{"id":377080,"date":"2026-01-04T01:00:24","date_gmt":"2026-01-04T04:00:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=377080"},"modified":"2026-01-04T02:00:04","modified_gmt":"2026-01-04T05:00:04","slug":"maria-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maria-do-silencio\/","title":{"rendered":"MARIA DO SIL\u00caNCIO"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Era assim chamada desde pequenina. Falar falava pouco; quase nada. Cedo aprendeu o prazer das m\u00ednimas palavras.&#8221;<\/p>\n<p>Caminhar caminhava, por horas, com o seu cajado de maestrina todo enfeitado por linhas e cores e m\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Maria aprendeu com o sil\u00eancio o sabor da vida e os sons que tudo habita.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio dela era repleto de operetas long\u00ednquas e refer\u00eancias herm\u00e9ticas ao estilo de Hermeto, o bruxo Paschoal das inven\u00e7\u00f5es sonoras.<\/p>\n<p>Dan\u00e7ar n\u00e3o dan\u00e7ava, mas cantava como as s\u00e1bias-laranjeiras que dividem comigo a viv\u00eancia na pequena pousada que h\u00e1bito a beira do mar.<\/p>\n<p>Maria do olhar.<\/p>\n<p>&#8220;Maria do olhar que habita. Plenitude e finitude. O olhar de Maria vagueava em verticais ondas que alcan\u00e7avam o horizonte. Descanso das vis\u00f5es mais ousadas, das culmin\u00e2ncias do sentir. Nome de santa e olhar de tantas&#8230; Buscadoras de si. Num mundo que sacode almas puras. Calar \u00e9 acalanto, quando tudo grita e regurgita. Calar \u00e9 canto que aquece e acalma. Embala a alma. Acolhe na palma. O cora\u00e7\u00e3o daquele que pediu s\u00f3 m\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>(Edna Domenica, escritora Florian\u00f3polis SC)**<\/p>\n<p>Maria do n\u00e3o-lugar.<\/p>\n<p>Como viver num mundo barulhento e desterrado, sem nenhum lugar?<\/p>\n<p>Maria vive sempre a procurar o seu lugar no OUTRO, mas sem encontrar<\/p>\n<p>a brecha, o v\u00e3o, a porta de emerg\u00eancia para &#8211; em si- entrar.<\/p>\n<p>E nessa busca solit\u00e1ria, em sil\u00eancio absoluto ela segue a trope\u00e7ar&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Cai aqui, cai acol\u00e1, levanta e teima novo caminhar&#8230; tigum, Maria&#8230; \u00e9 hora de nadar.&#8221;<\/p>\n<p>Corpo solto na corrente do rio da Madre, bra\u00e7o de mar.\u00e7<\/p>\n<p>Navegando a \u00e1gua-\u00fatero o desafio \u00e9 atravessar e vencer a impot\u00eancia das palavras e s\u00f3 desejar n\u00e3o bater l\u00e1 no cost\u00e3o para se espatifar.<\/p>\n<p>Maria nada feito sereia imitando dan\u00e7ar:<\/p>\n<p>&#8220;&#8230; gira tronco, bate pernas, tudo a revirar; nas \u00e1guas do rio da Madre sentimento farto de vida, de luz feito sopro e parto. Maria em seu mariar.&#8221;<\/p>\n<p>Calar para ver.<\/p>\n<p>E ouvir os sons dos deuses e as conversas e c\u00e2nticos dos anjos.<\/p>\n<p>Olhar olhava e a tudo observava; a vertigem do Caminho dos Olhos:<\/p>\n<p>ob-ser-var!<\/p>\n<p>Maria n\u00e3o falava, por\u00e9m enxergava com os olhos d&#8217;alma e do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Certo dia algu\u00e9m perguntou a Maria:<\/p>\n<p>&#8220;Maria, por que tanto sil\u00eancio e esse mist\u00e9rio no olhar?&#8221;<\/p>\n<p>E ela apenas cantou um canto t\u00e3o profundo e lento, capaz de assombrar as trombetas do infinito. Maria era assim: na lata!<\/p>\n<p>Maria firmamento.<\/p>\n<p>Infinito azul do mar.<\/p>\n<p>Outro dia encontrei Maria caminhando pela areia beira do rio rumo ao mar aberto e eu nada disse, mas pensei:<\/p>\n<p>&#8220;minha querida Madre, como pode ser t\u00e3o profundo o teu silenciar?&#8221;<\/p>\n<p>Maria abra\u00e7ou-me em imenso sil\u00eancio e nunca mais a vi.<\/p>\n<p>Eu segui com a percep\u00e7\u00e3o de que na vida o que vale mesmo \u00e9:<\/p>\n<p>&#8220;calar, observar e caminhar; mesmo que seja para se espatifar.&#8221;<\/p>\n<p>E todos os dias recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8220;Onde c\u00e9u \/ onde mar \/ onde praias a caminhar \/ onde mais azul \/ que o azul do azul \/ do mar?&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>* Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista e professor\/pesquisador que segue caminhando, em sil\u00eancio, fiel aprendiz de Maria. Vive na Guarda do Emba\u00fa, pequena vila de pescadores e turistas do litoral de SC.<\/strong><\/p>\n<p><strong>** Poema em prosa de Edna Domenica, escritora, professora e pesquisadora da arte liter\u00e1ria, dos sentidos e da palavra. Vive em Florian\u00f3polis SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Era assim chamada desde pequenina. Falar falava pouco; quase nada. Cedo aprendeu o prazer das m\u00ednimas palavras.&#8221; Caminhar caminhava, por horas, com o seu cajado de maestrina todo enfeitado por linhas e cores e m\u00e1gicas. Maria aprendeu com o sil\u00eancio o sabor da vida e os sons que tudo habita. 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