voltas com o refr\u00e3o neoliberal anticapital ou pior do que isso porque ainda havia pessoas que n\u00e3o sabiam ingl\u00eas e n\u00e3o sabiam o que era isso de neoliberal e anticapital mas eram essas mesmas pessoas que tinham de ouvir o que estava dizer aquela diva do dem\u00f3nio gritando at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o orgi\u00e1stica: Work hard, Work hard, Work hard\u2026<\/p>\n<p>Merda. Estou l\u00facido. Talvez demais\u2026 Olha em redor o gin\u00e1sio dos espelhos e das televis\u00f5es e come\u00e7a a ter vis\u00f5es l\u00facidas de febre transe xam\u00e2nico. Paz na terra e boa vontade entre os homens, pareceu ver escrito na tabela de pre\u00e7os do gin\u00e1sio bem mesmo \u00e0 sua frente. J\u00e1 n\u00e3o via bem, confundia tudo. Na televis\u00e3o em sil\u00eancio o hamster era arrastado pela roda que girava e girava acelerando.<\/p>\n<p>Oito e meia. Na cidade l\u00e1 fora movem-se pelas suas veias e art\u00e9rias as pessoas e os autom\u00f3veis numa adrenalina de ir para o trabalho urgentemente para resolver problemas locais, urgentemente para resolver problemas regionais, urgentemente para resolver problemas nacionais urgentemente, urgentemente para resolver problemas internacionais urgentemente, depois do caf\u00e9 da manh\u00e3, ouvindo passar a ambul\u00e2ncia indo urgentemente para as urg\u00eancias soando urgentemente as sirenes da loucura, enquanto se ouvem as not\u00edcias nos auto-r\u00e1dios fashion confortavelmente instaladas nos seus autom\u00f3veis, as pessoas est\u00e3o com uma pressa sem cura, procurando resolutamente o dinheiro pois s\u00f3 ele cura os problemas pessoais urgentes que se t\u00eam de se resolver urgentemente.<\/p>\n<p>Not\u00edcias na televis\u00e3o silenciosa. As imagens eram mais impressivas que as palavras. Refugiados em todo o lado, fugindo e sem ter s\u00edtio para repousar a cabe\u00e7a, como Jesus um dia, como ele naquele dia, como todos naquele dia naquele gin\u00e1sio agora cheio de gente que pulula e bombeia o cora\u00e7\u00e3o e a salta na m\u00fasica que ribomba, e ningu\u00e9m tem s\u00edtio para repousar a cabe\u00e7a, apenas para a perder numa ins\u00f3nia man\u00edaca de viver e de ter de viver, de sofrer e de ter prazer.<\/p>\n<p>Fim das not\u00edcias na televis\u00e3o silenciosa. As imagens eram repetitivas e as palavras que saiam das bocas lisonjeadoras dos comentadores com opini\u00e3o tamb\u00e9m. Ainda bem que a televis\u00e3o estava silenciosa. Torna-se perigosa quando lhe damos aten\u00e7\u00e3o demais, come\u00e7a a falar alto e a ter raz\u00e3o como um pai ou um patr\u00e3o quando se zangam, quando \u00e9 assim muda-se de canal, e de canal em canal, entramos no absurdo banal de ter tanto para ver e nenhum tempo para ver, apenas tomamos caf\u00e9 e vemos os \u00edndices das bolsas subir enquanto a tens\u00e3o sobe, enquanto ele corre na sua passadeira rolante, vibrante de endorfinas e de seratoninas ao rubro, eis o her\u00f3i, quase no fim da corrida, vislumbra o futuro, toda a gente saber\u00e1 de tudo e de todos mas ningu\u00e9m saber\u00e1 de si.<\/p>\n<p>A televis\u00e3o silenciosa mostra o hamster esgotado, a roda de pl\u00e1stico quebrada e a gaiola aberta. N\u00edvea, vestida de branco, pega no hamster, retira-o da gaiola e beija-o no nariz.<\/p>\n<p>Oito e quarenta e cinco. Ele desliga o bot\u00e3o vermelho do tapete rolante. O tapete rolante para finalmente. Ele escorre bagos de suor e transe l\u00edquido.<\/p>\n<p>N\u00edvea passa por ele e sobe as escadas vestida de noiva. Dirige-se para a sa\u00edda.<\/p>\n<p>Ele lembra-se de quando viviam brincando livres nos seus sonhos do passado atirando almofadas um ao outro e rindo-se \u00e0s gargalhadas com as penas soltas que voavam das suas pueris lutas.<\/p>\n<p>Subitamente de guerreiro her\u00f3i xam\u00e3 ele transforma-se num hamster amestrado pronto para correr.<\/p>\n<p>Coloca o cart\u00e3o no ponto ao entrar no escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Depois do caf\u00e9 e de olhar todos os hamsters do escrit\u00f3rio a correr, diz solenemente uma frase que ouviu dizer:<\/p>\n<p>Hoje est\u00e1 um bom dia para morrer!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acordou cedo. Acordou cedo e tinha-se deitado tarde na v\u00e9spera. 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