{"id":380259,"date":"2026-01-24T05:00:13","date_gmt":"2026-01-24T08:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=380259"},"modified":"2026-01-24T06:00:52","modified_gmt":"2026-01-24T09:00:52","slug":"quando-os-imperialistas-loucos-conduzem-os-cegos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-os-imperialistas-loucos-conduzem-os-cegos\/","title":{"rendered":"Quando os imperialistas loucos conduzem os cegos"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: left;\" align=\"right\"><i>&#8220;N\u00e3o s\u00e3o apenas os vivos que nos atormentam, os mortos tamb\u00e9m. <\/i><em>Le mort saisit le vif!<\/em><i>&#8220;. <\/i>\u2014 Karl Marx, Pr\u00f3logo \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>O capital<\/em>.<\/div>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nascemos como territ\u00f3rio aberto: feitoria, praias, \u00e1gua, alimento e sombra para o repouso de cors\u00e1rios de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura predat\u00f3ria dos s\u00e9culos seguintes de apropria\u00e7\u00e3o da terra dada, a ca\u00e7a \u00e0 natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a Col\u00f4nia, a escravid\u00e3o de negros importados para o eito e a morte antecipada.<\/p>\n<p>Bem mais tarde emerge, sem anima\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, uma ideia de povo em busca de na\u00e7\u00e3o, ausente o projeto de colonizador (com o qual n\u00e3o podia arcar a decad\u00eancia irrevers\u00edvel do imp\u00e9rio lusitano); historiadores apressados referem-se \u00e0s lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de brancos pobres e ind\u00edgenas escravizados como o in\u00edcio da constru\u00e7\u00e3o de uma nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a m\u00ednima consci\u00eancia de pertencimento comum na expuls\u00e3o da experi\u00eancia do pr\u00edncipe de Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que n\u00e3o cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da cria\u00e7\u00e3o de mercado interno. N\u00e3o havia uma na\u00e7\u00e3o a contrapor-se ao sonho holand\u00eas na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u00c9ramos algo como uma malha de feitorias sob a coroa do pequeno Estado portugu\u00eas, em tr\u00e2nsito entre o dom\u00ednio espanhol e o brit\u00e2nico, cuja preemin\u00eancia nos condicionaria at\u00e9 o fim da Primeira Grande Guerra (1914\u20131918) e a ascens\u00e3o dos EUA, que se tornam a unipot\u00eancia capitalista ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim e a capitula\u00e7\u00e3o da URSS.<\/p>\n<p>Continu\u00e1vamos na periferia, como se cumpr\u00edssemos um determinismo que a leitura dial\u00e9tica da Hist\u00f3ria n\u00e3o justifica. Antes, no nascedouro do s\u00e9culo XVI, na periferia do mercantilismo do capitalismo nascente, ainda pr\u00e9-industrial e pr\u00e9-estatal. Agora, na periferia do capitalismo p\u00f3s-industrial, sob a \u00e9gide de um imperialismo Moloch.<\/p>\n<p>Em 1627, em sua\u00a0<em>Hist\u00f3ria do Brasil<\/em>, o s\u00e1bio e precursor Frei Vicente de Salvador profligava as limita\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas do portugu\u00eas: desapetrechado pol\u00edtica e economicamente, pugnava salvar-se mediante a conserva\u00e7\u00e3o da terra apossada sem luta, e salv\u00e1-la por meio de tratados negociados com na\u00e7\u00f5es mais poderosas: &#8220;Da largura que a terra do Brasil tem para o sert\u00e3o n\u00e3o trato, porque at\u00e9 agora n\u00e3o houve quem a andasse por neglig\u00eancia dos portugueses, que, sendo grandes conquistadores de terras, n\u00e3o aproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos&#8221;.<\/p>\n<p>Vida social, nenhuma. Vida pol\u00edtica, t\u00e3o-s\u00f3 a necess\u00e1ria para assegurar o dom\u00ednio\u00a0portugu\u00eas: os primeiros agentes do fisco, os primeiros militares, os primeiros fortes de defesa, os primeiros agentes da justi\u00e7a reinol; os padres e frades catequizando os catec\u00famenos, desculturalizando o gentio e o negro, matando suas almas; os jesu\u00edtas catequizando, educando, aportuguesando e construindo, territ\u00f3rio afora, suas &#8220;rep\u00fablicas&#8221;, seus aldeamentos, suas &#8220;miss\u00f5es&#8221;, um modelo de coloniza\u00e7\u00e3o clerical que palmilhou quase todo o pa\u00eds daqueles idos; caminhando desde a Amaz\u00f4nia e o Centro-Oeste ao Rio Grande do Sul, \u00e0 Argentina e ao Paraguai;\u00a0 chegaram\u00a0 a mobilizar entre 250 e 300 mil guaranis, at\u00e9 a f\u00faria pombalina que os expulsou do Brasil.<\/p>\n<p>Nascemos na periferia do mercantilismo do s\u00e9culo XVI, do capitalismo nascente, ainda pr\u00e9-industrial e pr\u00e9-estatal, e nossos donos de ent\u00e3o, pais e m\u00e3es dos donos de hoje, logo se aclimataram no \u00f3cio, pois havia \u00edndios preados para o trabalho, africanos \u00e0s m\u00e3os cheias para o eito e a morte antes do tempo. A hist\u00f3ria oficial consagrou como &#8220;her\u00f3is da P\u00e1tria&#8221; os genocidas das Entradas e Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia produ\u00e7\u00e3o, s\u00f3 o escravo trabalhava, o que n\u00e3o explica tudo, mas sugere um campo de reflex\u00e3o. Darcy Ribeiro lembra a carne e a alma dos ind\u00edgenas e dos negros que os brancos ca\u00e7avam para produzir e poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, e algod\u00e3o, e mais isso e mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, pois aqui, em se plantando (pelo bra\u00e7o escravizado), tudo dava, tudo d\u00e1; e logramos plantar cana e produzir a\u00e7\u00facar para exportar \u00e0 Europa, de onde import\u00e1vamos tudo: manufaturados, ideologia, valores, cultura, vis\u00e3o de mundo, por interm\u00e9dio dos entrepostos portugueses que nos exploravam como monop\u00f3lio comercial.<\/p>\n<p>O &#8220;brasileiro&#8221; \u00e9 o portugu\u00eas que vem &#8220;fazer a Am\u00e9rica&#8221;, enriquecer e voltar a Portugal para construir igrejas, e ser\u00e1 personagem de Camilo Castelo Branco. O propriet\u00e1rio de engenho \u00e9 um simples feitor muito rico. N\u00e3o \u00e9 um empreendedor, n\u00e3o \u00e9 um pioneiro. \u00c9 um homem da terra, reacion\u00e1rio, violento, inculto; mas, supunha, falava com Deus; precatado, mantinha em casa uma Capela devotada ao Cristo ou \u00e0 Imaculada \u00a0Cincei\u00e7\u00e3o onde se casavam os herfeiros com os herdeiros das terras vizinhas.<\/p>\n<p>S\u00e3o essas as nossas ra\u00edzes, as de um Estado classista moderno na sua abjeta concentra\u00e7\u00e3o de renda e espolia\u00e7\u00e3o social; ra\u00edzes que explicam ainda o mal de origem que intentam negacear: constru\u00eddo aos trancos e barrancos, isento de projeto de ser, desprovido de destino, o Brasil n\u00e3o \u00e9, est\u00e1 sendo; algo permanentemente em elabora\u00e7\u00e3o, sem b\u00fassola, sem azimute, talvez com ponto de partida, mas jamais dispondo de horizonte de chegada: sem r\u00e9gua e sem compasso, manipulado pela dial\u00e9tica das circunst\u00e2ncias nas quais n\u00e3o ousa intervir.<\/p>\n<p>Na transi\u00e7\u00e3o para o capitalismo, a burguesia que nos coube j\u00e1 n\u00e3o era revolucion\u00e1ria quando aqui desembarcou, e jamais seria nacional, condicionada na modernidade pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamais se desapartou de suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagista de seus avoengos. Assim v\u00ea o mundo e nele se v\u00ea.<\/p>\n<p>Essas, as nossas circunst\u00e2ncias perdurantes. Sem no\u00e7\u00e3o de si, carecemos da no\u00e7\u00e3o de mundo; sem projeto de ser, n\u00e3o temos porto de chegada. Ficamos com os argonautas, a navegar, porque navegar \u00e9 preciso.\u00a0<em>E la nave va<\/em>, mas n\u00e3o nos salva da aliena\u00e7\u00e3o: a crise \u00e9 objetiva, material, concreta e nos fisga no contrap\u00e9 da irrelev\u00e2ncia. Assim, quietos, nos escondemos diante da crise, que \u00e9 uma crise nossa, presente: ela est\u00e1 no mundo, mas est\u00e1 diretamente na Am\u00e9rica do Sul e no Brasil.<\/p>\n<p>Fruto da forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que acima se tentou resumir, nossa classe dominante, tr\u00eafega e traficante, n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de dialogar com a realidade; alienada e ideologicamente colonizada, n\u00e3o se identifica com a na\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a pode compreender. Nada se lhe deve cobrar ou esperar.<\/p>\n<p>Mas talvez ainda seja pertinente chamar \u00e0 cena a &#8220;sociedade civil&#8221;. Ou a academia, silente, omissa. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de cobrar o que quer que seja do movimento sindical, mas talvez ainda seja pertinente exigir uma postura digna dos partidos que ainda integram essa larga avenida que re\u00fane progressistas, esquerda e centro. Era e ainda \u00e9 justo, e ainda oportuno, exigir de nosso governo um m\u00ednimo de a\u00e7\u00e3o objetiva, ou seja, algo al\u00e9m das boas notas expedidas pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o terceiro andar do Pal\u00e1cio do Planalto, j\u00e1 l\u00e1 atr\u00e1s, reduzindo a agress\u00e3o imperialista a uma chantagem tarif\u00e1ria, ao fim e ao cabo delegando as negocia\u00e7\u00f5es de Estado, que haveriam de ser pol\u00edticas, \u00e0 intermedia\u00e7\u00e3o de produtores brasileiros de carne e outras commodities com autoridades dos EUA, em escrit\u00f3rios de advocacia e\u00a0<i>lobby<\/i>\u00a0de Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer o que pensa sobre o condom\u00ednio que os EUA querem instalar sobre os escombros de Gaza. \u00c9 preciso salvar a pol\u00edtica &#8220;ativa e altiva&#8221; de Celso Amorim.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o, como \u00e9 sabido, volta para seu campo nuclear, que \u00e9 a pol\u00edtica, de onde, a rigor, jamais saiu.<\/p>\n<p>Na crise que o imperialismo agrava a cada dia \u2014 Europa, Oriente M\u00e9dio, Palestina e Israel, R\u00fassia, Ucr\u00e2nia, Ir\u00e3, Dinamarca\/Groenl\u00e2ndia, Am\u00e9rica Latina e, nela, tanto a Am\u00e9rica do Sul, onde estamos, convivendo com a ascens\u00e3o da extrema-direita, que nos promete isolar, quanto com a invas\u00e3o da Venezuela, na nossa fronteira amaz\u00f4nica, o que n\u00e3o \u00e9 irrelevante, em qualquer momento e em qualquer circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Que dizer quando o chefe da diplomacia de guerra da Casa Branca anuncia como nova pol\u00edtica a retomada do &#8220;grande quintal&#8221;, proclamados o fim da pol\u00edtica, o fim do multilateralismo, o fim dos organismos internacionais? O essencial est\u00e1 na ululante fal\u00eancia do direito internacional; inane.<\/p>\n<p>A nova ordem \u00e9 a lei do mais forte, o novo \u00e9 o Velho Oeste. Soberania nacional n\u00e3o \u00e9 um valor moral, nem muito menos jur\u00eddico,\u00a0 ensina a doutrina, ensina a vida; \u00e9 uma for\u00e7a objetiva, concreta, palp\u00e1vel, que depende exclusivamente de si. A esse predicado os estrategistas chamam de capacidade de dissuas\u00e3o. De que carecemos. Porque nossas for\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o adequadamente armadas, porque sua forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica \u00e9 subalterna aos interesses do imperialismo, porque o governo ainda n\u00e3o conseguiu construir com a sociedade sua pol\u00edtica de defesa.<\/p>\n<p>Porque, ao final, carecemos de um projeto para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil, que j\u00e1 aspirou\u00a0 papel de lideran\u00e7a no plano internacional, v\u00ea-se reduzido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de objeto: pe\u00e3o em meio a outros pe\u00f5es que se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o soberano im\u00f3vel, decidindo os destinos do mundo.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, v\u00edtimas de crassa fal\u00eancia anal\u00edtica \u2014 como se a hist\u00f3ria n\u00e3o estivesse \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o para ensinar aos que querem saber \u2014, n\u00e3o nos damos conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenas um drama estranho ao nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo \u00e9 \u00fanico, a representa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00fanica, o elenco \u00e9 \u00fanico, a plateia \u00e9 \u00fanica: somos n\u00f3s. Os tempos de hoje trazem os tempos sempre contempor\u00e2neos de Shakespeare e seu\u00a0<em>Rei Lear<\/em>, na fala de Gloucester (Ato IV, Cena 1):\u00a0<i>&#8220;\u00c9 a peste do nosso tempo: quando os loucos conduzem os cegos&#8221;.<\/i><\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o s\u00e3o apenas os vivos que nos atormentam, os mortos tamb\u00e9m. 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