{"id":376636,"date":"2025-12-28T04:23:23","date_gmt":"2025-12-28T07:23:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376636"},"modified":"2025-12-28T04:24:26","modified_gmt":"2025-12-28T07:24:26","slug":"o-dia-em-que-amarildo-caiu-e-pagou-a-conta-do-paco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-dia-em-que-amarildo-caiu-e-pagou-a-conta-do-paco\/","title":{"rendered":"O dia em que Amarildo caiu e pagou a conta do paco"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o havia sido um dia de sono restaurador para Amarildo Teixeira. A periodontite o torturava, de modo que passou o dia em claro. Foi trabalhar azedo. Era gar\u00e7om no Chor\u00e3o da Asa Norte.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">L\u00e1 pelas seis horas da tarde apareceu uma cliente, uma senhora elegante, trajada com sapatos altos de couro preto, meias e vestido tamb\u00e9m pretos. Bonita, de belos cabelos negros, quase longos, era patente que estivesse de luto, pois acumulava duas alian\u00e7as no dedo anelar esquerdo. Pediu o card\u00e1pio e passado um momento perguntou se a caldeirada de frutos do mar dava para duas pessoas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0D\u00e1 para quatro, senhora \u2013 informou o gar\u00e7om Amarildo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0Traga, ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0E para beber?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0Nada. Fico sempre muito cheia quando bebo alguma coisa durante o jantar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Naquela hora n\u00e3o havia quase ningu\u00e9m no Chor\u00e3o. Estava tudo silencioso e agrad\u00e1vel. Tudo bem arrumadinho, \u00e0 espera da turba que n\u00e3o demoraria a chegar noite afora. Depois que o gar\u00e7om Amarildo serviu a caldeirada de frutos do mar p\u00f4s-se a observar a mulher. Estava desconfiado de alguma coisa. N\u00e3o sabia bem de qu\u00ea. Ela pediu bastante p\u00e3o franc\u00eas e Amarildo serviu-lhe quatro p\u00e3es. Um, ela comeu em um rel\u00e2mpago. O impressionante \u00e9 que a caldeirada dava mesmo para quatro pessoas normais e ainda sobrava. Era uma terrina enorme, cheia de um caldo cheiroso e saboroso com grandes peda\u00e7os de peixe, moluscos e toda sorte de crust\u00e1ceos. Amarildo Teixeira n\u00e3o acreditou no que viu quando ela o chamou para pedir a sobremesa. A terrina estava seca, o arroz e o pir\u00e3o foram devorados e os p\u00e3es sumiram.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0Queijo com goiabada! \u2013 ela disse.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O gar\u00e7om Amarildo ficou confuso. Foi buscar a sobremesa. Quando voltou, a bela vi\u00fava sumira. Amarildo correu para a rua e ainda p\u00f4de ver o vulto na esquina, iluminado pelas primeiras luzes da noite. N\u00e3o pensou duas vezes. Saiu no seu encal\u00e7o. Ao alcan\u00e7ar a esquina, a mulher estava \u00e0 sua espera e atirou-lhe uma pedra na cabe\u00e7a. O gar\u00e7om escorregou e caiu. Levantou-se. Ela desaparecera. Amarildo Teixeira voltou para o restaurante. A pedra lhe fez um galo. \u201cAinda bem que n\u00e3o foi na testa\u201d \u2013 pensou, apalpando o calombo no lado da cabe\u00e7a. \u201cN\u00e3o vou nem contar essa. Ningu\u00e9m vai acreditar. \u00c9 melhor n\u00e3o contar. O pior \u00e9 que eu vou ter que pagar a conta daquele animal; me deu o cano e quase quebra minha cabe\u00e7a. Como \u00e9 que pode?\u201d<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">De volta ao Chor\u00e3o, Amarildo Teixeira foi ao banheiro. Muita gente havia chegado e o gerente estivera atr\u00e1s do gar\u00e7om. Quando Amarildo saiu do banheiro havia um sujeito em uma das mesas de sua responsabilidade. Um sujeito grandalh\u00e3o, um verdadeiro mastodonte, olhando atentamente o card\u00e1pio. Aproximou-se cautelosamente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0Escute aqui, meu jovem, esta caldeirada de frutos do mar d\u00e1 para duas pessoas? \u2013 perguntou.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0D\u00e1 para quatro \u2013 disse Amarildo Teixeira.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0Quero uma. Traga logo uns p\u00e3ezinhos at\u00e9 chegar a caldeirada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que esse cara saia correndo tamb\u00e9m. N\u00e3o acredito! At\u00e9 porque n\u00e3o aguentaria correr com esse corpanzil\u201d \u2013 pensou Amarildo, levando quatro p\u00e3es franceses para o fregu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0Putz, \u00f4 meu, s\u00f3 isto? Traga uns dez\u00a0\u2013\u00a0pediu-lhe o homem, passando manteiga em um deles e comendo-o em duas bocadas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Amarildo Teixeira serviu a terrina de caldeirada olhando fascinado para o homem. \u201c\u00c9 um animal de bruta ra\u00e7a\u201d \u2013 pensou.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O fregu\u00eas era bom de boca. Em pouco tempo n\u00e3o restava mais nada na mesa que pudesse ser comido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0\u00d4, meu, queijo com goiabada!\u00a0\u2013\u00a0disse o homenzarr\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O gar\u00e7om Amarildo foi buscar o que o sujeito pedira. Serviu a sobremesa; o tipo devorou-a em segundos e pediu outra. Ap\u00f3s comer quatro por\u00e7\u00f5es de queijo com goiabada o gajo n\u00e3o deu tempo para nada. Ergueu-se subitamente da mesa e partiu para a porta, ganhou a rua e correu em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Avenida W3 Norte, com Amarildo Teixeira atr\u00e1s. Mas o fregu\u00eas tinha f\u00f4lego de peso pesado. Alcan\u00e7ou facilmente o cal\u00e7ad\u00e3o da W3 Norte, onde estacou abruptamente. Amarildo aproximou-se dele e recebeu um cascudo na cabe\u00e7a que o fez cambalear e cair. Levantou-se e retrocedeu. O brutamontes partiu para cima dele. Alcan\u00e7ou-o e lhe deu uma rasteira, fazendo o gar\u00e7om se acabar na cal\u00e7ada. Levantou-se \u00e0s pressas e correu o quanto p\u00f4de para o Chor\u00e3o. Quando se sentiu em seguran\u00e7a olhou para tr\u00e1s e viu o mastodonte atravessando lentamente a W3 Norte. Olhou para si e viu que ficara bastante estragado.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u2013\u00a0Aquele desgra\u00e7ado quebrou a minha cabe\u00e7a s\u00f3 com um cascudo. Acho que tinha um peda\u00e7o de ferro na m\u00e3o. Agora vou ter que pagar duas caldeiradas de frutos do mar e mais quatro sobremesas\u00a0\u2013\u00a0choramingou.\u00a0\u2013\u00a0A melhor coisa que eu fa\u00e7o \u00e9 ir embora para casa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas Amarildo n\u00e3o p\u00f4de ir embora, pois faltaram tr\u00eas colegas seus e na sua ala havia dois esgalamidos querendo caldeirada de frutos do mar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u201cDroga, droga, droga\u201d \u2013 disse de si para si, e foi buscar a primeira terrina, decidido a n\u00e3o correr mais atr\u00e1s de ningu\u00e9m, nem que tivesse que pagar a conta com sua poupan\u00e7a na Caixa Econ\u00f4mica Federal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o havia sido um dia de sono restaurador para Amarildo Teixeira. A periodontite o torturava, de modo que passou o dia em claro. Foi trabalhar azedo. Era gar\u00e7om no Chor\u00e3o da Asa Norte. 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