{"id":376339,"date":"2025-12-26T02:00:21","date_gmt":"2025-12-26T05:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376339"},"modified":"2025-12-25T21:22:32","modified_gmt":"2025-12-26T00:22:32","slug":"a-vida-corrida-do-carlos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-vida-corrida-do-carlos\/","title":{"rendered":"A vida corrida do Carlos"},"content":{"rendered":"<p>Carlos, assim que completou 16 anos, tratou de arrumar emprego em afamada lanchonete em um shopping na Asa Sul, cora\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Era uma correria doida, pois precisava se deslocar da \u00e1rea rural de Planaltina at\u00e9 o trabalho e, de l\u00e1, rumava para a escola. Pegava o \u00f4nibus e retornava desfalecido para o lar, n\u00e3o t\u00e3o doce lar, onde poderia repousar at\u00e9 que, ainda na madrugada do dia seguinte, tudo recome\u00e7ava.<\/p>\n<p>Depois de cumprir a s\u00eaxtupla jornada semanal, eis que chegava o \u00fanico dia de folga do rapaz, como se aquilo fosse um sonho em meio \u00e0 vida carregada de pesadelos. Era momento de relaxar e ajudar na lida com os animais do s\u00edtio. Picol\u00e9, o vira-lata, ficava no calcanhar do Carlos, como se cobrando a aus\u00eancia de afagos acumulados. Zacarias, o jumento, mal avistava o jovem, corria e zurrava a fim garantir seu quinh\u00e3o de cafun\u00e9.<\/p>\n<p>Galinhas, patos e porcos corriam em dire\u00e7\u00e3o ao jovem, que precisava se dividir para dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0quela trupe. At\u00e9 Tom\u00e9, o bode, parecia vir lhe pedir desculpas por conta das chifradas que, vez ou outra, eram aplicadas num distra\u00eddo Carlos. Bastava virar as costas, que l\u00e1 ia o danado, que acertava em cheio o traseiro do adolescente descuidado.<\/p>\n<p>Entre carinhos e golpes \u00e0 trai\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o de Carlos e Tom\u00e9 parecia a de dois amigos que vivem \u00e0s turras, mas n\u00e3o se desgrudam, a despeito das agruras. Coisas de homens, dizia Luzia, a m\u00e3e do rapazola. V\u00e1 entender!<\/p>\n<p>A \u00fanica que n\u00e3o dava muita trela para Carlos era Sonja, a gata rajada, que preferia o conforto do cesto ao lado do fog\u00e3o a lenha. De l\u00e1, a felina ficava atenta a qualquer movimento no terreiro apinhado daquela gente de esp\u00e9cies barulhentas. Ela olhava aquele povo com desd\u00e9m, como se dissesse: &#8220;T\u00f4 fora!&#8221;. E voltava para mais um turno de cochilo.<\/p>\n<p>Segunda-feira, Carlos foi empurrado para fora da cama pelo barulho do despertador. Hora de voltar para a vida desgra\u00e7ada. Sem op\u00e7\u00e3o, fez o que era preciso, quando foi at\u00e9 o varal pegar o uniforme do trabalho. Cad\u00ea? Cad\u00ea? Cad\u00ea?<\/p>\n<p>O gajo procurou daqui, procurou dali, procurou dacol\u00e1, at\u00e9 que descobriu o que havia acontecido. L\u00e1 estava o Tom\u00e9 deitado sob a jabuticabeira. O danado ruminava sem aparentar resqu\u00edcio de culpa.<\/p>\n<p>Sem op\u00e7\u00e3o, o adolescente tratou de correr para n\u00e3o perder o \u00f4nibus. E quase perdeu, caso n\u00e3o fosse a camaradagem do motorista, que percebeu que o moleque corria que nem desesperado para chegar a tempo ao ponto.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, senhor.<\/p>\n<p>Carlos aproveitou a longa viagem para descansar mais um pouco. E foi o que fez, at\u00e9 que o coletivo entrou na Asa Norte, momento em que o rapaz despertou por conta das freadas constantes. Mais alguns quil\u00f4metros, era a sua vez de descer no primeiro ponto da Asa Sul. E foi o que fez.<\/p>\n<p>Acelerou o passo para n\u00e3o se atrasar. Mal pisou na lanchonete, foi questionado por Iranilde, a gerente:<\/p>\n<p>\u2014 Carlos, cad\u00ea o seu uniforme?<\/p>\n<p>O funcion\u00e1rio, envergonhado pelo acontecido, mentiu:<\/p>\n<p>\u2014 Roubaram.<\/p>\n<p>\u2014 Roubaram?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>\u2014 E como foi isso?<\/p>\n<p>Carlos pensou, pensou, gaguejou um tanto, at\u00e9 que desistiu. Cabisbaixo, olhou para a gerente e disse:<\/p>\n<p>\u2014 O Tom\u00e9 comeu.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Num t\u00f4 te falando? O Tom\u00e9 comeu.<\/p>\n<p>\u2014 Tom\u00e9? E quem \u00e9 esse Tom\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Uai, o meu bode.<\/p>\n<p>Iranilde e os outros funcion\u00e1rios que estavam perto come\u00e7aram a gargalhar por causa do tr\u00e1gico fim que o uniforme teve. Pois \u00e9, o trabalhador n\u00e3o tem um dia de paz. No final das contas, arrumaram uma blusa e uma cal\u00e7a novas para o Carlos, que acabou ganhando o apelido de Tom\u00e9. E, acredite ou n\u00e3o, foi assim que aconteceu.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos, assim que completou 16 anos, tratou de arrumar emprego em afamada lanchonete em um shopping na Asa Sul, cora\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia. Era uma correria doida, pois precisava se deslocar da \u00e1rea rural de Planaltina at\u00e9 o trabalho e, de l\u00e1, rumava para a escola. 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