{"id":376851,"date":"2025-12-31T00:45:47","date_gmt":"2025-12-31T03:45:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=376851"},"modified":"2025-12-29T17:16:27","modified_gmt":"2025-12-29T20:16:27","slug":"a-historia-de-um-amor-que-era-para-ser-e-nao-foi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-historia-de-um-amor-que-era-para-ser-e-nao-foi\/","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA DE UM AMOR QUE ERA PARA SER E N\u00c3O FOI"},"content":{"rendered":"<p>Quase n\u00e3o notei como escorreu um quarto de s\u00e9culo desde aquelas tardes t\u00e3o boas. A inquieta\u00e7\u00e3o para chegar a hora em que eu me encontrava com ela engolia qualquer outra ansiedade. E eu, ansioso cr\u00f4nico at\u00e9 hoje, raramente tive algo que fizesse meu cora\u00e7\u00e3o bater daquele jeito.<\/p>\n<p>Eu estava nos primeiros per\u00edodos da faculdade de Direito e havia sido aprovado para um concorrido est\u00e1gio num \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico. A bolsa, paga por uma ag\u00eancia estatal, era diferenciada e passava longe do sal\u00e1rio-m\u00ednimo da \u00e9poca. O lugar era um sonho\u2026<\/p>\n<p>Perto de onde Manuel Bandeira morou, e de onde haviam filmado aquele melanc\u00f3lico retrato de seu cotidiano nos anos 50, enquanto sua voz lend\u00e1ria recitava \u201cVou-me embora para Pas\u00e1rgada\u201d, e o grande bardo comia uma torrada, bebia uma x\u00edcara de leite, vestia-se para sair\u2026 A poucos passos da Academia Brasileira de Letras, e eu j\u00e1 fazia contas de quantos eventos interessantes poderia assistir depois de me desobrigar das tarefas burocr\u00e1ticas e encerrar o expediente. Na esquina, havia um bar, o Villarino, e uma placa lembrava que a bossa-nova nascera ali. N\u00e3o podia estar melhor situado. Eu me sentia cercado por hist\u00f3ria e poesia de todos os lados.<\/p>\n<p>Pela primeira vez eu me percebia solto, independente, respons\u00e1vel pelas pr\u00f3prias atitudes. Era o menino quase se fazendo homem. Descobria a vida por atacado. E, no meio desse conjunto de acontecimentos, ela apareceu e me deixou tonto: os ombros, o cabelo curto, as m\u00e3os, as roupas coloridas, o jeans rasgado, a flor tatuada que subia pela nuca. Tinha dois ou tr\u00eas anos a mais que eu, uns cinco cent\u00edmetros a mais de altura, e isso, para mim, pareceu um abismo.<\/p>\n<p>Eu, estagi\u00e1rio na \u00e1rea jur\u00eddica, ia de palet\u00f3 e gravata todos os dias. Ela n\u00e3o. Vestia-se como queria, ousada, provocativa e sempre elegante \u00e0 sua maneira. Era estagi\u00e1ria da assessoria de imprensa. Eu imaginava se, um dia, o advogado e a jornalista combinariam, se seriam um par, se atravessariam a vida juntos\u2026<\/p>\n<p>Mar\u00edlia me atingiu desde a primeira vez que a vi, num desses impactos que a vida vai nos roubando aos poucos. A gente se encontrava na lanchonete do \u00f3rg\u00e3o em que cumpr\u00edamos nossas fun\u00e7\u00f5es, por volta das quatro da tarde, quando havia um intervalo. \u00c0s vezes o trabalho dela terminava mais cedo; em outras, ia at\u00e9 mais tarde. O meu, invariavelmente, se estendia at\u00e9 as sete. Mas a passada quase di\u00e1ria pela lanchonete do \u00faltimo andar era certa. E era l\u00e1 que nos v\u00edamos. Nem lembro direito como nos aproximamos. Acho que veio de grupo, o pessoal do Direito com o pessoal da imprensa, misturando-se aos poucos, at\u00e9 que, com a ajuda de um amigo que nunca mais encontrei depois daqueles tempos, puxei conversa com Mar\u00edlia.<\/p>\n<p>Fal\u00e1vamos de coisas vagas: literatura, acontecimentos do dia, m\u00fasica. Descobri que ela gostava de Adriana Calcanhoto e Luiz Melodia. E eu, que h\u00e1 pouco havia descoberto os versos \u201cah, se eu fosse marinheiro\u2026\u201d, queria fazer de Mar\u00edlia um porto seguro. Navegar e voltar todo dia para seus bra\u00e7os morenos, para o pesco\u00e7o comprido, para as m\u00e3os \u00e1geis. Na sequ\u00eancia das conversas, fomos parar na poesia. E eu soube que Mar\u00edlia era apaixonada por Augusto dos Anjos. Achava os poemas do \u201cEu\u201d viscerais e transcendentes. E se espantava com a perman\u00eancia deles, tantos anos depois da vida remota do autor. Tamb\u00e9m apreciava Drummond e Cec\u00edlia, todos na lista dos meus prediletos, mas sem nunca ultrapassarem, para mim, Neruda, Schmidt e Vinicius.<\/p>\n<p>Naquele tempo eu j\u00e1 ensaiava meus primeiros versos mais s\u00e9rios, sempre tentando dar alguma for\u00e7a \u00e0s imagens que criava, algo que norteia minha escrita at\u00e9 hoje. Mostrei-lhe alguns. Ela levou para ler, impressos em impressora matricial. Disse que me daria uma opini\u00e3o sincera. Esperei dias, fingindo que tinha esquecido, para n\u00e3o precisar cobrar nada. At\u00e9 que veio, em forma de elogios generosos. Disse que um dos poemas lembrava Drummond, aquele que carrega o verso \u201clembro de tudo, volto pra casa e morro.\u201d Eu n\u00e3o acreditei naquela \u00e9poca, como n\u00e3o acredito at\u00e9 hoje, mas fiquei orgulhoso da compara\u00e7\u00e3o. E eu seguia irremediavelmente perdido nos olhos dela, no sorriso, no jeito leve com que via as coisas, sempre com um sabor diferente. Sem saber, Mar\u00edlia foi minha primeira namorada. Na verdade, ela nunca soube.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tive coragem de me declarar. Eu me achei t\u00e3o distante dela, t\u00e3o diferente e, ao mesmo tempo, estranhamente parecido. O meu corpo de menino gordo dentro do palet\u00f3 e gravata, a minha altura menor que a da mulher amada, tudo me deixava acanhado e triste. E ela, com aquele sorriso, com aqueles bra\u00e7os, com aquela nuca e o perfume\u2026 era absolutamente inalcan\u00e7\u00e1vel. Naquele tempo n\u00e3o era como hoje, em que celular e redes sociais encurtam dist\u00e2ncias e ditam a frequ\u00eancia dos contatos. Assim, eu via Mar\u00edlia no trabalho, naqueles intervalos do expediente, e nunca tive a aud\u00e1cia de convid\u00e1-la para o Villarino.<\/p>\n<p>Passaram-se os meses, o contrato de est\u00e1gio terminou, e eu nunca mais vi Mar\u00edlia. N\u00e3o consegui sequer guardar seu sobrenome.<\/p>\n<p>H\u00e1 algumas semanas eu nem me lembrava desta hist\u00f3ria quando, numa ida ao F\u00f3rum Central do Rio de Janeiro, encontrei o antigo coordenador dos estagi\u00e1rios, hoje um colega nas lides jur\u00eddicas. Recordamos juntos aqueles tempos t\u00e3o leves, t\u00e3o doces, com uma saudade boa. Foi ent\u00e3o que ele comentou: aos olhos dos outros, Mar\u00edlia e eu n\u00e3o nos desgrud\u00e1vamos nas tardes na lanchonete, e parec\u00edamos um casal. Eu lhe confessei o interesse que tinha por ela naquela \u00e9poca, e a total falta de coragem de expor meus sentimentos.<\/p>\n<p>Foi quando ele me contou que, num daqueles dias, Mar\u00edlia lhe revelou estar muito angustiada porque estava apaixonada por mim, mas n\u00e3o sabia como se declarar: eu era \u201co garoto todo certinho\u201d, do Direito, poeta e, apesar de sempre atencioso e educado, muito fechado dentro de mim mesmo.<\/p>\n<p>E ela nunca encontrava uma brecha.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras.com, onde, com Eduardo Mart\u00ednez e Cec\u00edlia Baumann, comanda o Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. Carioca, \u00e9 advogado e professor. Poeta, escreveu os livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase n\u00e3o notei como escorreu um quarto de s\u00e9culo desde aquelas tardes t\u00e3o boas. A inquieta\u00e7\u00e3o para chegar a hora em que eu me encontrava com ela engolia qualquer outra ansiedade. E eu, ansioso cr\u00f4nico at\u00e9 hoje, raramente tive algo que fizesse meu cora\u00e7\u00e3o bater daquele jeito. 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