{"id":376424,"date":"2025-12-26T00:43:40","date_gmt":"2025-12-26T03:43:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376424"},"modified":"2025-12-26T04:54:41","modified_gmt":"2025-12-26T07:54:41","slug":"escrever-nem-sempre-e-facil-como-pegar-um-ovo-e-cozinhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/escrever-nem-sempre-e-facil-como-pegar-um-ovo-e-cozinhar\/","title":{"rendered":"Escrever nem sempre \u00e9 f\u00e1cil como pegar um ovo e cozinhar"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">Em recente entrevista \u00e0 jornalista\u00a0<a href=\"https:\/\/www.braziliantimes.com\/entretenimento\/coluna-arilda-entrevista-com-o-escritor-brasileiro-ray-cunha\/\">Arilda Costa McClive para o\u00a0<em>Brazilian Times<\/em><\/a>, ela perguntou: Como voc\u00ea descreve o seu processo criativo? \u00c9 um processo solit\u00e1rio ou voc\u00ea se inspira em intera\u00e7\u00f5es com outras pessoas e lugares?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Resposta: Como dizia Hemingway, o escritor \u00e9 como um pugilista no ringue. No tablado, o boxeador s\u00f3 depende dele mesmo. Nem seu treinador poder\u00e1 ajud\u00e1-lo. \u00c9 ele e sua solid\u00e3o. Mas a\u00ed \u00e9 que est\u00e1: por causa da solid\u00e3o ele encontrar\u00e1 uma sa\u00edda, mesmo que seja a derrota. Assim \u00e9 o escritor. Ningu\u00e9m pode ajud\u00e1-lo quando ele se senta para escrever, ou fica em p\u00e9, mesmo, como era o caso de Hemingway. Quanto \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o, considero-a mais um entusiasmo moment\u00e2neo, um come\u00e7o, o primeiro passo de um livro, de um cap\u00edtulo, de um poema, um passo que desemboca no caminho. Para resumir, quero dizer que meu processo criativo \u00e9 sentir-me perturbado por alguma coisa e come\u00e7ar a inventar uma hist\u00f3ria a partir dessa perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu gostaria de esticar este assunto. A experi\u00eancia mais radical que j\u00e1 tive com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o foi com meu primeiro romance,\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Casa-Amarela-Ray-Cunha-ebook\/dp\/B083QR3YYX\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=IYU8WZZFX2VL&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.K4E39x2KGJ-FAiCE5lE_ROC2v7UAz4N5xFraM3EnRmQ_oImlciuZKuigJi74TPGf.0-pFL7clT9dm4RW7Ao5JjzfkR2PlTr5m9PIj7BlOoaM&amp;dib_tag=se&amp;keywords=A+Casa+Amarela+Ray+Cunha&amp;qid=1766695650&amp;s=books&amp;sprefix=a+casa+amarela+ray+cunh%2Cstripbooks%2C216&amp;sr=1-1\">A<\/a><\/strong><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Casa-Amarela-Ray-Cunha-ebook\/dp\/B083QR3YYX\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=IYU8WZZFX2VL&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.K4E39x2KGJ-FAiCE5lE_ROC2v7UAz4N5xFraM3EnRmQ_oImlciuZKuigJi74TPGf.0-pFL7clT9dm4RW7Ao5JjzfkR2PlTr5m9PIj7BlOoaM&amp;dib_tag=se&amp;keywords=A+Casa+Amarela+Ray+Cunha&amp;qid=1766695650&amp;s=books&amp;sprefix=a+casa+amarela+ray+cunh%2Cstripbooks%2C216&amp;sr=1-1\"> Casa<\/a><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Casa-Amarela-Ray-Cunha-ebook\/dp\/B083QR3YYX\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=IYU8WZZFX2VL&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.K4E39x2KGJ-FAiCE5lE_ROC2v7UAz4N5xFraM3EnRmQ_oImlciuZKuigJi74TPGf.0-pFL7clT9dm4RW7Ao5JjzfkR2PlTr5m9PIj7BlOoaM&amp;dib_tag=se&amp;keywords=A+Casa+Amarela+Ray+Cunha&amp;qid=1766695650&amp;s=books&amp;sprefix=a+casa+amarela+ray+cunh%2Cstripbooks%2C216&amp;sr=1-1\"> Amare<\/a><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Casa-Amarela-Ray-Cunha-ebook\/dp\/B083QR3YYX\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=IYU8WZZFX2VL&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.K4E39x2KGJ-FAiCE5lE_ROC2v7UAz4N5xFraM3EnRmQ_oImlciuZKuigJi74TPGf.0-pFL7clT9dm4RW7Ao5JjzfkR2PlTr5m9PIj7BlOoaM&amp;dib_tag=se&amp;keywords=A+Casa+Amarela+Ray+Cunha&amp;qid=1766695650&amp;s=books&amp;sprefix=a+casa+amarela+ray+cunh%2Cstripbooks%2C216&amp;sr=1-1\">la<\/a>. Durante meses, talvez mais de um ano, tive um sonho recorrente. Sonhava com a casa da minha inf\u00e2ncia, uma casa de alvenaria, pintada de amarelo, mas a pintura j\u00e1 estava muito gasta e as paredes, descascadas. Havia um jardim onde predominavam z\u00ednias multicoloridas, jasmineiros e roseiras, e, no quintal, uma mangueira, um cajueiro, bananeira e uma seringueira.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No meu sonho eu voava e via tudo colorido. No voo, eu pairava sobre a casa amarela e seu jardim era imenso, parecia uma planta\u00e7\u00e3o de rosas vermelhas e z\u00ednias multicoloridas. E eu sentia uma liberdade redentora. Sonhei assim at\u00e9 o dia em que comecei a escrever A CASA AMARELA. Escrevi-o rapidamente, organizando-o igual ao\u00a0<em>Cora\u00e7\u00e3o das Trevas<\/em>, de Joseph Conrad, em tr\u00eas partes. Neste livro, recriei Macap\u00e1. E nunca mais sonhei com a casa amarela.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Da mesma forma, tive outras experi\u00eancias ficcionais. Uma delas, um conto, foi t\u00e3o convincente que uma amiga minha ao ler o conto me escreveu dizendo que sentia pena de mim. Expliquei a ela que se tratava de um conto e que conto \u00e9 inven\u00e7\u00e3o, mentira. O conto, &#8216;<em>Muito al\u00e9m de mim<\/em>&#8216;, foi publicado no livro <strong><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/AMAZ%C3%94NIA-Ray-Cunha\/dp\/6526615317\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=2R94NBB3CW3JU&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.G5hutTVwd4y5YDTF0pO6vzJT82z18SOSf2FUcYBiZ7XGjHj071QN20LucGBJIEps.U_ZyxLyAZYyzZHofCYP3pVqHd1lrlElYJrKVIJs-v6s&amp;dib_tag=se&amp;keywords=amazonia+ray+cunha&amp;qid=1766695692&amp;s=books&amp;sprefix=amaz%C3%B4ni+ray+cunha%2Cstripbooks%2C221&amp;sr=1-1&amp;ufe=app_do%3Aamzn1.fos.6d798eae-cadf-45de-946a-f477d47705b9\">Amaz\u00f4nia<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No &#8216;<em>Muito al\u00e9m de mim<\/em>&#8216;, tenho tentado escrever fic\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o precisa de muito para produzir. Basta comer o suficiente para n\u00e3o adoecer. Vinha tendo bem mais que isso, mas tudo acabou como num passe de m\u00e1gica. No mesmo dia, perdi emprego, mulher, casa, comida e roupa lavada. Conheci Celina Madeira Machado Silva e Silva no Bar do Parque, defronte ao Hotel Hilton Bel\u00e9m, na Pra\u00e7a da Rep\u00fablica. Ela estava na companhia de uma tipa grande como uma elefanta e de uma outra que era toda uma enguia. Naquela \u00e9poca, andei publicando umas resenhas sobre cinema em <em>O Liberal<\/em>\u00a0e Celina era cin\u00e9fila. O papo foi longe. Ela me convidou para ir \u00e0 sua casa no dia seguinte. Morava em um casar\u00e3o em Nazar\u00e9. O pai, com o est\u00f4mago estourando de c\u00e2ncer, vivia recluso esperando a hora de bater as botas. Para n\u00e3o me estender muito, o caso \u00e9 o seguinte: Celina e eu nos casamos dias depois. Eu era seu quarto marido. Celina andara \u00e0 procura de um pai camarada. A m\u00e3e de Celina, uma \u00edndia que seu pai comprara em Santar\u00e9m, fora escravizada a vida toda, mas n\u00e3o morrera sem gerar a filha rebelde. Ao chegar de Portugal, o pai de Celina come\u00e7ou como padeiro em Bel\u00e9m. Anos de economia, comendo restos estragados de frutas e se vestindo com duas mudas de roupa, fizeram dele um magnata do p\u00e3o. Celina vivia esbanjando a fortuna e batendo perna com suas amigas ali\u00e1 e peixe-el\u00e9trico. Era a cadela no trio. P\u00f4s-me um par de cornos de alce. Mas nosso jogo era t\u00e1cito. Ela me tirara da sarjeta e me usava como atleta sexual. Naquela manh\u00e3, peguei o carro que Celina me dera e fui para o trabalho, uma revista picareta que s\u00f3 me pagava com vales, embora, antes de conhecer Celina, era l\u00e1 que eu repousava a carca\u00e7a, em um quartinho decr\u00e9pito, nos fundos do pr\u00e9dio. Cheguei a tempo de ver o pessoal da Justi\u00e7a do Trabalho levando tudo. Depois soube que o editor tinha vencido uma causa trabalhista contra o dono da empresa. Voltei para casa. Flagrei minha mulher gemendo, empalada no vergalho do jardineiro em nossa santa cama. N\u00e3o quis fazer drama. Sentia-me vulner\u00e1vel e cansado. Fui \u00e0 cozinha beber \u00e1gua. \u201cA vida \u00e9 um jogo perdido; o melhor que podemos fazer \u00e9 jogar bem\u201d \u2013 pensei. \u201cA cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 minha igreja; e eu, o padre que oficia a missa. A raz\u00e3o da minha vida \u00e9 escrever fic\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o escrevo, sinto-me vazio, despencando na fossa, no nada. Por isso, necessito criar. E quando estou no lugar ideal nada pode me atingir. Nada! Eu sempre soube que esse casamento \u00e9 apenas uma passagem de chuva.\u201d Passado algum tempo voltei ao quarto, peguei minhas coisas. Na sala, encontrei Celina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Estou indo embora \u2013 disse-lhe. Quase n\u00e3o acreditei no que ela respondeu.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Tu pegaste a roupa na lavanderia? \u2013 eram uns casacos que ela usava quando viajava e que eu levara \u00e0 lavanderia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nessas alturas, tinha feito novas amizades e um amigo, um verdadeiro irm\u00e3o, que me acolheu na casa dele. Minha passagem pela casa de Celina proporcionou-me a oportunidade de me preparar para o vestibular. Ela pagara o cursinho e eu consegui entrar na Universidade Federal do Par\u00e1, para fazer o curso de jornalismo. Foi desse modo que obtive uma vaga na Casa do Estudante Universit\u00e1rio do Par\u00e1 (Ceup).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Naquela manh\u00e3 lamacenta de abril a Ceup dormia ainda, por tr\u00e1s do alto muro na Rua S\u00e3o Francisco, bairro da Campina. Era um conjunto de tr\u00eas pr\u00e9dios: a Casa Nova, j\u00e1 com sinais de decrepitude; a Vila Sapo, com quatro quartos lado a lado; e a Casa Velha, um casar\u00e3o do s\u00e9culo dezenove, em ru\u00ednas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Gostaria de falar com o presidente \u2013 disse a um anci\u00e3o escaveirado que surgiu no v\u00e3o da porta, imaterial como um fantasma.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Fui conduzido a um quarto no terceiro andar da Casa Nova. Bati na porta. Apareceram dois olhos negros, famintos. Pertencia a um campon\u00eas de cabe\u00e7a excessivamente chata. Estendi-lhe a carta da reitoria da Universidade Federal do Par\u00e1. Ele a leu.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Meu nome \u00e9 Ribamar \u2013 disse, e me convidou para entrar no quarto.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O quarto fedia a mofo, roupa suja e gordura. Encostada \u00e0 parede havia uma bicicleta toda enfeitada. \u201cParece chap\u00e9u de vaqueiro nordestino\u201d \u2013 pensei.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Voc\u00ea vai para o quarto do Rei Momo \u2013 disse o presidente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O quarto do Rei Momo ficava na Vila Sapo. Era o primeiro de quem ia da Casa Nova para a Casa Velha. Estava fechado. Ribamar bateu na porta. Ouviu-se movimento l\u00e1 dentro e depois a porta foi aberta. Vi uma apari\u00e7\u00e3o de olhos esbugalhados, um homem de meia idade, barrigudo e assustado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Este aqui \u00e9 o Jo\u00e3o. Ele vai morar a\u00ed \u2013 disse o presidente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Aqui? \u2013 Rei Momo n\u00e3o acreditou no que ouviu. Desde que viera de Santar\u00e9m, h\u00e1 dez anos, n\u00e3o dividia o quarto. Agora, o subversivo do Piau\u00ed vinha com aquela conversa. \u2013 Um momento \u2013 disse Rei Momo, fechando a porta. Da\u00ed a alguns minutos reapareceu. Vestira uma camisa e escovara os cabelos. \u2013 Podem entrar \u2013 convidou-nos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O fedor de mofo era sufocante. Em um dos lados do quarto havia uma cama com um bom colch\u00e3o, com trapos espalhados sobre ele. No outro lado, encostada \u00e0 parede, vi uma dessas camas de armar e desarmar. Na parede dos fundos erguia-se uma respeit\u00e1vel pilha de livros, ao lado de um guarda-roupa em ru\u00ednas, e no centro do quarto jazia uma mesinha atulhada de tudo quando se possa imaginar. Rei Momo sentara-se sobre a cama e o presidente e eu ficamos em p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Eu sempre morei sozinho \u2013 disse Rei Momo, zangado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Isto aqui est\u00e1 precisando de uma limpeza. Vou convocar um mutir\u00e3o para p\u00f4r em ordem este quarto \u2013 disse o presidente, que era rec\u00e9m-empossado. Eu soube mais tarde que o presidente anterior permanecera no cargo durante dez anos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Rei Momo olhou-o apavorado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 N\u00e3o ser\u00e1 preciso um mutir\u00e3o. N\u00f3s dois nos daremos bem \u2013 eu disse, estendendo a m\u00e3o para Rei Momo. Ele pareceu n\u00e3o ter visto meu gesto. \u2013 Parece-me que ambos gostamos de Fellini \u2013 apontei para uma lombada que se salientava na pilha de livros. \u2013 E n\u00e3o te preocupes com barulho; gosto tamb\u00e9m de sil\u00eancio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nasci em 22 de abril de 1939. Estamos em 22 de abril de 1972. Tenho, portanto, 33 anos de idade. Sinto que j\u00e1 comecei a descer o morro da vida. Para um escritor permanecer no embalo dos 21 anos s\u00f3 com muita dedica\u00e7\u00e3o \u2013 dedica\u00e7\u00e3o religiosa \u2013 a tudo o que diz respeito \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, como: disciplina espartana e trabalho duro como um assalto de boxe, sem tr\u00e9gua, cont\u00ednuo, \u00e1rduo e nunca desestimulado. E \u00e9 assim que venho fazendo na Ceup, aproveitando essa oportunidade que Deus me deu. O fim do meu casamento serviu para que descobrisse o quanto realmente as coisas valem. A Ceup foi o gatilho que eu precisava disparar para me tornar escritor e, antes dela, Celina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As melhores horas eram as da madrugada, quando o sil\u00eancio se impunha \u00e0 horda piolhenta que ali se escondia. \u00c0s vezes, deixava-me sentar em frente \u00e0 televis\u00e3o para ver um resto de filme, ou simplesmente ficava ali, no <em>hall<\/em>\u00a0de entrada da Casa Nova, mais pela claridade das in\u00fameras l\u00e2mpadas fluorescentes. Nas f\u00e9rias, quando todos iam para suas cidades natais e a Ceup ficava quase abandonada, eu varava as noites escrevendo, absolutamente fiel a mim mesmo. Escrevia todos os dias, mesmo que fosse por alguns minutos apenas. Se n\u00e3o dava, tentava no dia seguinte. E dormia bastante. Lia tudo e atentamente. Rezava, meditava, via, ouvia, sentia, cheirava, degustava, bebia, comia, vagabundava, batia papo e escrevia cartas. Escrever n\u00e3o me saciava nunca. Atingia picos de concentra\u00e7\u00e3o, lucidez e produ\u00e7\u00e3o que pareciam a embriaguez do primeiro gim fizz. Vivia o agora e o agora, o momento mesmo da vida. Nada de nostalgia, nada de remorso, o passado era feito do que havia de melhor; nada de sonho, pois a realidade proporcionava prazer intenso; nada de preocupa\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o havia futuro; nada de raivas, pois a raiva, acionada, s\u00f3 a morte pode det\u00ea-la, \u00e9 t\u00e3o devastadora que atinge tudo ao seu redor, incluindo objeto e sujeito; nada de reclama\u00e7\u00f5es; nada de se meter na vida dos outros, nem deixar que os outros se metessem na minha vida. Eu era, apenas, um mero observador da realidade, embora, sempre que achasse necess\u00e1rio, interviesse na realidade. Hoje, sei que n\u00e3o se pode intervir na realidade, pois a realidade \u00e9. Nossa vida \u00e9 apenas o caminho que leva \u00e0 realidade. At\u00e9 as mulheres se tornaram para mim, naquela \u00e9poca, abstra\u00e7\u00f5es, e somente pensando nelas \u00e9 que ousava sonhar. Sonhava com uma companheira, amiga, amante, o colo onde repousava minha cabe\u00e7a, ainda dolorida devido aos cornos. A luz do seu amor me conduzindo naquelas encruzilhadas da vida mergulhadas nas trevas, guiando-me pela m\u00e3o, com seguran\u00e7a, emergindo comigo na claridade e na trilha segura. Nos meus mergulhos interiores eu me via tamb\u00e9m como protetor das crian\u00e7as, gentil e caridoso, senhor de mim, poderoso como um anjo, e fr\u00e1gil, pois me via pedindo perd\u00e3o a todos quanto ofendi, ou causei mal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Geralmente me alimentava de p\u00e3o dormido, que o padeiro da esquina me arranjava sempre. Fiz amizade tamb\u00e9m com o a\u00e7ougueiro, que me dava ossos ainda munidos de excelentes nacos de carne, que eu cozinhava e comia com a boa farinha d\u2019\u00e1gua que minha fam\u00edlia me mandava de Oiapoque, cidade do Territ\u00f3rio Federal do Amap\u00e1. \u00c0s vezes, eu faturava alguma coisa na m\u00eddia. A\u00ed, almo\u00e7ava no Ver-O-Peso. Meio litro de pir\u00e3o de a\u00e7a\u00ed com dourada, e adormecia nocauteado pela can\u00edcula, at\u00e9 o anoitecer, quando tomava banho, vestia a melhor muda de roupa de que dispunha e ia para o Cosa Nostra bater papo com o <em>barman<\/em>, meu amigo. Mas, a maior parte do tempo, vivia a minha vida de modo quase recluso, quase sem participar da agita\u00e7\u00e3o que era sempre a Ceup. Minha participa\u00e7\u00e3o no dia a dia da casa era mais a de expectador. Os acontecimentos se sucediam como os bancos de uma roda-gigante em movimento. Embora eu n\u00e3o me importasse com eles.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Simplesmente n\u00e3o influ\u00edam na minha vida. Eu estava ali com um objetivo e at\u00e9 alcan\u00e7\u00e1-lo vivia intensamente minha vida interior. O dia a dia da Ceup n\u00e3o alterava o fluxo do meu rio interior. Mas eu dissecava os protagonistas desses epis\u00f3dios e, \u00e0s vezes, tomava nota deles. Uma madrugada, acordei com gritos medonhos \u00e0 porta do quarto. Abri-a e me deparei com uma mulher enrolada em um cobertor imundo, cheio de n\u00f3doas de gozos antigos, suplicando que a socorressem. M\u00e3o de Sucuri, um vaqueiro, nosso vizinho, havia levado aquela mulher para o quarto dele, onde morava com Punheteiro, que se masturbava a noite inteira enquanto M\u00e3o de Sucuri trabalhava nas putas que levava para l\u00e1. Naquela noite, M\u00e3o de Sucuri, que tinha esse apelido de tanto ordenhar vaca e ficara com uma for\u00e7a descomunal nas m\u00e3os, queria que a mulher desse uma chupada nele. Ela ficou com vergonha de fazer aquilo na frente de Punheteiro. Apesar de n\u00e3o se aguentar em p\u00e9 de t\u00e3o porre, M\u00e3o de Sucuri imobilizou-a na sua rede t\u00e3o limpa quando o cobertor em que ela havia se envolvido na fuga e lhe ferroou uma dentada na bunda. Depois p\u00f4-la nua, a bofetadas, ao relento. Ela conseguira levar o cobertor e ao ver-se ao relento p\u00f4s-se a berrar. M\u00e3o de Sucuri caiu na rede em coma e Punheteiro batia uma feroz punheta para aquela \u00e9gua nua que passou ro\u00e7ando seu nariz. Outra madrugada, na Casa Nova, o Doutor, conhecido tamb\u00e9m como Distribuidor de Esperma, come\u00e7ou a berrar. Ele queria ser cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico. Logrou ingressar na universidade ap\u00f3s doze vestibulares bem contados. Jamais tomava banho e lembrava um peda\u00e7o de sebo. Dizia a todos que vendia esperma para insemina\u00e7\u00e3o artificial. Recebia carne seca do Maranh\u00e3o e guardava-a sobre uma sucata de geladeira. Todo dia tirava dali alguns peda\u00e7os, que cozinhava e comia com farinha d\u2019\u00e1gua. Um dia, ratos come\u00e7aram a brigar sobre a carne seca e um caiu no Distribuidor de Esperma, que acordou com uma ratazana na cara. Em agosto, houve o caso do Padre. Um dia, encontrava-me no sal\u00e3o da Casa Velha. Duende estava encostado \u00e0 janela. Era meio-dia e o sol dava at\u00e9 para fritar ovo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 N\u00e3o dou uma semana para que o Padre seja levado para o hosp\u00edcio \u2013 disse Duende, um goiano vermelho e mi\u00fado, que s\u00f3 usava camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho, mesmo sob o calor de quarenta e cinco graus. Tr\u00eas dias depois, houve um corre-corre na Casa Velha. Apareceram quatro enfermeiros, meteram o Padre numa camisa de for\u00e7a e sumiram. Naquela noite, encontrei-me com Duende e lhe perguntei como \u00e9 que ele sabia do internamento de Padre.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Ele andava de camisas de mangas compridas abotoadas nos punhos e no colarinho em pleno sol de meio-dia \u2013 disse.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Fui a \u00faltima pessoa a falar com Duende, que vivia sozinho em um quarto grande da Casa Velha. Como tivesse perdido a chave da porta, entrava no quarto por meio de um buraco na janela, vedado com um peda\u00e7o de compensado. Duende desaparecera j\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas dias. Naquela manh\u00e3, seu Miguer, o faxineiro esqu\u00e1lido, vislumbrou por uma brecha na janela um movimento qualquer no quarto de Duende. Olhou melhor e viu uma ratazana agarrada a uma perna. Apurou o olhar e distinguiu um homem enforcado, com ratazanas aqui e ali no corpo, especialmente na cara. Seu Miguer emitiu um guincho semelhante ao de seus irm\u00e3os roedores e deu o alarme. Foi uma perda para Rei Momo, j\u00e1 que Duende costumava manter discuss\u00f5es quilom\u00e9tricas com Rei Momo sobre Khrisnamurt, de quem lera todos os livros. Ironicamente, Khrisnamurt era sua ansiedade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando eu n\u00e3o estava na Ceup, estava na universidade. Tive uma professora gorda como uma vaca que promovia debates sobre marxismo sem jamais ter lido <em>O Capital<\/em>. Vivia com uma aluna magrinha, que a gorda agarrava nos corredores da faculdade e lhe aplicava beijos escandalosos. Durante tr\u00eas semestres vi-me perseguido por um professor de t\u00e9cnica de alguma coisa, homossexual, coxo, com uma n\u00e1dega seca e analfabeto. Um dia, no banheiro, segurei-o pelo cabelo e o fiz beber \u00e1gua do vaso sanit\u00e1rio. Um santo rem\u00e9dio. Outro mestre inesquec\u00edvel foi um idiota nascido no Piau\u00ed, educado em Goi\u00e1s e doutorado numa dessas universidades perdidas nas estradas dos Estados Unidos. O tipo lecionava uma disciplina chamada Estudos de Problemas Brasileiros. Suas aulas eram, invariavelmente, um elogio \u00e0s obras fara\u00f4nicas dos ditadores militares. \u00c0 noite, livrava-me de tudo aquilo com um bom gole de gim fizz no Cosa Nostra, por conta da casa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Rei Momo morreu no Natal daquele derradeiro ano de minha perman\u00eancia na Ceup. Caiu como um passarinho baleado diante da parede nua do quarto, onde sempre estivera seu tesouro. Rei Momo era um ladr\u00e3o de livro. Possu\u00eda uma pilha de dois mil volumes. Ao mudar-me para o quarto dele tive de colocar Sequoia em ordem. Sequoia chegou a dar uma surra de cinto em Rei Momo. Mas eu ainda n\u00e3o morava na Ceup. Eu era pugilista amador e sempre que podia estava l\u00e1 com a turma da Joe Louis. Acabei com Sequoia apenas com um tabefe na cara. Ele n\u00e3o revidou. Ficou se cagando de medo. Ent\u00e3o, deixou Rei Momo em paz. Eu gostava de conversar com Rei Momo, que levava uma vida de rei, mesmo. Matriculava-se em uma \u00fanica disciplina na universidade e fazia de conta que estava estudando. Sua fam\u00edlia o mantinha ali porque o consideravam retardado mental. Ele n\u00e3o se importava. Recebia uma mesada relativamente gorda. Consumia suas tardes conversando fiado nas bancas de tacac\u00e1 e com os vigias das redondezas. Pois bem, Sequoia mudou-se. Aproveitou para dar um golpe fatal em Rei Momo. Na madrugada daquele Natal, ao entrar no tug\u00fario onde nos enterr\u00e1vamos, Rei Momo encontrou um bilhete pregado com fita Durex na parede nua onde sempre estiveram os livros, a primeira coisa que Rei Momo checava ao entrar no quarto. \u201cAgradecido pelo livros, bicha louca\u201d \u2013 dizia o bilhete.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Voc\u00eas sabem como Ernest Hemingway morreu? Segundo Milt Machlin, no livro <em>O Inferno Privado de Hemingway<\/em>, era cedo da manh\u00e3. \u201cDesceu \u00e0 sala de armas e tirou do arm\u00e1rio uma de suas espingardas favoritas, uma Angelini e Bernardon calibre doze, fabricada especialmente para ele. Era uma bela arma, e ele sempre a tratava com a rever\u00eancia de um objeto religioso. Carregou-a com dois cartuchos, depois meteu os dois canos na boca e puxou os gatilhos ao mesmo tempo.\u201d Houve um tempo em que pensei matar-me. Possu\u00eda \u2013 e isto era uma das minhas pequenas riquezas \u2013 uma pistola, a PT 58, da Taurus. Se eu quisesse me suicidar como Hemingway teria de p\u00f4r a boca do cano no c\u00e9u da boca, de modo que a bala atravessasse o c\u00e9rebro. A gente n\u00e3o sente nada. Os que ficassem, logo me esqueceriam. Como minha fam\u00edlia \u00e9 de Oiapoque e muito pobre eu seria enterrado como indigente e, assim, desapareceria sem deixar rastro. Cheguei a cogitar isso na \u00e9poca em que aquela cadela, aquela \u00edndia duma figa, galinha do caralho, me empurrou de volta para a sarjeta, depois de quase um ano principesco. Mas agora sou grato a ela. Ajudou bastante. E depois somente n\u00f3s temos a responsabilidade pelo que passamos. Antes de conhecer Celina, estivera sentado em uma cadeira olhando para uma parede. A sorte \u00e9 que ouvia Wolfgang Amadeus Mozart.\u00a0<em>Concerto para Piano e Orquestra em R\u00e9 Menor<\/em>. Para al\u00e9m da parede, h\u00e1 um anoitecer azul. Azul escuro. Peguei meu canivete italiano, outra joia que possuo, e vibrei contra o c\u00e9u. O sangue escorreu pelo corte. E o azul intenso respingou mim. Atravessei o port\u00e3o da Ceup e tomei pela Rua S\u00e3o Francisco e depois pela Avenida Almirante Tamandar\u00e9 at\u00e9 a Avenida Presidente Vargas. Sentei-me em um banquinho no Milano e pedi uma Antarctica pequena. \u201cComo vou desforrar!\u201d \u2013 pensei, pois acabara de conseguir uma vaga em\u00a0<em>O Liberal<\/em>. J\u00e1 tinha renda garantida, agora. S\u00f3 precisava escrever um romance que vendesse como\u00a0<em>Cem anos de solid\u00e3o<\/em>, como p\u00e3o franc\u00eas. Ent\u00e3o compraria um iate para vagabundar por toda a Amaz\u00f4nia e o Caribe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em recente entrevista \u00e0 jornalista\u00a0Arilda Costa McClive para o\u00a0Brazilian Times, ela perguntou: Como voc\u00ea descreve o seu processo criativo? \u00c9 um processo solit\u00e1rio ou voc\u00ea se inspira em intera\u00e7\u00f5es com outras pessoas e lugares? Resposta: Como dizia Hemingway, o escritor \u00e9 como um pugilista no ringue. No tablado, o boxeador s\u00f3 depende dele mesmo. 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