{"id":380673,"date":"2026-01-31T01:15:08","date_gmt":"2026-01-31T04:15:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=380673"},"modified":"2026-01-26T10:15:04","modified_gmt":"2026-01-26T13:15:04","slug":"o-inferno-e-um-comodo-que-te-segue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-inferno-e-um-comodo-que-te-segue\/","title":{"rendered":"O INFERNO \u00c9 UM C\u00d4MODO QUE TE SEGUE"},"content":{"rendered":"<p>Passei mais de quatro anos da minha vida naquele apartamento. Detestava a vizinhan\u00e7a, que pouco via, e desejava sair dali o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, mas o dinheiro nunca dava. Eram dois lances de escada e, ao abrir a porta do hall comum, vinha, de algum lugar, um cheiro indescrit\u00edvel que eu n\u00e3o suportava. Era horr\u00edvel, parecia enviado de algum tempo passado para me advertir da fugacidade da vida e de seus dramas. A luz amarela, que iluminava a passagem, me fazia doer os olhos quando eu chegava dos plant\u00f5es noturnos. Subia r\u00e1pido as escadas, abria a porta que dava para a min\u00fascula sala em forma de \u201cL\u201d e, em vez de encontrar conforto, lembrava de tudo o que me dava asco. N\u00e3o podia abrir a janela, pois ela esbarrava no galho da \u00e1rvore defronte ao pr\u00e9dio, e pelos galhos subiam ratos que, mais de uma vez, surpreendi tentando invadir onde eu habitava. E as baratas, ai as baratas, que vinham voando, desorientadas, sala adentro, essas criaturas do diabo.<\/p>\n<p>O banheiro min\u00fasculo, com azulejos cafonas e o chuveiro sem press\u00e3o, aumentava o meu supl\u00edcio. Por mais que eu o limpasse, era estranho: eu o sentia sempre sujo, t\u00e3o sujo quanto o de um botequim qualquer. A pia velha, de lou\u00e7a azul com microfissuras, presa \u00e0 parede por m\u00e3os-francesas frouxas, e a maldita cortina de pl\u00e1stico, t\u00e3o leve, pendurada num bast\u00e3o, que, ao menor vento, mexia-se e grudava no meu corpo molhado enquanto eu me banhava. A cozinha, com seus rid\u00edculos arm\u00e1rios de f\u00f3rmica, completava o cen\u00e1rio t\u00e9trico dos meus dias. Sem falar no quarto que, com umidade na parede que dava para a rua, coroava o rid\u00edculo em que eu me enfurnara, roubando, \u00e0s vezes, qualquer esperan\u00e7a, por menor que fosse, de mudar de ares.<\/p>\n<p>Vinha da rua a inc\u00f4moda sonoridade dos \u00f4nibus, das ambul\u00e2ncias do hospital na esquina, dos b\u00eabados do botequim pr\u00f3ximo e a fuma\u00e7a constante da <em>dark kitchen<\/em> colada \u00e0 parede do edif\u00edcio. Nem sei como suportei tanto tempo. Em verdade, sei sim: o dinheiro, sempre ele. Eu precisava reunir algum para a mudan\u00e7a, para pagar as cotas de condom\u00ednio vencidas, resultado daquele tempo de aperto que passei logo ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o. E, trabalhando do jeito que eu trabalhava, era complicado arrumar tempo para achar outro apartamento, providenciar os documentos necess\u00e1rios para o contrato de loca\u00e7\u00e3o e fazer a mudan\u00e7a. Na hora do aperto, quem eu encontrava para me ajudar? Havia amigos para a farra, amigos para as viagens, amigos para as fofocas. Mas para carregar peso, todos fugiam.<\/p>\n<p>Passei a pegar todos os plant\u00f5es que podia, e trabalhar o que coubesse nas vinte e quatro horas do dia. N\u00e3o suportava a ideia de voltar para aquela pocilga. A s\u00edndica, uma mulher horrenda, viera me cobrar as cotas de condom\u00ednio em atraso. Aproveitou que eu passava pelo hall para p\u00f4r o lixo para fora e me interpelou. Mal pude entender o que ela dizia. Olhava apenas aqueles olhos cru\u00e9is, o cabelo sujo em desalinho, as unhas ridiculamente pintadas de uma cor indiz\u00edvel, aquele h\u00e1lito horr\u00edvel&#8230; Nem lembro o que respondi, apenas passei o recado de que n\u00e3o estava para conversa encurtando aquela intromiss\u00e3o impertinente no meu cotidiano e fechando a porta do apartamento com toda a for\u00e7a, para que fizesse um estrondo. E a for\u00e7a foi t\u00e3o grande, que arrancou um pedacinho de reboco sobre o portal. Podrid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao cabo de um longo per\u00edodo, em que me questionei como homem e como profissional reconhecido na minha \u00e1rea, j\u00e1 cansado de fazer contas que nunca fechavam, resolvi que eu me mudaria a qualquer custo, pois ficar naquele apartamento seria a morte. E n\u00e3o adiantava s\u00f3 mudar de apartamento. Queria mudar, tamb\u00e9m, de vizinhan\u00e7a, de rua, de bairro&#8230; S\u00f3 n\u00e3o conseguiria mudar de cidade. Pesquisei dias seguidos, em todo tempo que me sobrava, e achei uma casa para alugar que era um sonho. Fui conhec\u00ea-la numa tarde amuada, que poderia representar minha liberta\u00e7\u00e3o daquele pesadelo atroz. Ficava num bairro diferente, n\u00e3o cont\u00edguo ao em que estava morando, numa rua residencial, tranquila, perto de uma pra\u00e7a linda. A casa era t\u00e9rrea, com uma grande varanda na frente, no centro do terreno. Em frente, havia um jardim com alguns canteiros de alvenaria tra\u00e7ando linhas sinuosas, um pequeno banco de pedra, tudo cal\u00e7ado por um piso antigo, de cer\u00e2mica vermelha. Havia garagem do lado direito, onde bem cabiam uns tr\u00eas carros. Entrando-se pela sala, de p\u00e9-direito alto, teto guarnecido de rica sanca de gesso, acessava-se uma outra, um pouco menor, onde bem poderia fazer uma bela biblioteca. Dali partia um corredor que levava a tr\u00eas amplos dormit\u00f3rios, todos arejados e iluminados. Banheiro havia tr\u00eas, modernos, bonitos, e eu ficara feliz em ver que todos eram guarnecidos de box revestido de vidro. Nada mais daquela infame cortininha de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Ao fundo, uma cozinha imensa, clara, onde certamente daria gosto cozinhar algo num dia de folga, talvez rodeado de amigos. At\u00e9 pensei em chamar gente da fam\u00edlia para a inaugura\u00e7\u00e3o. Meus pais, minha tia Zelina, o Teuto e o Bod\u00e3o, meus primos. Meus filhos certamente n\u00e3o poderiam ir. Estavam sendo convencidos pela m\u00e3e deles que eu era um p\u00e9ssimo pai, um mau exemplo, que estava devendo dinheiro de pens\u00e3o aliment\u00edcia. Era mentira, Carla procurava fazer aliena\u00e7\u00e3o parental \u2013 conhecia a express\u00e3o desde que, alguns dias antes, consultara um advogado no centro da cidade. O advogado n\u00e3o me inspirou tanta confian\u00e7a, era impaciente no explicar, n\u00e3o me olhava nos olhos, mas havia um lindo rel\u00f3gio de p\u00eandulo no escrit\u00f3rio. Ele bem ficaria bonito na sala de minha casa nova, ecoando seu ru\u00eddo hipn\u00f3tico pelos c\u00f4modos, amplificando o ritmo certo de seu trabalho pela escurid\u00e3o da noite.<\/p>\n<p>Sem pensar muito, disse ao corretor que queria alugar aquela casa, e que n\u00e3o me importava a garantia. Dep\u00f3sito-cau\u00e7\u00e3o? Claro! Fiador? Arrumava-se. Seguro-fian\u00e7a? N\u00e3o tem problema, vamos em frente. Havia, afinal, me preparado para aquilo durante todo o tempo em que estivera no inferno do pequeno apartamento e seus cheiros med\u00edocres.<\/p>\n<p>Arrumei, com meus contatos, um atestado m\u00e9dico de uma semana para poder cuidar da mudan\u00e7a. E como deu trabalho. N\u00e3o imaginava que poucos anos num apartamento min\u00fasculo rendesse tanta coisa para empacotar. Ao fim, resolvi levar o essencial, e joguei fora praticamente todos os m\u00f3veis que usara naquele per\u00edodo, mais um tanto de roupas, livros e outros objetos. Iria come\u00e7ar vida nova, precisava de coisas novas, ambiente novo, energia nova&#8230; Agora havia dinheiro. Dei-me ao luxo de comprar geladeira, fog\u00e3o, mesa, um sof\u00e1 magn\u00edfico, uma TV enorme, uma cama exageradamente grande, dentre v\u00e1rias outras coisas. A cereja do bolo foi o rel\u00f3gio. Garimpei num antiqu\u00e1rio da cidade, e paguei uma pequena fortuna, por um rel\u00f3gio de p\u00eandulo dourado igualzinho \u00e0quele que vi no escrit\u00f3rio do advogado. Pendurei-o bem no centro da parede da sala. E obtive mais um atestado m\u00e9dico de sete dias para esperar aquilo tudo ser entregue e montado.<\/p>\n<p>Afinal, estava instalado no novo endere\u00e7o. Percebi que, de manh\u00e3, o som remoto de crian\u00e7as indo para a escola chegava ao meu quarto. Era nada em compara\u00e7\u00e3o com as ambul\u00e2ncias e os b\u00eabados no \u00faltimo endere\u00e7o. De noite, ouvia o barulho do trem que passava a algumas quadras dali. O tique-taque do rel\u00f3gio antigo, que ainda tocava as meias horas e as horas cheias, preenchia o cen\u00e1rio com um toque id\u00edlico. Come\u00e7ava, ali, a mudan\u00e7a na minha vida. Eu seria feliz, completo, entusiasmado.<\/p>\n<p>Esse id\u00edlio, no entanto, durou pouco. T\u00e3o pouco que nem entendi direito o processo. Diria que n\u00e3o chegou a durar at\u00e9 o tempo em que pretendia fazer a festa de inaugura\u00e7\u00e3o da casa nova e chamar meus pais, minha tia Zelina, o Teuto e o Bod\u00e3o, meus primos.<\/p>\n<p>Em dias, que n\u00e3o foram muitos, pensava nas mil formas de aniquilar as rid\u00edculas crian\u00e7as e a algazarra matinal que aprontavam. A casa come\u00e7ou a dar muito trabalho. Era enorme para um homem solit\u00e1rio como eu. E para qu\u00ea tr\u00eas banheiros?! O ch\u00e3o da cozinha vivia repleto de p\u00f3 e sujeira, pois o piso claro amplificava o problema e o tempo era insuficiente para ficar limpando. O jardim se transformaria, certamente, numa selva escura, pois n\u00e3o havia um funcion\u00e1rio de condom\u00ednio para cuidar, eu estava ali s\u00f3.<\/p>\n<p>A casa era t\u00e3o grande que chegava a dar eco. Uma sensa\u00e7\u00e3o de frio, de abandono. N\u00e3o sei bem explicar. O rel\u00f3gio de p\u00eandulo, com o tique-taque amplificado madrugada adentro, come\u00e7ou a me irritar profundamente, e cogitava parar de dar-lhe corda, apesar do pavor que tinha por rel\u00f3gios parados. De dia, nem tanto, mas \u00e0 noite ele me ofendia os ouvidos em sua cad\u00eancia indiferente e cruel. Certa vez surpreendi-me parado em frente a ele, como hipnotizado, e comecei a sentir um cheiro estranho. Vinha de algum lugar. Fui at\u00e9 a janela pr\u00f3xima, apurei os sentidos, puxei uma inspira\u00e7\u00e3o funda, e n\u00e3o era dali. Circulei, ainda, pela sala, farejando como um cachorro de ca\u00e7a, mas n\u00e3o achei a origem. Lembrava muito o cheiro insuport\u00e1vel do hall do antigo pr\u00e9dio. Aquilo me angustiou.<\/p>\n<p>O cheiro passou a me acompanhar. E n\u00e3o era s\u00f3 ele. Dos tr\u00eas banheiros da casa, escolhi um para usar, pois a limpeza peri\u00f3dica ficaria mais f\u00e1cil. E, em todos eles, n\u00e3o importava o que fizesse, um odor de botequim fedorento permanecia, resistindo a litros de \u00e1gua sanit\u00e1ria e desinfetante, impregnando at\u00e9 as minhas toalhas.<\/p>\n<p>Numa madrugada, cheguei do plant\u00e3o e, ao passar pelo rel\u00f3gio, l\u00e1 estava ele, preciso, enumerando as horas que eram marcadas para ningu\u00e9m. Com uma atitude impensada, agarrei sua caixa com as duas m\u00e3os e forcei-a em dire\u00e7\u00e3o a mim. O gancho que o sustentava na parede deslocou-se facilmente e o rel\u00f3gio foi ao ch\u00e3o, com um estrondo de vidro quebrado e molas se soltando. Atr\u00e1s dele, na parede, um ponto de umidade. Esquisito, talvez nenhum cano passasse por ali. Havia uma mancha escura, \u00famida, com reboco fofo, como ferida. Passei o dedo e ele afundou. Cheirei por instinto e senti, com precis\u00e3o, o hall do outro pr\u00e9dio, os dois lances de escada, a luz amarela, a dor nos olhos. Podrid\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor-executivo de Notibras, poeta, advogado e professor. Autor dos livros \u201cA Verdade nos Seres\u201d e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passei mais de quatro anos da minha vida naquele apartamento. Detestava a vizinhan\u00e7a, que pouco via, e desejava sair dali o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, mas o dinheiro nunca dava. 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