{"id":376785,"date":"2025-12-30T00:30:53","date_gmt":"2025-12-30T03:30:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376785"},"modified":"2025-12-29T01:00:56","modified_gmt":"2025-12-29T04:00:56","slug":"a-magnifica-mansao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-magnifica-mansao\/","title":{"rendered":"A magn\u00edfica mans\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Ele acordou com ela dormindo a seu lado, quente e doce como uma prenda do universo. Ouviu-a respirar suavemente e sentiu uma gota de mel caindo em leite.<\/p>\n<p>Levantou-se da cama e vestiu-se apressadamente. Precisava de falar. Todo aquele sil\u00eancio de uma noite passada simplesmente a tentar sonhar ou a ficar inconsciente num sono m\u00e1gico que via passar as horas inquietava-o.<\/p>\n<p>Deu-lhe um beijo bem vermelho nos seus l\u00e1bios macios e saiu pela porta, at\u00e9 logo, disse apressado.<\/p>\n<p>Ao entrar no autom\u00f3vel lembrou-se perfeitamente onde tinha de ir, \u00e0 magn\u00edfica mans\u00e3o bem no alto do monte do rio Ol, l\u00e1 no cimo da cidade.<\/p>\n<p>Haveria de falar com algu\u00e9m que o tirasse daquele nervosismo existencial, daquela \u00e2nsia de ter dizer o que sabia, de ter de dizer tudo o que sabia\u2026<\/p>\n<p>As ruas da cidade passavam pelos vidros do autom\u00f3vel como cen\u00e1rios familiares, como lugares comuns na sua consci\u00eancia de ser o espa\u00e7o imerso naqueles cen\u00e1rios familiares que passavam lentos pelos vidros do autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>Parecera-lhe que tinha sonhado tudo aquilo h\u00e1 seculos atr\u00e1s e que agora apenas existia ali, naquele lugar, para confirmar o sonho daquela cidade, daqueles cen\u00e1rios, daquelas pessoas para ele an\u00f3nimas que passavam como figurantes no teatro aberto do universo.<\/p>\n<p>O sol batia quente no asfalto, nas casas e nas ruas.<\/p>\n<p>Era um Ver\u00e3o incandescente deveras, um dos mais quentes que foram sentidos naquela \u00e1rea desde que havia mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mem\u00f3ria? O que seria a mem\u00f3ria sen\u00e3o uma viagem de novo contada, registada para dizer o que j\u00e1 foi dito eras atr\u00e1s e no futuro dito outra vez.<\/p>\n<p>Sentia-se desesperado.<\/p>\n<p>\u2026Uma ang\u00fastia de ter de viver naquele s\u00e9culo, de ter de ter um papel naquele s\u00e9culo, de deixar apagar um a um os seus chacras em nome de uma cultura que lhe dava a mem\u00f3ria e a identidade, que lhe dava o que tinha de pensar todos os dias nos m\u00e9dia cada vez mais impertinentes e obscenos, r\u00e1pidos e redundantes, que lhe sa\u00edam do r\u00e1dio do carro, da internet mega r\u00e1pida, dos livros reescritos mil vezes com novas palavras dizendo apenas coisas velhas, dos ecr\u00e3s de cinema e de televis\u00e3o cada vez mais publicit\u00e1rios apenas vendendo, pessoas, marcas, pol\u00edticas, medos, fabricando \u00eddolos para serem adulados e seguidos, falsos segredos, com a sinceridade gasta em poses psicologicamente testadas em ratos de laborat\u00f3rio, todos n\u00f3s, todos n\u00f3s, engolindo engodos de gente que nunca d\u00e1 pontos sem n\u00f3s\u2026<\/p>\n<p>\u2026E ter de acreditar, que o peixe grande sempre engole o peixe pequeno neste mar\u2026<\/p>\n<p>\u2026A nova arte estava condenada a ser mais uma chama no fogo, a verdadeira arte seria sempre apenas jardinagem, mais nada\u2026<\/p>\n<p>\u2026Estar aqui deve ser observar, deixar a corrente correr, fazer tudo sem nada fazer, sorver o que a cena a desenrolar traz e agradecer, morrer, viver, talvez fosse tudo apenas um estar do ser\u2026 O que vier ser\u00e1 comigo tamb\u00e9m\u2026 Oh o sol deste amanhecer!\u2026<\/p>\n<p>Com estes pensamentos foi subindo o monte do rio Ol.<\/p>\n<p>No espelho retrovisor a cidade desaparecia num bul\u00edcio cada vez mais silencioso mergulhada no bul\u00edcio cada vez mais silencioso do motor do autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>Por detr\u00e1s dos velhos carvalhos que se perfilavam \u00e0 sua frente, a magnifica mans\u00e3o foi aparecendo, de fachadas brancas enormes, com fontes e jardins, arcadas subindo imaginariamente informes, uma est\u00e1tua de S. Francisco maravilhada ao sol do meio-dia parecia dizer, eu tamb\u00e9m sou assim, era meio-dia em ponto quando chegou.<\/p>\n<p>Atravessou um pequeno caminho de pedra e deparou-se com a enorme entrada da magn\u00edfica mans\u00e3o.<\/p>\n<p>Magnificamente arquitectada, com linhas s\u00f3brias e imponentes, parecia um gigante branco com pequenos liliputianos dentro cruzando conversas r\u00e1pidas com o z\u00e9firo que passava \u00e0s cabriolas na sua cabe\u00e7a enquanto avan\u00e7ava para a entrada.<\/p>\n<p>Tocou \u00e0 campainha.<\/p>\n<p>A porta branca abriu-se magnetizada por um zumbido el\u00e9ctrico.<\/p>\n<p>Entrou.<\/p>\n<p>\u00c0 sua frente um hall de entrada com cheiro a mogno e a pinturas antigas religiosas. Aproximou-se do balc\u00e3o da recep\u00e7\u00e3o sentindo-se calmo e como que em casa.<\/p>\n<p>Os pequenos liliputianos dentro daquele gigante branco continuavam cruzando conservas r\u00e1pidas com as breves correntes de ar que passavam por ali.<\/p>\n<p>Uma senhora de cerca de sessenta e seis anos conversava com o recepcionista de olhos brilhantes e aguados.<\/p>\n<p>\u201cMinha senhora, aconselhamento espiritual s\u00f3 para o m\u00eas que vem, o Frei Ant\u00f3nio neste momento est\u00e1 de f\u00e9rias num congresso espiritual na Gr\u00e9cia, s\u00f3 pode atender em Setembro. Telefone por volta do dia tr\u00eas por favor.\u201d<\/p>\n<p>\u201cMas eu insisto, retorquiu a senhora de cerca de sessenta de seis anos, n\u00e3o consigo dormir h\u00e1 mais de uma semana, \u00e9 uma inquietude que temo ser de ordem espiritual, os psic\u00f3logos e os psiquiatras apenas me receitam rem\u00e9dios para andar a dormir quer de dia quer de noite, n\u00e3o suporto, tem de haver uma explica\u00e7\u00e3o de ordem metaf\u00edsica, o meu marido, que Deus o tenha, sempre me disse, fala com o Frei Ant\u00f3nio, ele tem as palavras certas para te dizer, para te convencer de que ningu\u00e9m morre, nem eu, nem tu, ningu\u00e9m\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cMinha senhora, volto-lhe a repetir, aconselhamento espiritual s\u00f3 para o m\u00eas que vem, o Frei Ant\u00f3nio neste momento est\u00e1 de f\u00e9rias num congresso espiritual na Gr\u00e9cia, s\u00f3 pode atender em Setembro. Telefone por volta do dia tr\u00eas por favor.\u201d<\/p>\n<p>A senhora de cerca de sessenta de seis anos, ou l\u00e1 o que isso significa ante a imensid\u00e3o do tempo, agradeceu e voltou a agradecer humil\u00edssima, guardou o cart\u00e3o que o recepcionista de olhos brilhantes e aguados lhe deu na bolsa e, um pouco t\u00edmida e de olhos circulando r\u00e1pidos como que se esquivando de ser feliz, saiu pela porta, ainda lhe disse bom dia mas a ele parecera-lhe ser antes algo como bom dia com z\u00e9firos, liliputianos cruzando conversas com as correntes de ar e troncos de \u00e1rvores com demasiados veios circulares na madeira secando com o tempo de espera na vasta floresta da incompreens\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Fechou a porta e desapareceu de cena.<\/p>\n<p>Ele, sol\u00edcito como um agente secreto obedecendo a ningu\u00e9m, pergunta ao recepcionista de olhos brilhantes e aguados:<\/p>\n<p>\u201cFazem confiss\u00f5es?\u201d<\/p>\n<p>\u201cCom certeza. Queira esperar um pouco naquela sala ali. Eu acompanho-o. Por aqui por favor.\u201d Ele seguiu o recepcionista de olhos brilhantes e aguados.<\/p>\n<p>Alguns passos perderam-se naqueles corredores silenciosos cheirando a mogno e emanando uma aura de respeito nas obras de arte religiosas que pareciam a tudo assistir como se soubessem de um segredo maior que as paredes, mortas no sil\u00eancio, ansiavam poder decifrar.<\/p>\n<p>\u201cPor favor sente-se ali nessa cadeira. Vou chamar o frei Gabriel que o vai atender de seguida. Queira esperar alguns minutos.\u201d<\/p>\n<p>Ele sentou-se num cadeir\u00e3o almofadado como que depositando o peso do seu corpo numa emo\u00e7\u00e3o de largar tudo de vez, de estar sentado e apenas esperar.<\/p>\n<p>Esperar apenas seria, durante aquele novo momento que durava, todo o prop\u00f3sito da sua exist\u00eancia desde que entrara naquela magnifica mans\u00e3o branca at\u00e9 \u00e0 chegada de frei Gabriel, que desconhecia simplesmente quem seria ou o que pensaria de si, ali, sentado num cadeir\u00e3o almofadado como que depositando o peso do seu corpo numa emo\u00e7\u00e3o de largar tudo de vez, de largar tudo de vez\u2026<\/p>\n<p>Imerso naquele sil\u00eancio de cortinas brancas arrastando-se levemente ao vento pensou, num minuto que seria j\u00e1 toda a eternidade, no que iria dizer a frei Gabriel, se faria sentido o que queria dizer e lhe confessar.<\/p>\n<p>Pesava-lhe a alma estar calado em rela\u00e7\u00e3o a certos assuntos que ningu\u00e9m em nenhum lado compreenderia. N\u00e3o se atrevia a falar a ningu\u00e9m. S\u00f3 ele e o olhar que tudo v\u00ea dentro do tri\u00e2ngulo dourado da igreja a que todos os Domingos assistia missa compreendia e lia o que lhe ia nos pensamentos, cada vez mais secretos e herm\u00e9ticos como o significado oculto daquelas correntes de ar, como z\u00e9firos que atravessavam aqueles corredores da mans\u00e3o branca magnifica, e que lentamente, como liliputianos loucos e desordenados, cruzavam conversas versando uma anamnese completa da estadia dele naquela mans\u00e3o, da sua inten\u00e7\u00e3o de falar com frei Gabriel, da raz\u00e3o de estar ali, sentado num cadeir\u00e3o almofadado como que depositando o peso do seu corpo e da alma numa emo\u00e7\u00e3o feita de paz aflita de quem quer largar tudo de vez, de quem quer largar tudo de vez\u2026<\/p>\n<p>Oh, a espera\u2026<\/p>\n<p>De s\u00fabito, um homem alto, de h\u00e1bito castanho e com uma corda amarrada \u00e0 cintura aparece na sala de telem\u00f3vel na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cComo est\u00e1? Deixe-se ficar sentado por favor. Um momento enquanto atendo esta chamada.<\/p>\n<p>Sim? Em Westminster tamb\u00e9m era assim comigo, tens de aguentar, olhar em frente, n\u00e3o desanimar. Sim. Depois falamos. Agora tenho de fazer uma confiss\u00e3o. At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>Desculpe. Vamos prosseguir. Em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>O que o traz aqui?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSabe, o que me traz aqui \u00e9 uma infind\u00e1vel sucess\u00e3o de silogismos que j\u00e1 n\u00e3o consigo resolver. Quest\u00f5es filos\u00f3ficas e religiosas que me atormentam desde pequeno\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como come\u00e7ar\u2026<\/p>\n<p>Sei que n\u00e3o tenho honrado pai e m\u00e3e, que tenho sido orgulhoso na minha conduta com eles, estou desempregado e \u00e9-me dif\u00edcil perceber o meu papel nesta sociedade feita apenas para ganhar dinheiro e arder em vaidades.<\/p>\n<p>Sei que eles me criaram e sustentaram e me deram tudo mas chegou a minha vez frei Gabriel, a minha vez de tomar as r\u00e9deas da minha vida e constru\u00ed-la\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, compreendo, mas sabe, os pais s\u00e3o como duas colunas na nossa vida, deram-nos a vida e s\u00e3o o nosso apoio at\u00e9 ao fim das nossas vidas. \u00c9 casado?2<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o, ainda n\u00e3o, tenho noiva, planeamos casar\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cPois, pois, veja, quando se casar e quando se emancipar, s\u00f3 a\u00ed ter\u00e1 legitimidade para deixar os seus pais e prosseguir com a sua nova vida com a sua esposa, ver\u00e1 que s\u00f3 o acto de casar e de se emancipar financeiramente ter\u00e1 um efeito m\u00e1gico na sua rela\u00e7\u00e3o com eles.<\/p>\n<p>Tente ser d\u00f3cil com os seus pais at\u00e9 l\u00e1\u2026\u201d<\/p>\n<p>O telem\u00f3vel toca de novo.<\/p>\n<p>\u201cSim, ol\u00e1, como est\u00e1s, n\u00e3o, n\u00e3o, agora n\u00e3o te posso atender, estou em direc\u00e7\u00e3o espiritual, ligo-te mais tarde. At\u00e9 logo.\u201d<\/p>\n<p>\u201cFrei Gabriel, existem certos assuntos que revolvem na minha cabe\u00e7a numa guerra filos\u00f3fica sem fim quando tento resolver enigmas como a morte, o purgat\u00f3rio, para onde vamos quando morremos\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 algo dif\u00edcil para mim partilhar, por favor queira ouvir um pouco o que me aconteceu\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cCom certeza. S\u00e3o temas fascinantes. Eu pr\u00f3prio me debato com esses temas h\u00e1 anos, Sartre, Kierkegaard, Plat\u00e3o, devorei essas leituras e os seus ensinamentos desde pequeno.<\/p>\n<p>Mas antes deixe-me contar-lhe algo que me aconteceu tamb\u00e9m. Algo que me mudou profundamente ao confrontar-me directamente com a morte.<\/p>\n<p>Digamos que me tornei diferente a partir do momento em que me foi diagnosticado um cancro galopante, tinha dias de vida apenas, dizia-me o m\u00e9dico, e eu, naquela cama de hospital, comigo tinha apenas tr\u00eas coisas, a confiss\u00e3o, a comunh\u00e3o e a extrema-un\u00e7\u00e3o que um amigo capel\u00e3o me ministrou estava eu quase inconsciente.<\/p>\n<p>Depois, preparado para morrer, para ver o que iria surgir quando partisse dali, sabe, o m\u00e9dico dizia que eu era louco, que segundo o juramento de Hip\u00f3crates o doente teria de ser salvo at\u00e9 ao fim, at\u00e9 ao \u00faltimo momento.<\/p>\n<p>Eu disse-lhe, doutor, deixe-me ir, estou pronto.<\/p>\n<p>E ali fiquei deitado. Senti a minha consci\u00eancia a desvanecer, a desvanecer, entrei num s\u00edtio escuro como se estivesse no meio do espa\u00e7o e aproximou-se uma luz, calma e de uma brancura imaculada, senti uma paz inomin\u00e1vel, havia c\u00e2nticos e vi um jardim\u2026<\/p>\n<p>Depois, rodopiando, acordei de novo na cama do hospital.<\/p>\n<p>E dali at\u00e9 hoje resisto a tudo o que me diz que o materialismo est\u00e1 certo e que s\u00f3 h\u00e1 a raz\u00e3o e o nada e que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para existirmos neste mundo a n\u00e3o ser o hedonismo e a busca desenfreada pelo dinheiro.<\/p>\n<p>\u00c9 mentira, eu estive l\u00e1, pude testemunhar!\u201d<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio que ensurdecia a mans\u00e3o magn\u00edfica em redor como um momento inef\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u201cSabe meu amigo, o amor, amar, dizer eu amo-te a algu\u00e9m \u00e9 dizer ao mesmo tempo tu \u00e9s imortal e eu sou imortal tamb\u00e9m, o amor nunca morre, ultrapassa a mat\u00e9ria, faz subir a alma deste p\u00e2ntano tempor\u00e1rio em que nos encontramos\u2026\u201d<\/p>\n<p>De novo um sil\u00eancio imenso instalou-se como se dois irm\u00e3os sem nome ali estivessem trocando palavras secretas de abertura para novos patamares da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cAinda bem que me diz isso Frei Gabriel\u2026<\/p>\n<p>A minha hist\u00f3ria\u2026 A minha hist\u00f3ria \u00e9 um pouco diferente, um pouco diferente. Queira-me ouvir por favor\u2026<\/p>\n<p>Desde que me conhe\u00e7o que pratico medita\u00e7\u00e3o, levo a minha vida normal de cidad\u00e3o normal que cumpre os seus deveres e obriga\u00e7\u00f5es e que sabe dos seus direitos, mas, sempre quando posso, medito, medito ardentemente, numa \u00e2nsia de comunica\u00e7\u00e3o com algo mais dentro de mim que n\u00e3o seja os mesmos estere\u00f3tipos do dia-a-dia, as rotinas e o tempo desperdi\u00e7ado em \u00e1rduas li\u00e7\u00f5es de conv\u00edvio e de bem-viver ao estilo ocidental.<\/p>\n<p>O meu papel aqui, reconhe\u00e7o-o cada vez mais, \u00e9 ter a no\u00e7\u00e3o n\u00edtida de que embora perten\u00e7a a este mundo n\u00e3o sou deste mundo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um reino em mim que faz do meu pensamento ser livre como o vento, alegre como uma crian\u00e7a sem os castigos injustos da sociedade que simplesmente n\u00e3o compreende o que \u00e9 ser espiritual e calar, e todos os dias acordo como que nascendo e todos os dias me deito como que morrendo, e vivo assim, todos os dias, para simplesmente fazer de mim e do mundo em que existimos ser algo de melhor em rela\u00e7\u00e3o ao que existia ontem quando me fui deitar depois do dia gasto na doce fadiga de o querer melhorar\u2026\u201d<\/p>\n<p>\u201cSim, mas onde quer chegar?\u201d<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 l\u00e1 vou.<\/p>\n<p>Numa destas minhas medita\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Numa destas minhas medita\u00e7\u00f5es tive uma experi\u00eancia que me marcou profundamente at\u00e9 hoje frei Gabriel.<\/p>\n<p>Numa destas minhas medita\u00e7\u00f5es, numa destas medita\u00e7\u00f5es senti a minha alma a sair do meu corpo.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de mim mesmo.<\/p>\n<p>Olhei para a cama e vi o meu corpo deitado, parado.<\/p>\n<p>Vislumbrei com nitidez todo o meu quarto.<\/p>\n<p>Tudo em redor estava igual. Apenas parecia um mundo diferente, como se tudo vivesse dentro de um aqu\u00e1rio, havia algo de aqu\u00e1tico na percep\u00e7\u00e3o que tive daquele quarto e de mim mesmo dormindo na cama.<\/p>\n<p>Depois\u2026<\/p>\n<p>Depois, atravessei a porta do meu quarto, caminhei pelos corredores de minha casa, atravessei a porta de entrada, vi uma luz forte, t\u00e3o forte, que me cegou, fechei os olhos e acordei, agora no meu corpo f\u00edsico, na cama, de novo no meu quarto pintado de cinzento e com fotografias da minha fam\u00edlia, com o abajur aceso, o rel\u00f3gio a indicar as treze horas e treze minutos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei explicar\u2026<\/p>\n<p>Simplesmente n\u00e3o sei explicar o que me aconteceu\u2026\u201d<\/p>\n<p>De novo um sil\u00eancio de fora de sepulcro invadiu aquela pequena sala onde os dois homens conversavam.<\/p>\n<p>Frei Gabriel olhou-o demoradamente e disse:<\/p>\n<p>\u201cA sua experi\u00eancia \u00e9 avassaladora, algo que s\u00f3 acontece uma vez num milh\u00e3o. Tenha cuidado em n\u00e3o falar a ningu\u00e9m dela sen\u00e3o internam-no num manic\u00f3mio. Muitos padres n\u00e3o acreditariam no que me disse agora mesmo, alguns dizem que isso s\u00e3o alucina\u00e7\u00f5es, del\u00edrios, despersonaliza\u00e7\u00f5es. Eu sei l\u00e1\u2026<\/p>\n<p>Apenas lhe aconselho a entender essa profunda experi\u00eancia espiritual como algo de positivo que o faz ter uma paz que vai mais al\u00e9m do comum dos seres humanos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que lhe diga.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei mais o que lhe dizer\u2026<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns, mas n\u00e3o diga nada a ningu\u00e9m, nunca, guarde esse segredo para si, morra com ele, a sociedade n\u00e3o est\u00e1 preparada para o saber\u2026<\/p>\n<p>Eu te absolvo dos teus pecados. Em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Reze tr\u00eas ave-marias e tr\u00eas pais-nossos, seja d\u00f3cil com os seus pais.<\/p>\n<p>Foi um prazer conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Bom dia e at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3xima.\u201d<\/p>\n<p>Pegou no telem\u00f3vel e num instante iniciou uma nova conversa desaparecendo nos corredores da mans\u00e3o branca.<\/p>\n<p>Ele dirige-se para a sa\u00edda, abre a porta principal e uma luz intens\u00edssima bate-lhe na cara enquanto desce alguns degraus de pedra.<\/p>\n<p>E pensou, num relance plat\u00f3nico, que iria ter de descer as escadas da caverna at\u00e9 um dia convencer os escravos atados l\u00e1 ao fundo na cidade, olhando para as sombras e comentando-as como se as suas opini\u00f5es passageiras fossem a verdade indiscut\u00edvel, e num relance viu milhares olhando para televis\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>Pensou que iria de ter descer as escadas da caverna enquanto via alguns mestres da ilus\u00e3o movimentando as sombras que confundiam os milhares de escravos atados l\u00e1 no fundo da cidade.<\/p>\n<p>E desceu as escadas, p\u00e9 ante p\u00e9, mergulhando na sombra dos carvalhos at\u00e9 ser quotidianamente normal de novo.<\/p>\n<p>Entrou no autom\u00f3vel e a primeira coisa que pensou foi nela, na sua cara de ninfa linda de cabelos ondulados, por esta altura tomando banho de chuveiro, enquanto a cidade em redor adormecia colectivamente.<\/p>\n<p>De passagem, atravessando o olhar nos vidros do autom\u00f3vel que ia avan\u00e7ando na estrada, via desfilar ante ele cen\u00e1rios difusos e pessoas an\u00f3nimas, placards publicit\u00e1rios e grandes edif\u00edcios de empresas an\u00f3dinas.<\/p>\n<p>Os reflexos da cidade passavam no seu olhar claro e calmo, atravessando as ruas e as avenidas, descido j\u00e1 o monte do rio Ol.<\/p>\n<p>\u2026Ser seria calar e viver como todos no formigueiro, servir at\u00e9 chegar ao dia derradeiro e depois, e depois\u2026<\/p>\n<p>O sol era um c\u00edrculo de fogo sorrindo.<\/p>\n<p>Pensando nestas coisas limpou uma l\u00e1grima, carregou no acelerador e foi \u00e0 procura de emprego desaparecendo na selva de bet\u00e3o da cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele acordou com ela dormindo a seu lado, quente e doce como uma prenda do universo. Ouviu-a respirar suavemente e sentiu uma gota de mel caindo em leite. Levantou-se da cama e vestiu-se apressadamente. Precisava de falar. Todo aquele sil\u00eancio de uma noite passada simplesmente a tentar sonhar ou a ficar inconsciente num sono m\u00e1gico [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":376788,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-376785","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376785","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=376785"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376785\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":376791,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376785\/revisions\/376791"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/376788"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=376785"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=376785"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=376785"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}