{"id":376396,"date":"2025-12-29T00:45:26","date_gmt":"2025-12-29T03:45:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376396"},"modified":"2025-12-26T00:22:30","modified_gmt":"2025-12-26T03:22:30","slug":"estava-de-calca-curta-branca-do-tipo-que-se-usava-nos-anos-50","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/estava-de-calca-curta-branca-do-tipo-que-se-usava-nos-anos-50\/","title":{"rendered":"Estava de cal\u00e7a curta branca, do tipo que se usava nos anos 50"},"content":{"rendered":"<p>Uma amiga postou no Facebook um v\u00eddeo no qual uma menininha, de vestidinho rendado, mergulha imp\u00e1vida em uma po\u00e7a de \u00e1gua e lama. Eu respondi no ato: \u201cUma vez ca\u00ed no lago na pra\u00e7a central de Friburgo, mas n\u00e3o estava com vestidinho e sim com cal\u00e7a curta. Primeiro vexame de uma longa s\u00e9rie na minha vida.\u201d<\/p>\n<p>Depois de mandar o coment\u00e1rio, reli o que havia escrito e constatei tr\u00eas coisas. A primeira \u00e9 que minha resposta n\u00e3o tinha a menor gra\u00e7a, na verdade era bem triste. Minha amiga percebeu isso, e contra-atacou com uma nova brincadeira para dissipar a tens\u00e3o. Mas n\u00e3o adiantou muito.<\/p>\n<p>A segunda coisa \u00e9 que o epis\u00f3dio continuava bem vivo em minha mem\u00f3ria, que esqueceu tanta coisa da inf\u00e2ncia. A terceira \u00e9 que n\u00e3o havia falado sobre isso com ningu\u00e9m, nunca, em tempo algum \u2013 at\u00e9 que o jogo de postagens e curti\u00e7\u00f5es do Facebook me arrancou essa confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembro que estava com uma cal\u00e7a curta branca, das que os meninos usavam nos anos 50, e por algum motivo resolvi andar pela beirada do lago. \u00c9 um laguinho, mas na \u00e9poca me parecia bem grande. Nosso planeta tem uma extens\u00e3o superior a 510 milh\u00f5es de km2, e o lago de Friburgo, menos de 200 m2. Pois bem, ignorei os 510 milh\u00f5es de km2 e me chafurdei nos 200 m2 de \u00e1gua esverdeada.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro das risadas e zombarias que muito provavelmente acompanharam minha sa\u00edda do lago. N\u00e3o lembro da bronca que provavelmente levei de minha m\u00e3e e\/ou av\u00f3, por estragar a roupa e o passeio. Lembro do mergulho de bunda na \u00e1gua, dos belisc\u00f5es que levei de minha m\u00e3e at\u00e9 entrar em casa (belisc\u00e3o era especialidade dela) e de ter sentido um vislumbre do que postei tantas d\u00e9cadas depois: aquilo n\u00e3o era um vexame a ser zoado de fora, mas algo que eu, e apenas eu, podia qualificar como uma derrota \u2013 e uma das que balizaram minha vida.<\/p>\n<p>Dedico este texto \u00e0quele menininho de 5-6 anos que saiu, aturdido e assustado, das \u00e1guas de um lago friburguense. Ele continua presente em meu psiquismo, felizmente na companhia de vers\u00f5es dele\/minhas mais equilibradas e mais felizes.<\/p>\n<p>De certo modo, a imers\u00e3o no lago cristalizou sentimentos que provavelmente j\u00e1 existiam h\u00e1 tempos. A partir daquele momento, por muitos anos colecionei amorosamente minhas derrotas, lustrei-as com cuidado e as depositei em estantes ps\u00edquicas, onde podia examin\u00e1-las sempre que quisesse.<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia, minha m\u00e3e em especial, foi uma grande incentivadora de minha cole\u00e7\u00e3o de derrotas. Aos 10 anos prestei exame de admiss\u00e3o ao gin\u00e1sio e tirei 6,5 em portugu\u00eas. Minha m\u00e3e comentou que era um fracasso imperdo\u00e1vel. S\u00f3 que passei em 2\u00ba lugar no exame, entre milhares de crian\u00e7as, e n\u00e3o lembro de receber nenhum elogio.<\/p>\n<p>Outro exemplo, de quando tinha 12 anos. Meus pais viajaram para a Europa e escrevi para eles uma cartinha divertida, cheia de ironias. Eles responderam que haviam adorado. Ent\u00e3o escrevi outra, sem ter muito assunto (esgotado com a primeira carta), for\u00e7ando as piadas como um stand up comic destrambelhado perante uma audi\u00eancia alcoolizada e hostil, e eles s\u00f3 faltaram me vaiar. Mais uma derrotinha a ser saboreada com vagar.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendi bem o mecanismo at\u00e9, muitos anos depois, ler um livro de Carlos Casta\u00f1eda. N\u00e3o lembro qual livro, n\u00e3o sei se ainda o tenho e, de qualquer modo, n\u00e3o pretendo rel\u00ea-lo, o essencial \u00e9 o que guardei do texto. Casta\u00f1eda sai vitorioso em alguma coisa, v\u00ea a express\u00e3o desolada do garoto que perdeu pra ele e, comovido, decide abrir m\u00e3o de todas as suas vit\u00f3rias futuras, oferecidas como expia\u00e7\u00e3o ao menino. Ou seja, torna-se um colecionador de derrotas de responsa. Comigo a coisa foi similar, e s\u00f3 agora, com este texto, a estou assimilando plenamente.<\/p>\n<p>Terminei a primeira vers\u00e3o deste relato com o par\u00e1grafo:<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, por favor, curtam meus textos, os comentem, comprem meus livros, o escambau. S\u00e3o pequenas vit\u00f3rias que ajudam a equilibrar a balan\u00e7a. Obrigado.\u201d<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o. Coisas minhas \u2013 de cada vivente \u2013 n\u00e3o mudam assim t\u00e3o f\u00e1cil. O jeito \u00e9 soltar os cachorros, chutar o pau da barraca, equilibrar os pratos da balan\u00e7a por mim mesmo. Bola pra frente. E se n\u00e3o der, como ensinou Bandeira, ir embora pra Pas\u00e1rgada. Ou cantar um tango argentino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma amiga postou no Facebook um v\u00eddeo no qual uma menininha, de vestidinho rendado, mergulha imp\u00e1vida em uma po\u00e7a de \u00e1gua e lama. 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