{"id":377312,"date":"2026-01-02T02:00:50","date_gmt":"2026-01-02T05:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=377312"},"modified":"2026-01-01T22:32:46","modified_gmt":"2026-01-02T01:32:46","slug":"antonia-moacir-e-a-desconfianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/antonia-moacir-e-a-desconfianca\/","title":{"rendered":"Ant\u00f4nia, Moacir e a desconfian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nia, atenta a tudo que a rodeava, n\u00e3o tardou, notou algo at\u00e9 ent\u00e3o inexistente no sorriso de Moacir, o esposo. Aquilo n\u00e3o era pr\u00f3prio do sujeito, que sempre demonstrara car\u00e1ter sisudo, como se o mundo lhe pesasse sem piedade sobre os ombros ca\u00eddos. A mulher o fitou por um instante e disparou:<\/p>\n<p>\u2014 Por acaso est\u00e1 de caso com alguma sirigaita?<\/p>\n<p>Pego de surpresa, Moacir arregalou os olhos e, mostrando-se ofendido na alma, respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Melhor seria que me desse um tiro na cara a levantar suspeitas mundanas sobre a minha pessoa.<\/p>\n<p>Esposa e marido se entreolharam e, ent\u00e3o, ela gargalhou, o que provocou um sorriso nervoso nele.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00f4 ca\u00e7oando, seu bobo! E voc\u00ea caiu que nem um patinho.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, bom! J\u00e1 estava aqui com os meus bot\u00f5es achando que voc\u00ea estivesse variando.<\/p>\n<p>Moacir riu da pr\u00f3pria observa\u00e7\u00e3o, mas logo parou, pois percebeu um olhar de desaprova\u00e7\u00e3o da amada, que, por acaso, estava descascando uma laranja com uma faca mais afiada do que m\u00e3e de esposa.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Apronte comigo, que voc\u00ea vai ver o que fa\u00e7o contigo.<\/p>\n<p>Instintivamente, o sujeito colocou as duas m\u00e3os nas partes baixas. Ant\u00f4nia gargalhou e deu as costas para o marido.<\/p>\n<p>\u2014 Me Deixa cuidar da vida, que ningu\u00e9m coloca dinheiro no meu bolso de gra\u00e7a.<\/p>\n<p>O cara ficou com a pulga atr\u00e1s da orelha, mas, incauto por natureza, logo aquele interl\u00fadio j\u00e1 havia se tornado coisa do passado. Tanto \u00e9 que, ap\u00f3s o almo\u00e7o, disse que iria \u00e0 mercearia da Jurema comprar cigarro. E foi.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia sorriu e at\u00e9 deu um beijo nos l\u00e1bios do marido, que saiu que nem galo que se acha dono de todo o terreiro. De t\u00e3o confiante, n\u00e3o percebeu que a esposa foi no seu encal\u00e7o.<\/p>\n<p>Matreira que nem ela s\u00f3, Ant\u00f4nia seria capaz de se esgueirar em um graveto, caso fosse necess\u00e1rio. J\u00e1 o sujeito, cuja tolice parecia ceg\u00e1-lo, nem se deu ao trabalho de olhar para tr\u00e1s para se certificar de que n\u00e3o estava sendo seguido. Passou direto pelo com\u00e9rcio da velha Jurema, dobrou a esquina e seguiu reto.<\/p>\n<p>Moacir, ap\u00f3s virar \u00e0 direita e \u00e0 esquerda um tanto de vezes, entrou em uma rua sem sa\u00edda, onde abriu o port\u00e3o de ferro. Nem se deu ao trabalho de tocar a campainha ou bater palmas. Entrou como se aquele fosse local conhecido.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia controlou a ansiedade por alguns instantes. V\u00e1 que fosse a casa de um amigo ou conhecido. Que nada! Cinco minutos de espera foram o suficiente. E l\u00e1 foi a mulher.<\/p>\n<p>Determinada, passou pelo port\u00e3o, tentou abrir a porta, que estava trancada. Deu dois passos para tr\u00e1s e desferiu um chute t\u00e3o forte, que a pobre porta n\u00e3o resistiu, tombou no ch\u00e3o da sala, provocando um estrondo. Furiosa, Ant\u00f4nia entrou na resid\u00eancia e foi at\u00e9 o quarto, onde ainda conseguiu ver a dona da casa completamente nua pulando a janela e fugir.<\/p>\n<p>Fugando de \u00f3dio, Ant\u00f4nia fitou o marido em p\u00e9 encostado na parede ao fundo. O camarada tremia mais do que vara verde.<\/p>\n<p>\u2014 Vista-se, seu cretino!<\/p>\n<p>Sem alternativa, o ad\u00faltero obedeceu e, cabisbaixo, come\u00e7ou a simular um choro. Aquilo foi demais para Ant\u00f4nia, que n\u00e3o suportava cabra frouxo.<\/p>\n<p>\u2014 Passa! Passa! Que em casa a conversa vai ser outra!<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe exatamente o que aconteceu no lar, doce lar do casal. Todavia, desde ent\u00e3o, parece que o Moacir tem andado pianinho. Quanto \u00e0 amante, sabe-se apenas que se chamava Vera, era casada e, n\u00e3o se sabe como, convenceu o marido a se mudarem para outra cidade. A desculpa? Ah, \u00e9 que ela n\u00e3o teria se acostumado ao clima de Bras\u00edlia. T\u00e3o seco!<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nia, atenta a tudo que a rodeava, n\u00e3o tardou, notou algo at\u00e9 ent\u00e3o inexistente no sorriso de Moacir, o esposo. Aquilo n\u00e3o era pr\u00f3prio do sujeito, que sempre demonstrara car\u00e1ter sisudo, como se o mundo lhe pesasse sem piedade sobre os ombros ca\u00eddos. 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