{"id":380865,"date":"2026-01-30T00:00:45","date_gmt":"2026-01-30T03:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=380865"},"modified":"2026-01-28T02:12:24","modified_gmt":"2026-01-28T05:12:24","slug":"dessa-vez-nao-podia-culpar-sua-imaginacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/dessa-vez-nao-podia-culpar-sua-imaginacao\/","title":{"rendered":"Dessa vez n\u00e3o podia culpar sua imagina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Joel produzia contos, muitos deles com uma mescla de erotismo e humor. Certa ocasi\u00e3o, ia escrever que uma personagem dava mais que chuchu na cerca \u2013 uma de suas express\u00f5es favoritas \u2013, quando escutou algu\u00e9m dizer baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; Da p\u00e1 virada, escreve que ela era da p\u00e1 virada!<\/p>\n<p>Ele levou um susto. Mas logo deu de ombros. Imagina\u00e7\u00e3o \u00e0 solta. E sorriu com saudade, era uma das express\u00f5es favoritas de sua av\u00f3.<\/p>\n<p>Foi em frente, e chegou no peda\u00e7o em que a mo\u00e7a mais que generosa n\u00e3o queria fazer com o protagonista. Finalmente ela cede, e ele diz a frase surpreendente, que termina o conto:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, querida, voc\u00ea fez doce, eu sou diab\u00e9tico!<\/p>\n<p>J\u00e1 tinha digitado o \u201cN\u00e3o, querida\u201d, quando ouviu outra voz:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea fez chiqu\u00ea! Escreve voc\u00ea fez chiqu\u00ea, porra!<\/p>\n<p>Dessa vez n\u00e3o podia culpar sua imagina\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o tinha o h\u00e1bito de xing\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8211; Somos n\u00f3s \u2013 e duas palavras se materializaram. Uma estava de luvas, chap\u00e9u com v\u00e9u, trajes pretenciosos, exageradamente elegantes; a outra vestia uma saia curt\u00edssima e uma blusa baratinha com um decote pra l\u00e1 de escandaloso. \u201cA da falsa eleg\u00e2ncia \u00e9 a do chiqu\u00ea, a vulgarzinha \u00e9 a da p\u00e1 virada\u201d, percebeu. E atribuiu-lhes esses termos, como se fossem nomes pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>&#8211; Palavras sempre me visitam, do contr\u00e1rio eu n\u00e3o escreveria. Mas \u00e9 a primeira vez que interferem no texto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o jeito \u2013 disse Chiqu\u00ea, com um suspiro. \u2013 Os escritores est\u00e3o esquecendo das palavras e express\u00f5es mais antigas, t\u00e3o gostosas, t\u00e3o expressivas &#8230;\u00c9 s\u00f3 cara, v\u00e9i, mano, e palavr\u00e3o, bota palavr\u00e3o nisso! Enquanto n\u00f3s, a esmagadora maioria das palavras da l\u00edngua portuguesa, ficamos chuchando o dedo, cobertas de teias de aranha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Da l\u00edngua portuguesa? Aff \u2013 zombou P\u00e1 virada. \u2013 Voc\u00ea \u00e9 francesa, desembarcou no Brasil outro dia, com as polacas. Todas da p\u00e1 virada que nem eu&#8230;<\/p>\n<p>Chiqu\u00ea preferiu n\u00e3o responder e continuou.<\/p>\n<p>&#8211; Viemos pedir que voc\u00ea use palavras mais antigas em seus textos e conven\u00e7a seus colegas a fazer o mesmo. Procuramos voc\u00ea porque seu vocabul\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o jovem assim (pudera, Joel tinha mais de 70 anos). Vai ser melhor pra n\u00f3s e pra voc\u00ea. Eles est\u00e3o amea\u00e7ando atacar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eles quem? \u2013 perguntou o contista. Mas j\u00e1 desconfiava da resposta.<\/p>\n<p>&#8211; Os termos mais antigos da l\u00edngua, surgidos com o reino de Portugal. Os mais novinhos dentre eles viajaram nas caravelas, s\u00e3o veteranos da epopeia das navega\u00e7\u00f5es lusas e da conquista das \u00cdndias.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o uns brutos! \u2013 refor\u00e7ou P\u00e1 virada \u2013 Est\u00e3o acostumados a resolver as coisas \u00e0 antiga portuguesa, que dizer, na porrada. Tenho calafrios s\u00f3 de pensar!<\/p>\n<p>&#8211; E quando souberam que pretend\u00edamos procur\u00e1-lo \u2013 acrescentou Chiqu\u00ea \u2013 , os var\u00f5es se armaram e decidiram atacar. Mas voc\u00ea est\u00e1 avisado, empregue palavras mais antigas em seus textos e tudo vai ficar bem.<\/p>\n<p>Nesse momento, ouviram-se vozes masculinas zangadas, e tr\u00eas palavras se corporificaram. Uma tinha a forma de um homem enorme, de bra\u00e7os e pernas fortes, despido exceto por uma tanga; a outra, de um guerreiro medieval, armado da cabe\u00e7a aos p\u00e9s; e a terceira, de um homem aparentemente nu, todo coberto de pelos \u2013 um Tony Ramos elevado \u00e0 en\u00e9sima pot\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o o membrudo, o fa\u00e7anhudo e o hirsuto \u2013 explicou chiqu\u00ea, escondida atr\u00e1s do contista.<\/p>\n<p>&#8211; Pranchai o vil\u00e3o! Abatei o labrego! \u2013 berrou o fa\u00e7anhudo. \u2013 E erguia com ambas as m\u00e3os o montante, preparando-se para golpear, como fizeram os her\u00f3is lusos diante dos castelhanos em 1385, na batalha de Aljubarrota.<\/p>\n<p>O hirsuto nada dizia. Limitava-se a um sorriso idiota, com direito a baba, e a avan\u00e7ar de bra\u00e7os abertos, para envolver com seus pelos o fr\u00e1gil corp\u00edcio de Joel. O mais amea\u00e7ador era o membrudo. Flexionava os bra\u00e7os musculosos, que lhe valeram a designa\u00e7\u00e3o, sorria e o amea\u00e7ava com algo enorme, tirado da tanga e apontado para ele. Seu sorriso n\u00e3o era bobo como o do hirsuto, era obsceno. O contista tremeu nas bases.<\/p>\n<p>Antes que os tr\u00eas o alcan\u00e7assem, por\u00e9m, conseguiu puxar da tomada o fio do computador, desligando-o. Com isso, as cinco palavras sumiram, voltando aos dicion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A partir desse dia, Joel faz quest\u00e3o de utilizar, em cada texto, pelo menos um termo das antigas. Seus amigos riem, chamam-no de velho, mas no fundo invejam a riqueza de seu vocabul\u00e1rio. Mal sabem eles que n\u00e3o se trata de pedantismo, nem de mostra de erudi\u00e7\u00e3o, mas de uma pitada de prud\u00eancia, inspirada por um sentimento bem brasileiro: o bom e velho caga\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joel produzia contos, muitos deles com uma mescla de erotismo e humor. 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