{"id":376581,"date":"2025-12-29T01:00:25","date_gmt":"2025-12-29T04:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376581"},"modified":"2025-12-27T10:31:25","modified_gmt":"2025-12-27T13:31:25","slug":"as-maos-que-deus-esqueceu-de-recolher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/as-maos-que-deus-esqueceu-de-recolher\/","title":{"rendered":"As m\u00e3os que Deus esqueceu de recolher"},"content":{"rendered":"<p>No interior ainda h\u00e1 ruas que o asfalto n\u00e3o ousou pisar. S\u00e3o de terra vermelha, poeira que sobe como incenso quando passa um carro. Nessas ruas, \u00e0 tardinha, o cheiro \u00e9 de lenha queimando, caf\u00e9 torrado no fundo do quintal e um perfume mais antigo, de arruda, alecrim e guin\u00e9, que vem das casas de porta aberta onde moram elas: as benzedeiras e as parteiras, \u00faltimas sacerdotisas de um tempo que a medicina moderna acha que matou, mas s\u00f3 adormeceu.<\/p>\n<p>Dona Maria Jos\u00e9 tem oitenta e sete anos e as costas tortas de tanto abaixar para pegar crian\u00e7a no ch\u00e3o de barro. Quando chega numa casa onde a mulher est\u00e1 de c\u00f3coras, gemendo, ela n\u00e3o pergunta se j\u00e1 chamou o m\u00e9dico. Entra calada, acende uma vela para Nossa Senhora do Bom Parto, enrola o ter\u00e7o no pulso esquerdo e p\u00f5e a chaleira no fogo. A \u00e1gua quente \u00e9 para o umbigo do rec\u00e9m-nascido, para o ch\u00e1 de erva-cidreira da m\u00e3e, para lavar as m\u00e3os que v\u00e3o fazer o milagre sem luva, sem anestesia, s\u00f3 com f\u00e9 e sabedoria de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>As m\u00e3os dela s\u00e3o mapas. Cada ruga \u00e9 um rio por onde j\u00e1 passou um parto dif\u00edcil, um quebranto, uma dor de amor que ningu\u00e9m explica. Quando ela benze, a voz sai rouca, quase canto:<\/p>\n<p>&#8220;Quebrante, mau-olhado, inveja alheia,<br \/>\nvai-te embora pra onde o galo n\u00e3o canta<br \/>\ne a galinha n\u00e3o bota.<br \/>\nEm nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo,<br \/>\neu te tiro e te mando pra onda do mar.&#8221;<\/p>\n<p>A crian\u00e7a que chora de c\u00f3lica para no mesmo instante em que Dona Maria Jos\u00e9 sopra tr\u00eas vezes na moleira. Ningu\u00e9m sabe explicar. Nem ela. S\u00f3 diz: &#8220;Deus sopra por minha boca.&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 Dona Lurdes, parteira de olhos verdes que ningu\u00e9m sabe de onde vieram, pega crian\u00e7a com a mesma calma com que pega manga no p\u00e9. &#8220;Respira junto com a m\u00e3e, conta at\u00e9 dez em voz baixa, como quem reza o ter\u00e7o da vida. Quando a cabe\u00e7a coroando aparece, ela sorri:<\/p>\n<p>&#8220;Olha ela a\u00ed, j\u00e1 querendo ver o mundo, teimosa que nem a m\u00e3e.&#8221;<\/p>\n<p>E o choro do beb\u00ea rompe a noite como sino novo. A placenta vai pro fundo do quintal, enterrada com uma muda de \u00e1rvore frut\u00edflia. &#8220;Pra crian\u00e7a nunca passar fome&#8221;, explica. Ningu\u00e9m discute.<\/p>\n<p>Elas n\u00e3o cobram. Aceitam o que a fam\u00edlia pode dar: um litro de leite, uma d\u00fazia de ovos, um bolo de fub\u00e1 embrulhado em pano de prato. Dinheiro, s\u00f3 se insistirem muito, e mesmo assim guardam num vidro de nescau para comprar linha de costura ou vela para o altar. Riqueza delas \u00e9 outra: \u00e9 o nome gritado na madrugada adentro, \u00e9 a porta batida \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3, \u00e9 o &#8220;Gra\u00e7as a Deus e \u00e0 senhora&#8221; que acompanha a gente a vida inteira.<\/p>\n<p>Hoje falam que elas s\u00e3o coisa do passado. Que a ci\u00eancia chegou. Mas quando o hospital fica a sessenta quil\u00f4metros de estrada ruim, quando o SUS marca cesariana pra daqui a tr\u00eas meses, quando o beb\u00ea resolve nascer de c\u00f3coras no meio da cozinha, quem aparece \u00e9 ela, de chinelo de dedo e ter\u00e7o no bolso, com a bolsa de pano cheia de ervas e coragem.<\/p>\n<p>Eu vi Dona Maria Jos\u00e9, j\u00e1 quase cega, benzendo uma mo\u00e7a que m\u00e9dicos tinham desenganado. Tr\u00eas dias depois a mo\u00e7a andava pelo terreiro carregando o filho nos bra\u00e7os. Ningu\u00e9m gravou, ningu\u00e9m explicou. S\u00f3 ficou o cheiro de arruda no ar e uma certeza quieta: tem coisa que o diploma n\u00e3o alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>Elas est\u00e3o indo embora, uma a uma. Enterram-nas com ramos de manjeric\u00e3o no caix\u00e3o, porque &#8220;o cheiro sobe logo pro c\u00e9u&#8221;. E a gente fica aqui, \u00f3rf\u00e3o de m\u00e3os que sabiam fazer o que a t\u00e9cnica esqueceu: trazer vida e tirar dor com o mesmo gesto antigo.<\/p>\n<p>Quando a \u00faltima parteira fechar os olhos, o mundo vai ficar mais pobre de milagres pequenos. Mas enquanto houver uma av\u00f3 que guarde no ba\u00fa a ora\u00e7\u00e3o da av\u00f3 dela, enquanto houver uma mulher que, na hora do aperto, murmure &#8220;Nossa Senhora do Bom Parto, valei-me&#8221;, elas n\u00e3o morrem de todo.<\/p>\n<p>Continuam vivendo nas nossas veias, no nosso medo, na nossa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>E, nas noites de lua cheia, quando o vento traz cheiro de alecrim do nada, a gente sabe: \u00e9 ela passando, de leve, benzendo a gente sem a gente pedir.<\/p>\n<p>Porque m\u00e3o de benzedeira e parteira \u00e9 assim:<\/p>\n<p>Deus esqueceu de recolher quando subiu pro c\u00e9u.<\/p>\n<p>Deixou aqui, pra cuidar da gente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No interior ainda h\u00e1 ruas que o asfalto n\u00e3o ousou pisar. S\u00e3o de terra vermelha, poeira que sobe como incenso quando passa um carro. 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