{"id":380580,"date":"2026-01-28T00:00:08","date_gmt":"2026-01-28T03:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=380580"},"modified":"2026-01-26T02:47:00","modified_gmt":"2026-01-26T05:47:00","slug":"a-voz-dos-vencidos-e-a-procura-da-coisa-em-lispector","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-voz-dos-vencidos-e-a-procura-da-coisa-em-lispector\/","title":{"rendered":"A voz dos vencidos e a procura da coisa, em Lispector"},"content":{"rendered":"<p>A voz dos vencidos em &#8220;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221;<\/p>\n<p>Ao pensar em poss\u00edvel an\u00e1lise de &#8221;A Quinta-Hist\u00f3ria&#8221; de Clarice Lispector, considerou-se a refer\u00eancia ao per\u00edodo p\u00f3s Segunda Guerra do s\u00e9culo XX, e que a contemporaneidade da constru\u00e7\u00e3o narrativa \u00e9 \u00fatil para ilustrar a abordagem benjaminiana sobre o narrador:<\/p>\n<p>A experi\u00eancia que passa de pessoa a pessoa \u00e9 a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores s\u00e3o as que menos se distinguem das hist\u00f3rias orais contadas pelos in\u00fameros narradores an\u00f4nimos. Entre estes, existem dois grupos que se interpenetram de m\u00faltiplas maneiras. A figura do narrador s\u00f3 se torna plenamente tang\u00edvel se temos presentes esses dois [:] algu\u00e9m que vem de longe [e] o homem que ganhou honestamente sua vida sem sair do seu pa\u00eds e que conhece suas hist\u00f3rias e tradi\u00e7\u00f5es. (BENJAMIN, 1987).<\/p>\n<p>Frequentemente, as narrativas ocidentais se distanciam das hist\u00f3rias orais e constituem um aparato hegem\u00f4nico cujo proselitismo se sustenta, ao longo da Hist\u00f3ria \u2013 canonizada pelo poder dos imp\u00e9rios. Padre Antonio Vieira nomeou os imp\u00e9rios: Ass\u00edrio, Persa, Grego, Romano, e, sob a \u00e9gide da cren\u00e7a milenarista, pleiteou, no Serm\u00e3o do Esposo da M\u00e3e de Deus, que o quinto imp\u00e9rio seria o de Portugal. Em Mensagem, Fernando Pessoa retoma o sebastianismo portugu\u00eas no poema O Quinto Imp\u00e9rio (1934). Em &#8221;A Quinta-Hist\u00f3ria&#8221; de Clarice Lispector \u2013 desde seu t\u00edtulo \u2013 percebe-se a den\u00fancia \u00e0s narrativas fundamentalistas (tais como a referente ao quinto imp\u00e9rio).<\/p>\n<p>Publicado em Felicidade Clandestina, em 1971, mas referente ao universo que trata dos anos 1950-1960, o conto &#8221;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221; prop\u00f5e cinco vers\u00f5es narrativas dos seguintes fatos: &#8220;queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como mat\u00e1-las. [&#8230;] Assim fiz. Morreram.&#8221;.<\/p>\n<p>O conto apresenta cinco diferentes maneiras de narrar como se deu a aprendizagem do preparo e da aplica\u00e7\u00e3o de um veneno infal\u00edvel na elimina\u00e7\u00e3o de baratas. Os t\u00edtulos das vers\u00f5es que a narradora considera &#8220;verdadeiras&#8221; s\u00e3o: &#8220;Como Matar Baratas&#8221;, &#8220;O Assassinato&#8221; e &#8220;As Est\u00e1tuas&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Como Matar Baratas&#8221; permanece no n\u00edvel discursivo do senso comum, \u00e9 informativo, factual, denotativo e informal. Traz a receita: &#8220;Que misturasse em partes iguais a\u00e7\u00facar, farinha e gesso. A farinha e o a\u00e7\u00facar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.&#8221;.<\/p>\n<p>A segunda hist\u00f3ria do conto narra &#8220;O Assassinato&#8221;: &#8220;Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o p\u00f3 at\u00e9 que este mais parecia formar parte da natureza.&#8221;. Conforme a teoria darwinista da evolu\u00e7\u00e3o, constata-se a vit\u00f3ria do mais forte sobre o mais fraco: &#8220;J\u00e1 era de madrugada. [&#8230;] No ch\u00e3o da \u00e1rea l\u00e1 estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome amanhecia.&#8221; A express\u00e3o &#8220;nosso nome&#8221; sinaliza que a dona de casa representa uma classe social ou uma ra\u00e7a. E a palavra &#8220;amanhecia&#8221; adquire uma conota\u00e7\u00e3o positivista ou de constru\u00e7\u00e3o do progresso.<\/p>\n<p>Na terceira hist\u00f3ria (&#8220;As Est\u00e1tuas&#8221;), a narradora descreve as baratas mortas pela evoca\u00e7\u00e3o da imagem do desaparecimento da antiga cidade romana de Pompeia, devido \u00e0 erup\u00e7\u00e3o do vulc\u00e3o Ves\u00favio: &#8220;Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pomp\u00e9ia&#8221;. (LISPECTOR, 1998).<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da profana Pompeia que desaparecera pelo fogo preservou-se por meio da narrativa oral, mas foi tida por mito durante quinze s\u00e9culos, at\u00e9 obter comprova\u00e7\u00e3o material, em 1748, quando foram feitas escava\u00e7\u00f5es no local. Os corpos dos antigos habitantes foram encontrados como est\u00e1tuas que reproduziam a a\u00e7\u00e3o feita no momento da cat\u00e1strofe. De maneira similar, Lispector narra a morte das baratas por envenenamento:<\/p>\n<p>A terceira hist\u00f3ria que ora se inicia \u00e9 a das &#8220;Est\u00e1tuas&#8221;. [&#8230;] E na escurid\u00e3o da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus p\u00e9s sombras e brancuras: dezenas de est\u00e1tuas se espalham r\u00edgidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que n\u00e3o se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. (LISPECTOR, 1998).<\/p>\n<p>&#8220;As Est\u00e1tuas&#8221; remete a um universo das verdades que n\u00e3o bastam ser narradas, mas demandam comprova\u00e7\u00f5es materiais. No texto, essa materialidade se d\u00e1 pela atribui\u00e7\u00e3o de comportamentos e sentimentos humanos \u00e0s baratas:<\/p>\n<p>Em algumas o gesso ter\u00e1 endurecido t\u00e3o lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, ter\u00e3o sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. At\u00e9 que de pedra se tornam, em espanto de inoc\u00eancia, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras \u2013 subitamente assaltadas pelo pr\u00f3prio \u00e2mago, sem nem sequer ter tido a intui\u00e7\u00e3o de um molde interno que se petrificava! \u2013 essas de s\u00fabito se cristalizam, assim como a palavra \u00e9 cortada da boca: eu te&#8230; Elas que, usando o nome de amor em v\u00e3o, na noite de ver\u00e3o cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, ter\u00e1 adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por n\u00e3o ter sabido usar as coisas com a gra\u00e7a gratuita do em v\u00e3o: &#8220;\u00e9 que olhei demais para dentro de&#8230;&#8221; (LISPECTOR, 1998).<\/p>\n<p>A remiss\u00e3o aos cad\u00e1veres das baratas como est\u00e1tuas \u00e9 &#8220;figura chave para a alegoria, pois cria, atrav\u00e9s do seu espectro materializado, o espa\u00e7o do imagin\u00e1rio que sonha com a vida.&#8221; (ANDRADE, 2016).<\/p>\n<p>A quarta hist\u00f3ria menciona as sensa\u00e7\u00f5es da narradora e o pressentimento de que novas baratas surgiriam:<\/p>\n<p>A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Come\u00e7a como se sabe: queixei-me de baratas. Vai at\u00e9 o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde essa mesma noite renovar-se-\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o lenta e viva em fila indiana. Eu iria ent\u00e3o renovar todas as noites o a\u00e7\u00facar letal como quem j\u00e1 n\u00e3o dorme sem a avidez de um rito? (LISPECTOR, 1998).<\/p>\n<p>Na quarta hist\u00f3ria, a narradora reflete sobre &#8220;o v\u00edcio de viver&#8221; que rebenta seu &#8220;molde interno&#8221; perante a escolha entre sobreviver ou salvar a sua alma:<\/p>\n<p>Estremeci de mau prazer \u00e0 vis\u00e3o daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci tamb\u00e9m ao aviso do gesso que seca: o v\u00edcio de viver que rebentaria meu molde interno. \u00c1spero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrif\u00edcio: eu ou a minha alma. (LISPECTOR, 1998).<\/p>\n<p>A escolha redunda em passar a ostentar &#8220;secretamente no cora\u00e7\u00e3o uma placa de virtude: Esta casa foi dedetizada&#8221; (LISPECTOR, 1998).<\/p>\n<p>A placa Esta casa foi dedetizada \u00e9 &#8221;como um pr\u00eamio de virtude, uma cena aleg\u00f3rica da limpeza \u00e9tnica nazista&#8221; (ANDRADE, 2016).<\/p>\n<p>&#8220;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221; evoca quest\u00f5es presentes tais como: as massas de exclu\u00eddos de sua pr\u00f3pria p\u00e1tria por pobreza ou guerra, a separa\u00e7\u00e3o entre os que conseguir\u00e3o trabalhar sob regime de escravid\u00e3o (ainda que volunt\u00e1ria) e os que permanecer\u00e3o abaixo da linha da pobreza; a aliena\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo frente o problema do outro; a forma\u00e7\u00e3o de falsas redes que giram em torno de si mesmas; o fim do dialogismo.<\/p>\n<p>&#8220;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221; \u00e9 um laborat\u00f3rio do processo narrativo em que uma \u00fanica narradora se abre ao projeto de constru\u00e7\u00e3o da alteridade a partir do &#8220;senso pr\u00e1tico [que] \u00e9 uma das caracter\u00edsticas de muitos narradores natos.&#8221; (BENJAMIN, 1987). As diferentes narrativas do conto &#8221;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221; resultam dos esfor\u00e7os da viv\u00eancia do papel de narradora nata que se modifica ao experimentar o contido nas pr\u00f3prias narrativas.<\/p>\n<p>A narradora conta &#8220;tr\u00eas hist\u00f3rias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma \u00fanica, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.&#8221; (LISPECTOR, 1998). Tal qual Sherazade, pretende sobreviver pela manuten\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o oral. As repeti\u00e7\u00f5es ao longo dos diferentes momentos narrativos tentam construir tal tradi\u00e7\u00e3o. A identidade da voz que narra determina o convencimento sobre a verdade do que \u00e9 narrado. Lispector n\u00e3o d\u00e1 pronta essa identidade. Apenas constr\u00f3i pistas de identifica\u00e7\u00f5es em cada um dos segmentos narrativos do conto.<\/p>\n<p>A quarta narrativa (&#8220;Esta casa foi dedetizada&#8221;), assim como a quinta (&#8220;Leibniz e a Transcend\u00eancia do Amor na Polin\u00e9sia&#8221;) n\u00e3o s\u00e3o reconhecidas como literalmente verdadeiras pela narradora, \u00e0 revelia de referirem, metaforicamente, a fatos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>&#8220;Esta casa foi dedetizada&#8221; refere ao projeto de higieniza\u00e7\u00e3o dos campos de concentra\u00e7\u00e3o evocando as amea\u00e7as: &#8221;Um piolho \u00e9 a sua morte&#8221; e &#8221;Limpeza \u00e9 sa\u00fade&#8221;. Os ambulat\u00f3rios m\u00e9dicos dos campos de concentra\u00e7\u00e3o realizavam pesquisas com humanos que inclu\u00edam mutila\u00e7\u00f5es e envenenamentos, ao inv\u00e9s de prestar atendimento aos mais fr\u00e1geis. A sopa era servida somente aos aptos ao trabalho.<\/p>\n<p>Em &#8220;Leibniz e a Transcend\u00eancia do Amor na Polin\u00e9sia&#8221; h\u00e1 v\u00e1rias chaves de leitura sobrepostas. Leibniz (1646 &#8211; 1716) foi fil\u00f3sofo, mas tamb\u00e9m diplomata alem\u00e3o. Da\u00ed considerar como primeira chave a do olhar estrangeiro sobre os fatos narrados. Como fil\u00f3sofo, Leibniz tentou encontrar o princ\u00edpio que rege a ordem da exist\u00eancia das verdades de fato. Essa tentativa tamb\u00e9m comparece na busca da narradora de &#8221;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221;. Como germ\u00e2nico, Leibniz remete \u00e0 imagem de povo alem\u00e3o que, no s\u00e9culo XIX, foi associada ao Romantismo (em seus temas de amor, morte, idealismo), mas, no s\u00e9culo XX, ao nazismo. A men\u00e7\u00e3o \u00e0 Transcend\u00eancia do amor remete ao amor que as baratas foram impedidas de declarar ao serem envenenadas. A Polin\u00e9sia \u00e9 um conjunto de ilhas no Sul do Oceano Pac\u00edfico. Muitas delas s\u00e3o col\u00f4nias dos Estados Unidos \u2013 protagonista tanto da destrui\u00e7\u00e3o nuclear de Hiroshima e Nagasaki, como do contexto mundial da Guerra Fria. Essa comparece sob a met\u00e1fora da noite ou cen\u00e1rio da destrui\u00e7\u00e3o planejada por algozes vitoriosos contra a inoc\u00eancia das v\u00edtimas ou das baratas: &#8220;Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite.&#8221; (LISPECTOR, 1998).<\/p>\n<p>O final do conto mant\u00e9m a abertura para um novo recome\u00e7o a ser tecido pela leitora. O conceito de verdade fica no plano existencial; \u00e9 algo que precisa ser experimentado por quem assim o define.<\/p>\n<p>No conto &#8221;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221;, as baratas agonizantes morrem em movimento. Em Noite e Neblina, os prisioneiros doentes &#8220;morrem de olhos abertos&#8221; (CAYROL, 1946) nas enfermarias do campo de concentra\u00e7\u00e3o, sinal de nada fora feito para amenizar suas dores. Em &#8221;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221;, as vozes das baratas agonizantes comparecem entre cortadas pelos efeitos do veneno algoz tal qual voz da testemunha que se ergue soberana \u00e0s imagens do genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>Conclui-se que o projeto filos\u00f3fico de Walter Benjamin \u2013 que pretende que a voz dos vencidos se coloque como ant\u00edtese \u00e0s teses das classes dominantes \u2013 foi contemplado por Lispector.<br \/>\n(Edna Domenica)<\/p>\n<p>Clarice Lispector e &#8220;A procura da coisa&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Clarice veio de um mist\u00e9rio, partiu para outro. Ficamos sem saber a ess\u00eancia do mist\u00e9rio. Ou o mist\u00e9rio n\u00e3o era essencial. Essencial era Clarice viajando nele.&#8221; (Carlos Drummond de Andrade)<\/p>\n<p>Clarice ou Chaya Pinkhasovna Lispector, que nasceu em uma aldeia na atual Ucr\u00e2nia, \u00e9 uma das escritoras mais lidas no Brasil e no exterior. Tem cerca de 200 tradu\u00e7\u00f5es em dez idiomas. Na internet \u00e9 comum encontrar frases e pensamentos creditados a Clarice, por\u00e9m, sem comprova\u00e7\u00e3o ou beirando crime autoral.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es de sua obra ganhar o mundo s\u00e3o muitas, entre elas a capacidade de despertar o leitor para si e para o outro. Na base, a qualidade das cria\u00e7\u00f5es, tem\u00e1ticas e textos. E a pr\u00f3pria Clarice, a mulher guerreira, corajosa e absolutamente anos-luz \u00e0 frente de seu tempo.<\/p>\n<p>LER CLARICE \u00c9 URGENTE E FUNDAMENTAL<\/p>\n<p>Sempre foi e, nos dias de hoje, sua literatura assume ainda maior import\u00e2ncia, na medida em que ela se exercita \u2013 e nos leva junto, atrav\u00e9s da sua linguagem \u2013 a construir e aperfei\u00e7oar o respeito pelas minorias e os marginalizados. Clarice \u00e9 pura alteridade\/empatia. E mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>A &#8220;bruxa&#8221; \u2013 como era chamada pelos mais \u00edntimos dela &#8211; deixou extensa e rica obra em g\u00eaneros narrativos diversos. Clarice escreveu cr\u00f4nicas, contos, romances, literatura infantil, p\u00e1ginas femininas em revista e atuou ativamente como jornalista. E tamb\u00e9m cartas, al\u00e9m de um livro de lendas brasileiras, uma confer\u00eancia, uma pe\u00e7a de teatro, um artigo sobre tradu\u00e7\u00e3o e in\u00fameras entrevistas, enquanto entrevistadora, para peri\u00f3dicos cariocas. Ufa!<\/p>\n<p>A &#8220;PROCURA DA COISA&#8221; E A LIBERTA\u00c7\u00c3O DAS MULHERES<\/p>\n<p>O universo tem\u00e1tico da autora \u00e9 marcante. Mas, sem d\u00favida, o mais presente \u00e9 a pr\u00f3pria Clarice, que menciona ao longo de seus escritos &#8220;a procura da coisa&#8221;. De fato, personagens, sobretudo mulheres, em certos momentos s\u00e3o levadas pela linguagem a um territ\u00f3rio outro, que n\u00e3o \u00e9 o da l\u00f3gica, mas o que ela chama de &#8220;atr\u00e1s do pensamento&#8221;, em que experi\u00eancias singulares e complexas afloram de encantamento e nojo, paradoxalmente envolvidas num mesmo halo de vida e morte, como se a\u00ed se concentrasse o sentido da condi\u00e7\u00e3o humana, um para\u00edso infernal ou um inferno paradis\u00edaco, o &#8216;\u00e2mago da coisa&#8217;, mat\u00e9ria viva pulsando.<\/p>\n<p>Para reencontrar Clarice Lispector, recorri ao trabalho extraordin\u00e1rio da professora N\u00e1dia Battella Gotlib, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP. A pesquisadora, pioneira da vida e obra de Clarice, destaca sobre &#8220;A Hora da Estrela&#8221;:<\/p>\n<p>&#8220;O romance foi publicado antes da morte da autora e contou com a colabora\u00e7\u00e3o de Olga Borelli, que foi sua secret\u00e1ria nos \u00faltimos sete anos de vida de Clarice. Olga assumiu essa fun\u00e7\u00e3o porque Clarice passou a ter dificuldades de escrever por causa da m\u00e3o deformada devido a um inc\u00eandio ocorrido em seu apartamento, em 1966. Essa coincid\u00eancia entre o per\u00edodo da escrita \u2013 antes de ficar doente \u2013 e a data de sua morte cria mesmo uma impress\u00e3o de que se trata de uma obra de agonia&#8221;.<\/p>\n<p>MIST\u00c9RIOS E INFINITOS<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos fatos e aspectos ainda n\u00e3o conhecidos e\/ou revelados sobre Clarice Lispector, pois sua inestim\u00e1vel obra provoca, instiga, desmonta o que tende a se cristalizar; como num labirinto. Seus textos pedem leitores abertos \u00e0s inova\u00e7\u00f5es da linguagem e \u00e0s rupturas com padr\u00f5es de comportamentos e com a pr\u00f3pria l\u00f3gica. Subjetividades concretas \u00e0 flor da pele.<\/p>\n<p>Como bem escreveu Caetano Veloso em sua can\u00e7\u00e3o antol\u00f3gica: &#8220;Que mist\u00e9rios tem Clarice?&#8221;<br \/>\n(Gilberto Motta)<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>ANDRADE, Ana Lu\u00edsa. Insetos. A modernidade de uma linguagem em ru\u00ednas: contra-arquiteturas. In: Ruinologias. Editora da UFSC. 2016.<\/strong><\/p>\n<p><strong>BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Obras escolhidas: Magia e T\u00e9cnica, Arte e Pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987.<\/strong><\/p>\n<p><strong>GOTLIB, N\u00e1dia Battella. &#8220;Metamorfoses do Mal: Uma Leitura de Clarice Lispector&#8221;, 1999, e relan\u00e7ado pela Edusp em 2006, e &#8220;Clarice Lispector&#8221;, 2002 \u2013 Publifolha. <\/strong><\/p>\n<p><strong>LISPECTOR, Clarice. A Quinta Hist\u00f3ria. In Felicidade Clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/nesgadeterra.blogspot.com\/2013\/12\/a-quinta-historia-clarice-lispector.html\">https:\/\/nesgadeterra.blogspot.com.br\/2013\/12\/a-quinta-historia-clarice-lispector.html<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>MARCONATTO, Arildo Luiz. Gotfried Leibniz. Dispon\u00edvel em <a href=\"http:\/\/www.filosofia.com.br\/historia_show.php?id=76\">http:\/\/www.filosofia.com.br\/historia_show.php?id=76<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>MEROLA, E Domenica. Blog Aquecendo a escrita. Postado e 04\/12\/2017. <a href=\"https:\/\/aquecendoaescrita.blogspot.com\/2017\/12\/os-narradores-em-quinta-historia-e.html\">https:\/\/aquecendoaescrita.blogspot.com\/2017\/12\/os-narradores-em-quinta-historia-e.html<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Edna Domenica \u00e9 autora de &#8220;O Set\u00eanio&#8221; (T\u00e3o livros, 2024) e co-autora de &#8220;Raps\u00f3dia da Rua da Mooca&#8221; (T\u00e3o livros, no prelo). Dedica-se ao PRCDC \u2013 &#8220;Programa de Recupera\u00e7\u00e3o Cognitiva e Dessensibiliza\u00e7\u00e3o de Cromofobia&#8221; &#8211; um projeto de leituras dos autores: Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Chico Buarque de Holanda, e outros.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista, professor\/ pesquisador de mist\u00e9rios e entre eles, Clarice cada vez mais um infinito enigma, uma busca. Vive na Guarda do Emba\u00fa, vila de pescadores no Litoral Sul de SC.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A voz dos vencidos em &#8220;A Quinta Hist\u00f3ria&#8221; Ao pensar em poss\u00edvel an\u00e1lise de &#8221;A Quinta-Hist\u00f3ria&#8221; de Clarice Lispector, considerou-se a refer\u00eancia ao per\u00edodo p\u00f3s Segunda Guerra do s\u00e9culo XX, e que a contemporaneidade da constru\u00e7\u00e3o narrativa \u00e9 \u00fatil para ilustrar a abordagem benjaminiana sobre o narrador: A experi\u00eancia que passa de pessoa a pessoa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":380581,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-380580","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - 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