{"id":376454,"date":"2026-01-04T01:15:56","date_gmt":"2026-01-04T04:15:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376454"},"modified":"2025-12-26T13:21:39","modified_gmt":"2025-12-26T16:21:39","slug":"cora-coralina-a-poeta-que-estreou-de-avental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cora-coralina-a-poeta-que-estreou-de-avental\/","title":{"rendered":"CORA CORALINA, A POETA QUE ESTREOU DE AVENTAL"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 escritores que chegam ao mundo com uma biografia de vitrine: caf\u00e9s, manifestos, pr\u00eamios precoces, a pose pronta para a fotografia. Cora Coralina vem do outro corredor da casa, aquele que passa pela cozinha, pelo quintal, pelo tacho no fogo, pela rua estreita que a cidade oficial chama de beco como quem diminui, sem entender que ali cabem mundos. Seu \u201clado B\u201d n\u00e3o \u00e9 um subterr\u00e2neo: \u00e9 o lugar real onde a vida acontece quando ningu\u00e9m est\u00e1 aplaudindo.<\/p>\n<p>Cora Coralina \u00e9 o nome liter\u00e1rio de Ana Lins de Guimar\u00e3es Peixoto Bretas, nascida na Cidade de Goi\u00e1s em 20 de agosto de 1889, filha de um velho desembargador da prov\u00edncia da &#8220;Parahyba do Norte&#8221;, e falecida em Goi\u00e2nia em 10 de abril de 1985. E h\u00e1, j\u00e1 nesse gesto de se renomear, uma pista do que ela faria com o idioma: a autora que poderia ter sido apenas \u201cmais uma Ana\u201d escolhe ser Cora e, segundo registro institucional goiano, ela mesma explicava o pseud\u00f4nimo como uma esp\u00e9cie de s\u00edntese afetiva e crom\u00e1tica: \u201cCora\u201d ligado a cora\u00e7\u00e3o, \u201cCoralina\u201d ligado ao vermelho, como se o nome inteiro carregasse um \u201ccora\u00e7\u00e3o vermelho\u201d pulsando na assinatura. \u00c9 uma curiosidade que vale menos como etimologia rigorosa e mais como retrato: Cora queria um nome que soasse vivo, caseiro e essencial, um nome que j\u00e1 viesse com um quintal dentro.<\/p>\n<p>O mais espantoso, por\u00e9m, \u00e9 que essa autora que hoje parece inevit\u00e1vel, dessas que a gente l\u00ea como se sempre tivessem existido na estante do pa\u00eds, passou d\u00e9cadas escrevendo sem a consagra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de \u201cescritora\u201d. Come\u00e7ou cedo, ainda adolescente, mas viveu longe dos grandes centros e das modas liter\u00e1rias, e atravessou a vida como atravessam tantos: trabalhando, sustentando casa, negociando tempo com a urg\u00eancia do cotidiano. A biografia costuma fix\u00e1-la como \u201cdoceira\u201d, e a palavra \u00e0s vezes aparece como enfeite pitoresco; s\u00f3 que, lida com aten\u00e7\u00e3o, ela funciona como chave est\u00e9tica. Cora foi doceira, sim, e o seu verso aprende com esse of\u00edcio a paci\u00eancia da calda, o ponto exato do gesto, a sabedoria de quem sabe que o tempo tamb\u00e9m cozinha.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a estreia editorial dela tem gosto de paradoxo e de den\u00fancia: o primeiro livro, <em>Poemas dos Becos de Goi\u00e1s e Est\u00f3rias Mais<\/em>, sai em 1965, quando ela j\u00e1 tinha quase 76 anos. O pa\u00eds, atrasado para o pr\u00f3prio encontro, levou uma vida inteira para perceber que ali havia uma voz grande demais para caber no r\u00f3tulo de \u201csimplicidade\u201d. Porque a simplicidade de Cora n\u00e3o \u00e9 falta de t\u00e9cnica; \u00e9 escolha de foco. Ela n\u00e3o escreve para enfeitar o mundo, mas para revelar o que o mundo varre para baixo do tapete: a gente comum, as mulheres sem pedestal, o interior sem caricatura, as ruas pequenas com seus dramas enormes.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o acontece aquela virada quase cinematogr\u00e1fica que a hist\u00f3ria liter\u00e1ria adora, e que observo com uma ponta de ironia: em 1979, Cora recebe uma carta de Carlos Drummond de Andrade, que tomara contato com sua obra e, a partir dali, assume para si a tarefa de apresent\u00e1-la ao Brasil. H\u00e1 quem conte esse epis\u00f3dio como se a autora precisasse de um carimbo masculino para existir, e h\u00e1 algo de verdade nisso, porque o c\u00e2none tamb\u00e9m \u00e9 uma alf\u00e2ndega. Mas h\u00e1, sobretudo, uma injusti\u00e7a a ser nomeada: Drummond n\u00e3o cria Cora, somente abre a janela que o pa\u00eds insistia em manter fechada. No ano seguinte, 1980, ele escreve sobre ela em espa\u00e7o jornal\u00edstico, ajudando a ampliar esse alcance nacional. A consagra\u00e7\u00e3o, nesse caso, n\u00e3o \u00e9 o surgimento de uma poeta; \u00e9 o atraso de um reconhecimento.<\/p>\n<p>Como se a obra pedisse um endere\u00e7o, o mito de Cora tamb\u00e9m tem casa e n\u00e3o \u00e9 met\u00e1fora. A chamada Casa Velha da Ponte, ligada \u00e0 sua mem\u00f3ria \u00e0s margens do Rio Vermelho, foi constru\u00edda por volta de 1770 e hoje integra o circuito de preserva\u00e7\u00e3o e visita\u00e7\u00e3o associado \u00e0 autora. \u00c9 bonito, e profundamente coerente, que a literatura dela tenha paredes, assoalho, objeto, janela: Cora escreve como quem guarda, e a casa guarda como quem escreve. A cidade, o beco, o quintal e o fog\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o \u201ctemas\u201d, s\u00e3o a gram\u00e1tica de uma experi\u00eancia que o Brasil costuma considerar menor at\u00e9 perceber, tarde demais, que o \u201cmenor\u201d era apenas o seu pr\u00f3prio olhar.<\/p>\n<p>No fim, Cora Coralina encarna uma pergunta inc\u00f4moda: quantas Coras ficam pelo caminho porque a vida real n\u00e3o combina com a imagem oficial de escritor? A obra dela responde sem discurso e sem pose, responde com aquilo que parece pequeno e, de repente, se revela inteiro. Cora n\u00e3o precisou abandonar o cotidiano para ser grande, mas fez o oposto: transformou o cotidiano na medida exata da grandeza.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 escritores que chegam ao mundo com uma biografia de vitrine: caf\u00e9s, manifestos, pr\u00eamios precoces, a pose pronta para a fotografia. 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