{"id":377107,"date":"2026-01-05T00:00:11","date_gmt":"2026-01-05T03:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=377107"},"modified":"2026-01-03T14:04:01","modified_gmt":"2026-01-03T17:04:01","slug":"andre-despertou-de-madrugada-com-o-som-do-celular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/andre-despertou-de-madrugada-com-o-som-do-celular\/","title":{"rendered":"Andr\u00e9 despertou de madrugada com o som do celular"},"content":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 acordou de madrugada com o barulho do celular. Tonto de sono, pegou o aparelho. A fam\u00edlia estava fora, podia ser algo urgente.<\/p>\n<p>Era o v\u00eddeo de um avi\u00e3o pousando. E uma mensagem de \u00e1udio:<\/p>\n<p>&#8211; Oi, estou em Guarulhos.<\/p>\n<p>A imagem n\u00e3o interessava. A voz sim. Era de Graziela, uma ga\u00facha com quem ele fazia amorzinho virtual desde o confinamento da pandemia. Nos \u00faltimos tempos, por\u00e9m, as transas online haviam diminu\u00eddo muito em n\u00famero. De um lado, pela idade, ambos estavam com bem mais de 70 anos. De outro, porque os dois estavam envolvidos de corpo e alma, em lugares diferentes, na derrota eleitoral do Bozo, faltava tempo para coisinhas gostosas.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea est\u00e1 em S\u00e3o Paulo? \u2013 teclou, e se arrependeu de imediato. Claro que ela estava em S\u00e3o Paulo, estava em Guarulhos, poxa!<\/p>\n<p>O que ele queria perguntar era:<\/p>\n<p>&#8211; Veio me ver? Quer que arranje um hotel pra voc\u00ea? Quer que arranje um hotel pra n\u00f3s dois?<\/p>\n<p>Essa perspectiva o enchia de alegria, mas, ao mesmo tempo, lhe dava calafrios. Por um pequeno detalhe: Andr\u00e9 era casado havia mais de 20 anos, estava no terceiro casamento, tinha dois filhos e cinco netos. A chegada de uma nova mulher iria detonar sua rela\u00e7\u00e3o, por mais que Leda, sua parceira, fizesse vista grossa para suas trai\u00e7\u00f5ezinhas a dist\u00e2ncia. Mas sexo virtual \u00e9 uma coisa, outra, bem diversa, \u00e9 se enroscar com algu\u00e9m na cama. \u201cDuvido que Leda seja compreensiva a esse ponto\u201d, pensou.<\/p>\n<p>Imaginou, em seguida, o que fazer. Recordou um ditado que usava nas mais diferentes situa\u00e7\u00f5es (n\u00e3o, n\u00e3o t\u00e3o diferentes assim; em todas elas o mocinho morria no fim): \u201cPassarinho que come pedra sabe o fiof\u00f3 que tem\u201d. Era o que acontecia com ele, gostava do sabor do cascalho e mesmo de algumas pedrinhas menos digest\u00edveis, e agora chegara o momento de se romper todo. Porque, se a senhora ga\u00facha tivesse vindo para ficar com ele, n\u00e3o correria do pau; muito ao contr\u00e1rio, o utilizaria o mais competentemente poss\u00edvel. Seu casamento estava subindo no telhadomas, pelo menos, n\u00e3o se esborracharia no ch\u00e3o naquela noite, gra\u00e7as aos deuses Leda estava fora, comparecera ao anivers\u00e1rio de um dos netos.<\/p>\n<p>Nisso chegou uma nova postagem:<\/p>\n<p>\u201cEstou indo pra Vit\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Boa e m\u00e1 not\u00edcia. Boa, porque seu rabinho n\u00e3o ia virar uma posta de sangue ao descomer as pedras, seu relacionamento n\u00e3o ia cair do telhado. M\u00e1, porque chifre, mesmo virtual, d\u00f3i pra ded\u00e9u, e ele lembrou que, durante o lockdown da pandemia, a senhora dos pampas repartia seus carinhos entre tr\u00eas lockdengos: ele, um argentino bobo, que a chamava de \u201creina\u201d, e um carinha, pertencente ao passado dela, que morava em Vit\u00f3ria. Claro que a traidora tinha vindo se aninhar nos bra\u00e7os do fiodeuma\u00e9gua.<\/p>\n<p>Deu um sorriso um pouco triste. Jamais conseguira fazer charme para si mesmo, n\u00e3o estava com ci\u00fame. No m\u00e1ximo, um tanto desapontado, pelo t\u00e9rmino formal de algo que j\u00e1 havia acabado na pr\u00e1tica fazia tempo. E admirou a coragem da atleta, que havia trocado o conforto de um amorzinho virtual pela necessidade de chegar junto, ver qual era a do capixaba. Mesmo que desse tudo errado.<\/p>\n<p>\u201cEla \u00e9 uma passarinha, come pedra, sabe o que vai acontecer, paga o pre\u00e7o de seus desejos\u201d, disse para si mesmo.<\/p>\n<p>Com essa ideia reencontrou a calma e come\u00e7ou a brincar com a passarinha nas postagens:<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que perdemos, moi e o mo\u00e7o da reina? O vitorioso foi o cara de Vit\u00f3ria?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um velho amigo, vim para andar de m\u00e3os dadas \u2013 e tacou o emoji de algu\u00e9m chorando de tanto rir.<\/p>\n<p>Era demais. Bola pingando na \u00e1rea, nunca resistira \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de meter o p\u00e9, mesmo que isso lhe custasse mulheres, amigos, o escambau.<\/p>\n<p>&#8211; Sei. A gente andava de m\u00e3os dadas virtuais, entre uma transa online e outra \u2013 e mandou emoji de um diabinho de sorriso bem sacana.<\/p>\n<p>&#8211; KKKK \u2013 com um emoji de um carinha de sorriso pra l\u00e1 de obsceno.<\/p>\n<p>A essa altura ele a estava amando. Muito. S\u00f3 queria que a passarinha fosse feliz, que bicasse as suas pedras e depois, na hora de desdigeri-las, desse provas de resili\u00eancia anal. De qualquer modo, o furico da passarinha era problema dela e, quando muito, do ve\u00ednho capixaba.<\/p>\n<p>&#8211; Divirta-se \u2013 postou.<\/p>\n<p>Ela respondeu sem palavras, com o emoji de m\u00e3os postas em ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 acordou de madrugada com o barulho do celular. Tonto de sono, pegou o aparelho. A fam\u00edlia estava fora, podia ser algo urgente. Era o v\u00eddeo de um avi\u00e3o pousando. E uma mensagem de \u00e1udio: &#8211; Oi, estou em Guarulhos. A imagem n\u00e3o interessava. 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