{"id":377347,"date":"2026-01-04T00:45:20","date_gmt":"2026-01-04T03:45:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=377347"},"modified":"2026-01-02T00:11:46","modified_gmt":"2026-01-02T03:11:46","slug":"cha-da-manha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cha-da-manha\/","title":{"rendered":"Ch\u00e1 da Manh\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>Bebeu o seu ch\u00e1 verde logo pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Olhou a janela que se precipitava por treze andares que desciam directamente para a ruas de alcatr\u00e3o onde passavam son\u00e2mbulos os autom\u00f3veis e as pessoas a caminho do trabalho.<\/p>\n<p>O aroma do ch\u00e1 verde subia-lhe nas narinas abertas e era como se sorvesse uma selva indiana plena de calma e de exotismo on\u00edrico em verde puro, com folhas de clorofila abrindo-se, e algumas mulheres com colares e brincos de oiro fino dan\u00e7avam e cantavam atirando flores brancas ao rio e isto sumindo-se.<\/p>\n<p>O aroma do ch\u00e1 verde subiu-lhe \u00e0 cabe\u00e7a e sentiu-se boiar numa placidez de \u00e1gua aquietada. O seu olhar desviou-se da janela.<\/p>\n<p>Percorreu descal\u00e7o a cozinha como um franciscano, atravessou o corredor com fotografias de gente conhecida nas paredes, pareciam ter vida dentro naqueles olhares, eram como uma fam\u00edlia amistosa, as caras e as fisionomias, sem nome dentro, mas vivas, como imagens moventes e n\u00edtidas que se percorriam pelos labirintos da sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Entrou na sala de jantar com a x\u00edcara de ch\u00e1 verde ainda fumegando, bebeu mais um suave trago quente e ligou a televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a hora do notici\u00e1rio televisivo matinal.<\/p>\n<p>Sentou-se no sof\u00e1 de pele escura e ali ficou a ver, passivamente enquanto bebia o ch\u00e1 verde que fumegava, o espect\u00e1culo para aquele dia desfilando como uma sucess\u00e3o de pequenos entretenimentos com imagens deliberadamente usadas para captar a impress\u00e3o, a hipnotizada aten\u00e7\u00e3o dele, de ch\u00e1 verde na m\u00e3o fumegando, vendo desfilar na televis\u00e3o desgra\u00e7a atr\u00e1s de desgra\u00e7a, como uma velha vestida de negro desfiando as contas de um ros\u00e1rio di\u00e1rio, rezando de cor, contando horrores atr\u00e1s de horrores, de olhos vidrados de medo e num pasmo hist\u00e9rico e cr\u00e9dulo, anestesiada e anestesiando, isto tudo como se nada passasse e o ch\u00e1 verde fumegando.<\/p>\n<p>E ele bebia o ch\u00e1 verde que fumegava vagarosamente, bebia e bebia repetidamente, lentamente entrando num torpor que lhe induziam as palavras choque, como passes magn\u00e9ticos cortantes, da apresentadora treinada para vociferar por entre pausas e dic\u00e7\u00f5es impactantes, campos sem\u00e2nticos de palavras como horror, desgra\u00e7a, trag\u00e9dia, mortos, drama, entrecortada com imagens de choros, olhos desanimados e ca\u00eddos, guerras e epis\u00f3dios s\u00f3rdidos de homic\u00eddios, \u00edndices bolsistas com gr\u00e1ficos subindo e descendo conforme os aplausos e as vaias do \u00faltimo espect\u00e1culo de massas que euf\u00f3ricas gritavam hinos a favor da revolu\u00e7\u00e3o ou contra a revolu\u00e7\u00e3o, gente pedindo de cerveja na m\u00e3o mais uma can\u00e7\u00e3o, mais uma can\u00e7\u00e3o, e alguns sem abrigo viviam nas ruas e n\u00e3o falavam, n\u00e3o havia excita\u00e7\u00e3o se n\u00e3o houvesse c\u00e2mera na m\u00e3o, e haviam muitas caras que nunca passavam na televis\u00e3o mas que concordavam com a serena submiss\u00e3o, e as imagens apenas passavam, passavam apressadas num turbilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele desligou o som demasiado barulhento da televis\u00e3o e das imagens em del\u00edrios de fascina\u00e7\u00e3o e encena\u00e7\u00e3o e, bebendo o seu ch\u00e1 verde fumegante, de ch\u00e1vena na m\u00e3o, sentiu-se levemente irritado por aquela horda enxameante que entrava na sua casa por aquele ecr\u00e3, como que atirando lixo para a sua sala de jantar para depois berrar e berrar e vender em an\u00fancios de cortar a respira\u00e7\u00e3o subliminares produtos que subitamente passava a desejar ardentemente como se nunca mais houvesse mais nada no mundo a n\u00e3o ser um carro potente, um perfume sedutor, um whisky que desinibe, uma mulher que se despe gr\u00e1tis para mostrar a profundidade de uma m\u00e1quina de lavar alem\u00e3.<\/p>\n<p>E tudo isto num pequeno peda\u00e7o de tempo da manh\u00e3, enquanto bebe o seu ch\u00e1 verde fumegante, sentado no seu sof\u00e1 de pele negro, confortavelmente desempregado a ver o mundo a passar naquela caixa que, de tanto barulho fazer, de trazer para a sua sala de jantar todo o inferno a arder, decide ent\u00e3o fazer uma ac\u00e7\u00e3o c\u00edvica, pega no comando e desliga a televis\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>E um profundo som de sil\u00eancio acalma-o enfim.<\/p>\n<p>O seu cora\u00e7\u00e3o fica pac\u00edfico outra vez vendo a \u00e1gua do ch\u00e1 verde na x\u00edcara a estabilizar, a ficar parada, num pequeno gole bebe tudo e acaba-se a fumegante ilus\u00e3o daquela manh\u00e3 calada.<\/p>\n<p>Abre a porta de casa, desce as escadas em espiral e vai de autom\u00f3vel ver o mestre que mora l\u00e1 do outro lado da montanha a doze milhas dali.<\/p>\n<p>Pela auto-estrada a caminho das montanhas brilha-lhe os olhos de ser \u00fanico, sa\u00edram-lhe da mente as teias de aranha.<\/p>\n<p>Procura apenas o presente e n\u00e3o uma sugest\u00e3o estranha quer seja do passado ou do futuro, tudo era o agora saindo suavemente do escuro.<\/p>\n<p>E o autom\u00f3vel passa a grande velocidade na estrada saindo da neblina entorpecedora da cidade, e vai rumo \u00e0 montanha, sem bem me lembro, pelo que posso precisar vendo agora o autom\u00f3vel a passar, a montanha, enorme, no alto, a montanha chamava-se Liberdade e ficava fora da cidade ap\u00f3s o deserto dos uivos e das vis\u00f5es d\u00fabias.<\/p>\n<p>E foi l\u00e1 que perdeu o nome e ganhou um novo emprego sob o olhar silencioso do mestre que lhe dizia em palavras que s\u00f3 o cora\u00e7\u00e3o ouvia.<\/p>\n<p>E ele passou a ser\u2026<\/p>\n<p>Ser crian\u00e7a entre os lobos e as bruxas que dan\u00e7avam ao seu redor, passou a ser um mafarrico de olhos mansos e doces que apenas existe e trabalha por amor\u2026<\/p>\n<p>De novo encheu a tigela e bebeu o seu ch\u00e1 verde logo pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>O gongo soou br\u00f4nzeo estendendo-se o som vibrante nos seus t\u00edmpanos e por todo o templo. Fim da medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bebeu o seu ch\u00e1 verde logo pela manh\u00e3. Olhou a janela que se precipitava por treze andares que desciam directamente para a ruas de alcatr\u00e3o onde passavam son\u00e2mbulos os autom\u00f3veis e as pessoas a caminho do trabalho. 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