{"id":376687,"date":"2025-12-29T01:15:26","date_gmt":"2025-12-29T04:15:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376687"},"modified":"2025-12-29T02:09:27","modified_gmt":"2025-12-29T05:09:27","slug":"ar-que-nao-chega-verao-e-desigualdade-no-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ar-que-nao-chega-verao-e-desigualdade-no-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"AR QUE N\u00c3O CHEGA: VER\u00c3O E DESIGUALDADE NO RIO DE JANEIRO"},"content":{"rendered":"<p>O Rio de Janeiro tem dessas coisas: a cidade amanhece bonita, com aquela luz de cart\u00e3o-postal, e ainda assim voc\u00ea sente que h\u00e1 um acordo secreto entre o c\u00e9u e o asfalto para fritar o restante do dia. Quase in\u00edcio de 2026, ver\u00e3o em modo de exagero, e o calor n\u00e3o se comporta mais como clima. Virou personagem central. Ele entra sem pedir licen\u00e7a, senta na sala, abre a geladeira e, antes de ir embora, deixa a porta escancarada s\u00f3 para lembrar quem manda.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, o sol parece um vizinho inconveniente que decide fazer obra cedo. N\u00e3o d\u00e1 para reclamar, porque a reclama\u00e7\u00e3o evapora na garganta. A rua inteira fica com aquele cheiro de pedra quente e escapamento, mistura de cidade trabalhando e cidade cozinhando. O corpo vira uma superf\u00edcie: tudo sua, tudo gruda, tudo se irrita. As roupas n\u00e3o s\u00e3o mais roupa, mas castigo que fazem lembrar a sabedoria de nossos antigos antepassados, povos origin\u00e1rios, que usavam nenhuma. E ainda \u00e9 cedo.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 de noite que o Rio mostra sua crueldade mais \u00edntima.<\/p>\n<p>O calor noturno \u00e9 uma esp\u00e9cie de maldade silenciosa. Durante o dia, pelo menos, existe um \u00e1libi: voc\u00ea se mexe, pega um \u00f4nibus, procura uma sombra, inventa um canto de vento. \u00c0 noite, n\u00e3o. \u00c0 noite a gente devia receber como pr\u00eamio um m\u00ednimo de al\u00edvio, uma tr\u00e9gua de natureza, um \u201cboa-noite\u201d do mundo. S\u00f3 que o mundo responde com uma gargalhada abafada. O quarto vira uma panela tampada. A janela, quando existe, d\u00e1 para um corredor de ar morto. O ventilador faz barulho de helic\u00f3ptero cansado e sopra o mesmo ar quente, como se algu\u00e9m tivesse assoprado de volta a respira\u00e7\u00e3o do dia.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que a desigualdade, essa velha conhecida do Rio, chega sem met\u00e1fora: ela entra pelo calor.<\/p>\n<p>Quem tem ar-condicionado n\u00e3o entende a noite como batalha. Aperta um bot\u00e3o e transforma o pr\u00f3prio sono numa pequena vit\u00f3ria dom\u00e9stica. Quem tem casa arejada, \u00e1rvore por perto, janela para o alto, ainda consegue negociar com a temperatura \u2014 um banho antes de deitar, um len\u00e7ol leve, um ventilador bem posicionado, uma esperan\u00e7a. Mas o povo mais humilde, espremido nas favelas, em apartamentos pequenos, casas de laje, quartos que d\u00e3o para paredes, sabe que o calor n\u00e3o se discute: ele se cumpre.<\/p>\n<p>E o problema \u00e9 que refrescar custa caro.<\/p>\n<p>Custa dinheiro para comprar o ar-condicionado, custa mais dinheiro ainda para instalar, custa um susto mensal na conta de luz e custo, no fim, \u00e9 s\u00f3 outra palavra para \u201cn\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea\u201d. Para muita gente, o ver\u00e3o \u00e9 a esta\u00e7\u00e3o do \u201cdepois eu vejo\u201d, o tempo do improviso: uma bacia no ch\u00e3o para molhar os p\u00e9s, toalha \u00famida no pesco\u00e7o, garrafa d\u2019\u00e1gua congelada abra\u00e7ada como se fosse bicho de pel\u00facia, banho de caneca porque o chuveiro nem sempre \u00e9 generoso. Tem quem durma na sala, perto da porta, esperando um vento que n\u00e3o vem. Tem quem leve a cadeira para a cal\u00e7ada, porque o lado de fora, apesar dos mosquitos, ainda \u00e9 mais respir\u00e1vel do que o lado de dentro. E tem quem encare a madrugada como quem faz plant\u00e3o: acorda, vira, levanta, bebe \u00e1gua, se abana, senta, deita, torna a acordar. Um bal\u00e9 de movimentos pequenos para n\u00e3o enlouquecer.<\/p>\n<p>A cidade, enquanto isso, continua funcionando como se estivesse tudo normal. O calor faz parte da paisagem, dizem. \u201cSempre foi assim\u201d, repetem, como se a mem\u00f3ria fosse uma desculpa. Mas as noites parecem mais longas, mais pegajosas, mais sem sa\u00edda. E o corpo cansado de trabalhar o dia inteiro n\u00e3o encontra descanso: encontra mais uma tarefa. Dormir vira esfor\u00e7o. O sono vira privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Na comunidade, no sub\u00farbio, nos cantos em que a cidade se esquece de ser maravilhosa, o ver\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 desconforto; \u00e9 risco. Crian\u00e7a inquieta, idoso debilitado, gente com press\u00e3o oscilando, gente sem \u00e1gua suficiente, gente que n\u00e3o pode abrir a janela por medo ou por barulho, gente que acorda para o trabalho com a cabe\u00e7a latejando porque a noite foi um forno. E, ao mesmo tempo, ningu\u00e9m deixa de viver. A vida n\u00e3o espera o clima melhorar. A vida, no Rio, \u00e9 teimosa, \u00e9 brava. A vida, improv\u00e1vel, aprende a se virar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma cena que se repete nessas noites: a rua com gente na porta, conversas mi\u00fadas, risos curtos, uma televis\u00e3o vazando som por alguma janela, o cachorro estirado no ch\u00e3o, o ventilador l\u00e1 dentro rodando como se tentasse mover o mundo. E ali, entre uma frase e outra, o calor vira assunto e vira cumplicidade, porque falar dele \u00e9 quase um jeito de dividir o peso. \u201cT\u00e1 brabo hoje.\u201d \u201cHoje t\u00e1 de matar.\u201d \u201cE amanh\u00e3 dizem que piora.\u201d As palavras s\u00e3o simples, mas carregam uma pergunta escondida: at\u00e9 quando? Mar\u00e7o, abril&#8230;<\/p>\n<p>O ver\u00e3o, escaldante indigitado, tem esse gosto de perman\u00eancia, como se a esta\u00e7\u00e3o tivesse decidido n\u00e3o ir mais embora. E, no meio disso, os cariocas seguem inventando pequenas formas de frescor, como quem inventa pequenas formas de esperan\u00e7a. Um gelo que dura poucos minutos. Um banho que alivia por meia hora. Um vento que aparece e desaparece como artigo raro. Um cochilo, enfim, conquistado de madrugada, quando o corpo desiste de lutar e se entrega, n\u00e3o por conforto, mas por necessidade.<\/p>\n<p>E eu penso que o Rio, t\u00e3o acostumado a se narrar em beleza, devia, \u00e0s vezes, se narrar em temperatura. Porque tem uma parte da cidade que n\u00e3o est\u00e1 simplesmente \u201csentindo calor\u201d: est\u00e1 atravessando o calor como se atravessa uma dificuldade a mais, di\u00e1ria, invis\u00edvel, desigual. A mesma cidade que vende brisa em an\u00fancio tur\u00edstico, para muitos apenas entrega dias imposs\u00edveis e noites t\u00f3rridas.<\/p>\n<p>No fim, o calor passa. Sempre passa, ainda que devagar. Mas ele deixa uma pergunta grudada na pele: quem tem direito ao al\u00edvio? Porque, no Rio de Janeiro, at\u00e9 o frescor parece ter CEP.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Rio de Janeiro tem dessas coisas: a cidade amanhece bonita, com aquela luz de cart\u00e3o-postal, e ainda assim voc\u00ea sente que h\u00e1 um acordo secreto entre o c\u00e9u e o asfalto para fritar o restante do dia. 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